Eis aqui a grande invenção da internet! A inimaginável fusão do boteco, ponto de discussões filosóficas e nascedouro das soluções para todos os problemas políticos, econômicos e sociais do mundo, com o hospício, furna da mais pura sinceridade, livre das convenções, amarras e obrigações sociais. Coerências ou devaneios, tudo vale. Tudo é possível. Portanto, seja bem-vindo! Entre, sente, tire a camisa de força e tome mais um gole, sem pressa para pedir a saideira.

terça-feira, agosto 30, 2011

Retrato do antiartista quando coisa

 
“Alvinho!”, gritou Paulo Lobo. Depois foi Dirceu de Marília. Daí veio Edson e pronto. Lá estava eu, cercado de “Alvinhos” por todos os lados.
Alguns ditos por velhos parceiros de farra; outros, mais despretensiosos, ganhavam eco na voz daquela gente desconhecida, que nas altas da madrugada não faz cerimônia e se aconchega na fronha da amigueira boemia.
Enfim, havia chegado a hora da minha canja e eu não podia dizer não. O bar estava vazio, é verdade, mas para um sujeito de timidez acentuada e autocrítica sem limites, qualquer banquinho de boteco vira o palco do Tobias Barreto – em noite de casa cheia.
Primeiro vem o frio na barriga; o gelo nas mãos. Levanto sem graça, pego o violão, bebo um gole. Bebo outro. Mais alguns goles; mais algumas doses. E a coisa só piora. A canja começa e os primeiros acordes são trêmulos. A voz também vacila, reluta, desafina. E eu fico mais nervoso.
Tem ainda aquele momento em que a memória se esvai. Dá branco na execução das notas e letras. Risinho amarelo, aquele olhar vago, para cima, que evita encarar o público de frente, enquanto procura os acordes e versos perdidos no ar. Nessa hora, o nervosismo dá lugar a uma vergonha mais serena, digna de um antiartista que sabe – precisa parar.
Desço do banquinho e embainho o violão fingindo que ninguém me vê. E, por mais que goste das madrugadas e violões, por mais que ame a boa música, retoco a certeza de que não sou artista.
Não sou artista, primeiro, porque não tenho alma de artista. E para completar, não componho como Gilton e Paulo Lobo; não toco violão com a destreza de Heitor Mendonça ou o suingue de Samuca; não canto como Fábio Lima; não tenho a presença de palco de Dirceu, e muito menos a criatividade de Djenal Gonçalves. Não tenho a poesia de Anderson Ribeiro. Sou um mero reprodutor de melodias, ainda assim, continuarei a arranhar meu pinho toda vez que os amigos pedirem a fatídica canja. Um dia, quem sabe, eles se cansam de mim.

segunda-feira, agosto 29, 2011

É Noite

Fernando Pessoa

É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância
Brilha a luz duma janela.
Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.
É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, e que não sei quem é,
Atrai-me só por essa luz vista de longe.
Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão.

Mas agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.
Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
Se eu, de onde estou, só veio aquela luz,
Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
A luz apagou-se.
Que me importa que o homem continue a existir?