Espectro do abandono, infância de incertezas

O administrador de empresas Antônio Matos (nome fictício), 29 anos, viveu a infância como um malabarista amador, a manejar desastradamente suas angústias, dúvidas e mágoas. Quem era o seu pai? Onde estava? Por que não o procurava? Perguntas sem resposta exerciam o peso de malabares de chumbo na cabeça do menino do município de Serrinha, na Bahia. Filho de uma dona de casa e de um empresário bem-sucedido, aos 19 anos Antônio até sabia o nome de seu progenitor, mas jamais o havia visto.
“Sempre tive curiosidade de saber quem ele era. Só me faltava coragem de perguntar, porque eu também não queria constranger a minha mãe, fazê-la relembrar um passado que talvez não quisesse. Mas os meus familiares não aceitavam que eu vivesse naquela situação, com a identidade sem o nome do pai, e passaram a me dizer que eu merecia saber. Minhas tias o procuraram e a gente começou a se aproximar”, rememora Antônio.
A reaproximação entre filho e pai biológico aconteceu mediante exigência de teste de DNA. Comprovada a paternidade, passaram a manter contato por telefone ou em visitas esporádicas do empresário a Serrinha. “Logo em seguida eu vim morar em Aracaju e o nosso contato ficou restrito a telefonemas e a alguns momentos de feriado. Quatro anos depois, surgiu a oportunidade de abrir uma nova loja e ele acabou me chamando para trabalhar”, diz o administrador de empresas.
Para Antônio, aquele era o momento em que seria definitivamente adotado como filho, o que não ocorreu. “Nosso relacionamento era uma coisa muito fria. Ele poderia ter tido uma atenção mais forte e, de alguma forma, acredito que eu também assumi uma postura defensiva, pois achava que as coisas haviam acontecido de forma errada. Na verdade, eu sentia um certo rancor por ele não ter me procurado bem antes, e isso dificultou muito. Talvez hoje a relação fosse outra se tivéssemos um contato afetivo desde cedo. Eu não tenho intimidade de falar com ele como pai. Não consigo ter esse tipo de afinidade”.

UM PAI, UM NORTE
Apesar das tentativas de agrado, o pai biológico de Antônio jamais conseguiu dividir igualmente o carinho e a atenção entre ele, sua esposa e os seus dois outros filhos mais novos. Pior: a relação passou a ser mensurada em cifras. “Tentou-se entrar no âmbito comercial, e não paterno, e aí houve muito erro da parte dele e da minha também. Depois disso, eu fiquei muito magoado com coisas que aconteceram. Essa mágoa ainda é forte, mas eu tento, da melhor forma, conduzir isso. Ele diz que me considera como filho mesmo, mas eu ainda sinto que não é bem assim. Eu voltei para Aracaju há quatro anos, saí de lá sem querer contato, pensei até em esquecer que tinha um pai. Mas depois, com uma certa insistência dele, voltei a ceder um pouco e hoje acho que vale a pena tentar fazer uma amizade. Eu não o tenho como pai, mas acredito que isso possa ser contornado daqui pra frente”.
Criado pela avó e pela mãe, o menino Antônio tornou-se um homem de caráter, de boa conduta, um bom profissional, mas ainda sente o peso da ausência paterna em sua vida. “Acho que é até mais fácil ter um pai que não seja uma boa referência. Você fala assim: ‘Pô, esse cara não é um exemplo, mas é o que eu tenho’. Já eu não tinha nem como dizer se meu pai era bom ou ruim, e conduzir a vida sem nem saber se essa pessoa que existe seria boa ou não deixa você sem norte”.
As perguntas sobre os tempos de criança ainda fazem Antônio respirar fundo antes de cada resposta. “Foi difícil para mim, tanto que em todo homem mais velho com quem eu fazia amizade buscava aquela atenção, aquele conforto que me faltava de um pai verdadeiro. Não tenho como não relacionar essa ausência à escola, ao Dia dos Pais. Tudo bem que meus tios tentavam supri-la, mas, no fundo, eu sabia que a atenção especial deles seria sempre para os seus filhos”. Em Serrinha, sempre que perguntado sobre o paradeiro do seu pai, o menino desconversava, e se as perguntas persistiam, respondia para encerrar o assunto: “Já morreu. Não tenho pai não. Infelizmente não tive”.

Comentários

maicher disse…
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