Eis aqui a grande invenção da internet! A inimaginável fusão do boteco, ponto de discussões filosóficas e nascedouro das soluções para todos os problemas políticos, econômicos e sociais do mundo, com o hospício, furna da mais pura sinceridade, livre das convenções, amarras e obrigações sociais. Coerências ou devaneios, tudo vale. Tudo é possível. Portanto, seja bem-vindo! Entre, sente, tire a camisa de força e tome mais um gole, sem pressa para pedir a saideira.

quarta-feira, março 31, 2010

Raça, nem que seja por uma tubaína


Retornar a Alagoinhas é reviver a fase mais feliz da minha vida. É rever grandes amigos, relembrar histórias homéricas de traquinagem da infância e, porque não, rememorar os grandes clássicos no chão batido da rua Parque São José, bairro Silva Jardim. Jogos acirrados valendo tubaínas.

Poucos eram os verdadeiramente bons de bola. Tínhamos atacantes como Lê e Caatinga, que raramente faziam gol, não faziam o pivô, não atraíam a marcação, não tinham visão de jogo e viviam a mercê da vontade da pelota. Depois de passar por eles, o destino da gorduchinha era sempre incerto.

Na defesa, Sivaldo e Anderson formavam a dupla dos antizagueiros. Baixos e magricelas ao extremo, não assustavam os atacantes adversários. Sivaldo, mais raçudo, até ganhava algumas divididas, isso porque era duro feito uma pedra. O problema é que, para ele, fazer uma curva era um enorme sacrifício.

Daí que nossa melhor defesa sempre foi o ataque - pelo menos quando Lê e Caatinga não estavam em campo. A velocidade de Érico, ainda mais magro que Anderson e Sivaldo, era uma das melhores armas da equipe. Eu, modéstia à parte, com uma canhota calibrada, também não sentava no banco de reservas, mas justiça seja feita, apenas o Zé Fábio, outro canhotinho dos bons, tinha habilidade suficiente para ser um jogador profissional.

Ainda assim, era ali no Silva Jardim, depois de improvisadas as traves de madeira, pedra ou até mesmo de sandálias, que todos nós virávamos os reis do futebol e fazíamos da rua estreita um Maracanã em dia de Fla-Flu. Marcávamos gols e comemorávamos como se estivéssemos jogando para milhares de pessoas - diga-se de passagem, o único com paciência de nos assistir era o Tio Ubaldo, pai de Anderson, que dividia as atenções entre as nossas peladas e o futebol profissional no seu radinho de pilha.

Lembro-me que, num desses clássicos memoráveis, Caatinga precisou deixar o campo e desfalcou a nossa equipe - nem sempre tínhamos reservas. Depois de mandar o atacante tomar banho por três vezes sem sucesso, a saudosa Tia Etinha, mãe de Caatinga, perdeu a paciência e já saiu de casa ameaçando dar no moleque. Mesmo com 'menos um a menos', nosso time não se intimidou, colocou o coração na ponta dos dedos - óbvio que não havia chuteiras - e venceu a partida num placar apertado: 6 a 5. A festa parou a rua, pelo menos a da nossa imaginação. Ao ouvir os gritos da gurizada, Caatinga não se conteve, driblou Tia Etinha e saiu pra comemorar - todo molhado, com os cabelos desgrenhados e de cueca. Parecendo um louco.

Hoje, relembrando dessa história e olhando para a situação do Sergipe, vejo que o alvirubro precisa de determinação fora e dentro das quatro linhas para afastar o fantasma do rebaixamento. Por pior que seja o dirigente, ele não entra em campo e cabe ao time mostrar poder de superação, como mostrou na virada deste domingo sobre o Itabaiana. Mas no meio da semana, a facilidade com que o São Domingos marcou o segundo gol contra o Sergipe em pleno Batistão, denunciou a apatia do Mais Querido. Nem mesmo as crianças do Silva Jardim seriam dribladas tão facilmente pelo Edinho, que deixou três marcadores para trás sem fazer o mínimo esforço e iniciou a jogada fatal.

Fala-se que o problema pode estar nos salários atrasados e é claro que ninguém deve trabalhar de graça, mas jogador que faz corpo mole pode se afundar junto com o time, o que não é nenhuma grande novidade no futebol. Aliás, neste ponto, os guris do Silva Jardim sempre foram mais profissionais que os atletas. Mesmo diante da possibilidade de pagar as tubaínas para deleite do adversário, nós jamais esmorecíamos em campo. Havia uma questão de honra, de brio, que valia mais do que o prêmio.

terça-feira, março 30, 2010

No epicentro da dor, a lição de solidariedade

Enfermeiro sergipano relata a experiência de quem conviveu com o Haiti devastado pelo terremoto


Dênison (centro) e colegas salvam criança da amputação

Mais de duzentos mil mortos, trezentos mil feridos, quatro mil amputados, um milhão de desabrigados. Em 12 de janeiro de 2010, um terremoto de magnitude 7 na escala Richter devastou o Haiti, país mais pobre das Américas. E por mais que o tempo passe, o cenário de destruição permanece – e permanecerá para sempre – nos escombros da memória de quem viveu o epicentro da dor, da agonia, do desespero.
“O que mais doía era ver as crianças amputadas. Bebês de 1, 2 anos, sem os membros inferiores, sem família. Quando não morrem, saem do hospital e são jogados em um orfanato, isso se houver vaga. Numa situação dessa você não tem nem o que pensar”, diz o enfermeiro sergipano Dênison Pereira, professor do curso de Enfermagem da Universidade Tiradentes e único nordestino entre os 16 profissionais de saúde convocados pela Associação Médica Brasileira para uma missão humanitária no Haiti.
Durante 19 dias, a equipe brasileira formada por médicos, enfermeiros e um técnico de Raio-X realizou 180 cirurgias ortopédicas e mais de 450 procedimentos não cirúrgicos. “Trabalhávamos ostensivamente, cerca de 15 horas diárias, dormíamos em barracas, com muito mosquito, nossa alimentação era escassa. Cheguei a perder quatro quilos”, relata Dênison.
A descrição da capital haitiana vem como a de uma ‘cidade fantasma’. “Porto Príncipe está completamente abandonada, não tem um prédio em pé. Você passa nas ruas e percebe que foram totalmente devastadas. De um lado a destruição; do outro, milhares de barracas que abrigam os sobreviventes – sem saneamento básico, sem alimentação, pessoas pedindo, saqueando, chegam a ser até agressivas por conta da necessidade. Coleta de lixo não existe e o odor é terrível. Porto Príncipe é fétida e você não consegue de forma alguma se livrar daquilo”, conta o enfermeiro e professor.
Dênison Pereira tem 12 anos de sua vida dedicados ao trabalho de urgência e emergência, participou em 2008 de um curso de gerenciamento de catástrofe em Israel. A missão no Haiti deu ao enfermeiro mais um ensinamento: o de que a dor da perda pode ser bem mais dilacerante que a dor física. “As pessoas em tratamento perderam toda a família ou alguém próximo. Esta é a situação mais triste e faz com que os sobreviventes apresentem quadro depressivo. Eles estão no hospital, mas quando recebem alta não têm para onde ir, perambulam sem o apoio do pai, da mãe. O terremoto devastou o Haiti e ninguém saiu ileso. Até a vida da gente é devastada, tanto que os 16 integrantes da equipe deixaram roupas, dinheiro, tudo”, comenta.
De volta às atividades acadêmicas, Denison aproveita cada instante de aula para retransmitir a lição da solidariedade. “Além de ensinar técnicas de enfermagem, tenho cuidado em educar os alunos para que sejam ainda mais solidários com os pacientes. Nós sempre pensamos que uma catástrofe nunca pode acontecer conosco, mas de repente acontece e os acadêmicos precisam estar preparados para ajudar o próximo”.

Porto Príncipe: cenário da destruição


quarta-feira, março 24, 2010

Entre radares e ladrões

A imagem acima é apenas uma boa piada, mas eu tenho uma posição muito clara quanto à colocação de radares no trânsito de Aracaju: recebe multa quem quer, é irresponsável, não se preocupa em ler as placas de sinalização. É fotografado e obrigado a depositar uma boa grana nos cofres públicos quem abusa da imprudência e do desleixo.

Quando da instalação dos primeiros radares na capital eu, então editor de Veículos do Jornal Cinform, fui um dos únicos da imprensa sergipana a apoiar a atitude da Prefeitura, contradizendo até a opinião dos meus colegas jornalistas. Em um dos editoriais, fiz duras críticas a quem colocava a politicagem barata acima da cidadania e exibia no veículo adesivos como "Visite Aracaju e ganhe uma multa". Muitas vezes eram pais que faziam questão de dar aos filhos o "belo" exemplo de desrespeito às leis de trânsito.

Agora uma coisa também é certa, viu: a Smtt tem exagerado na colocação de radares, sobretudo na região da 13 de Julho e Beira Mar. É fiscalização demais onde não acontecem tantos acidentes assim (eu passo lá todo dia, em horários de pico). E ainda que a instalação desenfreada de radares seja interpretada como excesso de cuidado com a vida de condutores e pedestres - e não como cata moedas -, será que não existem outras prioridades no governo municipal ou pontos mais críticos do trânsito de Aracaju que necessitem de um olhar mais atencioso da Smtt???????

sexta-feira, março 05, 2010

“Cyber repórter” em 45 horas ou menos!

Tem gente prometendo formar trabalhadores de imprensa em 45 horas ou menos! Duvida? Acesse o site do “Cursos 24 Horas” e tire suas conclusões. Dentre inúmeras opções de cursos, o bendito oferece o de jornalismo on-line e não só garante que você vai se tornar um “cyber repórter de sucesso”, como irá “perder o medo da tecnologia” e “ganhar dinheiro no ramo” – diga-se de passagem, essa estória de ganhar dinheiro no jornalismo não há universidade no mundo que ensine.
O anúncio é pomposo: “velocidade, tempo-real, hipertexto, interatividade, convergência de mídias (...) essas são as principais características do jornalismo na internet que você vai conhecer e dominar (...) vai também saber que é possível compatibilizá-las com a redação de um bom texto, correto, atraente, para conquistar a atenção do leitor”. Ao final da propaganda, um banner anuncia o valor do “investimento” do “cyber aluno”. R$ 40 por 45 horas de aulas, podendo o estudante concluir o curso em mais ou menos tempo, a depender do seu ritmo e disponibilidade. Pré-requisitos? “Nenhum”. Está lá escrito.
Sinistro, né? Mas quer saber? Se os sábios ministros do Supremo Tribunal Federal – o que inclui o nosso sergipano Carlos Ayres Britto – deram guarida a esta disseminação desenfreada do pseudojornalismo, eu só posso estar errado em querer andar na contramão. Portanto, antes que seja tarde demais para me redimir, resolvi copiar abaixo alguns tópicos do complexo conteúdo programático do curso de jornalismo on-line do 24 Horas e acrescentar algumas dicas. Quem sabe não facilito a vida de muitos “cyber alunos” que pretendem transformar-se em “cyber repórteres” em tão pouquinho tempo?

CURSO 24 HORAS JORNALISMO ON-LINE
COMPLEXO CONTEÚDO PROGRAMÁTICO
(com dicas do Botecospício)

Sites úteis (Viva La brasa; Artorpedo; Força da Palavra; Flor de Hospital... certamente ensinarão mais a você do que este conteúdo programático mequetrefe);

Criando uma Agenda de Fontes (É de bom tom, sempre que anotar o número telefônico de alguém, copiar também o nome da pessoa e, se não for muito difícil, a profissão e local onde trabalha. Acredite, vai facilitar sua pesquisa mais tarde);

Criando uma Agenda de Pautas (procure fazer pautas frias para movimentar o site em situações de falta de matérias factuais. Mas atenção: não é recomendável agendar acidentes e crimes. Dá cadeia);

Hipertexto (não, idiota! Não é o mesmo que super, ultra e megatexto!);

O E-mail (Se ainda não o conhece, procure outra profissão. Mas atenção: em caso de desistência, o Curso 24 Horas não tem a obrigação de devolver o seu dinheiro);

Ganhando dinheiro no ramo de Jornalismo On-Line (Impossível, a não ser que você vire empresário. Mas aí deixa de ser cyber repórter, né?)