Eis aqui a grande invenção da internet! A inimaginável fusão do boteco, ponto de discussões filosóficas e nascedouro das soluções para todos os problemas políticos, econômicos e sociais do mundo, com o hospício, furna da mais pura sinceridade, livre das convenções, amarras e obrigações sociais. Coerências ou devaneios, tudo vale. Tudo é possível. Portanto, seja bem-vindo! Entre, sente, tire a camisa de força e tome mais um gole, sem pressa para pedir a saideira.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Da série "Como é que eu não pensei nisso?"

"A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda". (Mário Quintana)

segunda-feira, novembro 12, 2007

Tudo sobre minha mãe


Minha mãe sempre foi professora pública. Nasceu pra isso e assim morrerá. Aos sessenta e poucos anos – confesso não saber ao certo –, trabalha manhã, tarde e noite pra sustentar sua casa em Alagoinhas. Fazer o quê? Em um país de eleitores semi-analfabetos de cabresto, ser professor é padecer no paraíso da corrupção. E ganhando mal pra caralho.
Hoje, quase dez anos após sair de casa e com um canudo de jornalista guardado não sei onde, sinto-me como minha mãe. Neste Bunda-Brasil de índice pífio de leitura e do resumo das novelas que o povo lê e, sabe-se lá como, ainda se emociona no dia seguinte, mesmo já sabendo o final – eu também preciso ralar os três turnos para pagar as minhas contas.
Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todas as dívidas do mundo. E tão somente por ter resolvido abraçar uma profissão que atende ao interesse público, e não ao interesse do público. Mexer a bunda custa caro; escrever sobre política, economia, segurança pública, cultura é barato. Ninguém quer ler. Mas, ainda que não queira, serei jornalista até o momento do meu suspiro derradeiro. Até porque não tenho bunda pra rebolar. Seria ridículo.
Sou como minha mãe. Nasci pra isso e assim morrerei, sabendo que as pessoas preferem o novo penteado da “socialaite” a uma matéria aprofundada sobre os problemas que verdadeiramente afligem a nação. Acabarei jornalista, ainda que as empresas prefiram pagar 50% do meu salário por notinhas milimétricas vazias em colunas sociais. Irei às ruas, darei a cara à tapa e, ao fim do mês, engordarei o saldo bancário dos contatos comerciais – aqueles caras que vendem espaços às custas do meu suor e levam os louros sem jamais precisar ouvir as blasfêmias do político corrupto, empunhar o gravador contra o homicida, circular entre a imundície dos presídios, adentrar matagais, receber insultos, transitar em meio a tiroteios, olhar nos olhos da criança faminta, explorada ou abusada sexualmente... AH! E SEM CONTAR A PERDA DOS SÁBADOS, DOMINGOS E FERIADOS!
Por sorte, os empresários dos outros ramos de atividade ainda pensam diferentemente dos donos da imprensa. Se enxergassem o jornalismo de tal forma descartável, panfletariam nas ruas e não anunciariam em jornais e aí, sim, não haveria dinheiro nem pra mim, nem pros contatos comerciais, nem pra ninguém. Mas enquanto o empresariado não pensa dessa forma, sobrevivo jornalista. Subsisto jornalista. Ainda que em Sergipe o piso salarial equivalha ao de um motorista de ônibus – nada contra, mas desconheço um curso sequer de bacharelado em condução de veículos. Resisto jornalista graças a essa teimosa mania de achar que estou sendo útil à sociedade.
Diz o meu amigo João Augusto, um dos grandes jornalistas sergipanos: “Independente do teor da denúncia, a glória do repórter só dura algumas horas após a publicação da matéria. Depois disso, ele precisa se preocupar com a matéria do dia seguinte e, se fizer mal feita, ainda corre o risco de perder o emprego”. Acho que João tá certo. Mas nem eu e, cá entre nós, nem o próprio João conseguimos acreditar nessa merda. E exatamente por isso estamos fadados a morrer escrevendo “linhas preciosas” que, na prática, não mudarão a vida de ninguém. Na melhor das hipóteses, em uma sociedade semi-analfabeta, de leitura e criticidade preguiçosas, enrolarão peixes na feira. Esta é, talvez, a forma menos humilhante de o nome de um jornalista adentrar as casas dos brasileiros. Quando não, estará estendido no canto de uma cozinha qualquer, a amparar excrementos do cachorrinho da "madame".

quinta-feira, novembro 08, 2007

Lá vem bomba!

Descoberta fará Brasil virar exportador de petróleo, diz Dilma
CIRILO JUNIOR
da Folha Online, no Rio
A descoberta de reservas gigantes de petróleo no campo de Tupi, na Bacia de Santos, anunciado na manhã desta quinta-feira, coloca o Brasil em um novo patamar na indústria do petróleo, disse o governo federal.
"É algo que poderá contribuir para que o Brasil passe de nação intermediária no setor de petróleo e entre em outro patamar. Se tudo isso de extensão for confirmado, o Brasil passará à condição de país exportador de petróleo", afirmou a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil).
Os testes realizados pela Petrobras no campo indicam um volume recuperável de 5 bilhões a 8 bilhões de barris de óleo e gás natural. Trata-se da metade de todo o petróleo descoberto pelo país nos últimos 50 anos, segundo Dilma.
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Logo, logo Bush estará na TV dizendo que Lula fabrica armas químicas e mísseis norte-americanos explodirão em nossas cabeças.... É o fim.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Óia o que fala!


Se você é jornalista - assim como eu - e gosta de botar apelido nos colegas de redação - assim como eu -, precisa estar atento - assim como eu. Pra não acabar fazendo, ou melhor, dizendo merda. Assim como o William Waack.

sexta-feira, outubro 19, 2007

Nossa guerra

Cristovam Buarque



Na semana passada, no município catarinense de Joaçaba, uma moça pôs um gravador na minha frente e perguntou: "O que você diria ao pai de um jovem de 16 anos que diz ter decidido ser professor?" Respondi: "Diria que me sentia como se o rapaz estivesse se alistando no Exército em tempos de guerra. O pai tem todo o direito de se assustar com o futuro do filho, mas tem motivos para se orgulhar do seu patriotismo". A pergunta de Santa Catarina se justifica plenamente. Hoje, raros pais ficam felizes com a opção de um filho pelo magistério.
Um mês atrás, em Brasília uma professora da rede pública me disse que o pai deixou de falar com ela, desde quando ela lhe comunicou sua opção pelo magistério. No Brasil, escolher o magistério é um gesto extremo, como alistar-se para ir à guerra.
É triste reconhecer, mas a carreira de professor não oferece um futuro promissor. O jovem que escolhe essa carreira provavelmente terá um salário baixo, trabalhará em escolas fisicamente degradadas, não contará com modernos equipamentos, enfrentará turmas desmotivadas e estará sujeito a atos de violência. Entretanto, são esses os profissionais que enfrentarão a guerra da construção do futuro do Brasil. São soldados do futuro, são patriotas.
A razão óbvia para essa posição está nas péssimas condições de trabalho, inclusive salariais. Por trás, há razões mais profundas. Quando um jovem escolhe a carreira de médico ou engenheiro, o pai vê três vantagens: um futuro promissor, uma boa remuneração e o orgulho de filho que ajuda a construir o País. É um soldado do futuro e bem pago. Na opção pelo magistério, o pai não tem o sentimento de construção do futuro, do respeito social pelo filho, e sabe dos baixos salários que ele provavelmente terá.
Ainda mais do que o salário, o que pesa na frustração dos pais é a falta de reconhecimento, como se esta fosse uma profissão menor. Mas a falta de reconhecimento decorre principalmente do baixo salário. Cria-se um círculo vicioso: não é uma carreira de sucesso porque os salários são baixos, e não há reconhecimento. O professor se sente diminuído e mais diminuído fica.
Os servidores do Banco Central fizeram uma greve, no mesmo período que professores em diversos estados. Em média, o simples aumento pleiteado pelos funcionários do Banco Central equivalia a quase duas vezes o salário mensal dos professores. Porque, na visão do Brasil, a educação é secundária. Não se percebe que o futuro econômico nacional está no capital-conhecimento, e que a quebra da desigualdade social só virá com o acesso de todos a uma escola com a mesma qualidade.
Quando a falha de infra-estrutura aérea ficou evidente, o governo decidiu construir novas pistas, novos aeroportos, trens especiais para levar os passageiros. Bilhões de reais foram rapidamente prometidos. Isso porque os aviões precisam decolar. Mas não há recursos para fazer o País decolar com a construção dos aeroportos do futuro: as escolas.
A maior dificuldade para tirar o Brasil do impasse que vive sua sociedade é convencer a opinião pública de que a escola é importante e os professores são os construtores do futuro.
Quando isso acontecer, no momento em que nascer uma criança, seu pai vai colocá-la nos braços, olhará seu rostinho e dirá: "Quando crescer, vai ser professor". E pensará: "vai ter uma bela carreira, um bom futuro e ajudará o Brasil a vencer nossa guerra contra a pobreza, o atraso, a desigualdade". Nesse dia, a pergunta feita na semana passada perderá o sentido.
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Em homenagem a Ires Müller, Ester Mambrini e Érico de Melo Xavier.



sexta-feira, setembro 28, 2007

Esgoto invade maior hospital de Brasília

Um vazamento na rede de esgoto provocou uma inundação no primeiro andar do Hospital de Base, o maior do Distrito Federal. Um cano estorou (sic) e os funcionários tiveram que limpar o esgoto que invadiu o hospital. O mesmo problema, dizem os funcinários (sic), ocorreu na semana passada no térreo do Hospital de Base.

As obras para troca da tubulação e das lâmpadas já começou (???) no Hospital de Base, mas não há previsão de quando serão concluídas. Além da infra-estrutura comprometida, falta material cirúrgico, inclusive para operações de alto risco.
(globo.com)

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Pelos "SICs" e pelas "obras já começou" não sei quem tá mais na m...., a saúde ou o jornalismo em Brasília...

domingo, setembro 23, 2007

Pitada de poesia

Eu pressuponho que escrevo por sobrevivência.
O texto me exaure até a asfixia plena.
É sempre um óbito necessário.
(Ézio Deda - poeta sergipano)

quinta-feira, setembro 20, 2007

Prazer, eu sou o Calheiros

Renan Calheiros foi absolvido. E daí? A cassação não é um ato punitivo. É um prêmio. O ladrão de galinha mofa no xilindró. O de gravata simplesmente é cassado, tira umas férias remuneradas – com os nossos impostos, diga-se de passagem – e, graças aos votos de cabresto e à anêmica memória da Nação, retorna ao poder com olhar compadecido, discurso democrático afiado, entre abraços calorosos de bajuladores e comparsas. Um regresso triunfal, hollywoodiano.
Roberto Jefferson foi cassado e virou celebridade. Lançou livro. Em seu blog, define-se “ex-deputado, 54 anos, advogado, aprendiz de cantor”. É, de fato, um artista nato. ACM, este bem mais astuto, violou o painel do Senado e logo deu um jeitinho de escapar aos oito anos de cassação (pena cruel por demais para quem viveu sob a égide do autoritarismo e, como um carrapato, cevou a sugar o sangue, derramado, por que não dizer, pela ditadura militar). Sim, ACM renunciou e, dois anos depois era um senador reeleito. Somente no mês passado, por conta de uma intimação do cara lá de baixo, partiu, acredito, de uma vez por todas (em se tratando do Malvadeza, não duvido que ressurja qualquer dia desses em pleno Pelourinho, ao lado de Dona Canô, nos braços do povo baiano e com Caetano, Bethânia e Gal a cantar o Hino do Senhor do Bomfim).
Casos como o do Cabeça Branca, Roberto Jefferson, Luiz Estevão e, agora, do todo-poderoso Renan Calheiros fazem-me esquentar o juízo... Diabos, por que ninguém questiona a própria prática da cassação???? A imprensa, a academia, o empresário, o intelectual, a miss entrevistada a respeito do seu novo penteado, o jogador de futebol a discursar sobre o jogo beneficente para ‘as criancinhas da África’, a atriz que estréia seu mais novo espetáculo, o português da padaria, o dono da banca de jornais, o cara que limpa o vidro do meu carro nos semáforos... Enfim... por que só para mim a cassação é mais imoral do que a absolvição, já que lugar de ladrão é na cadeia e não lançando livros e blogs?
A história de Renan Calheiros virou ‘escândalo’ até o momento da sua absolvição. Depois disso, amuou. Foi atirada à vala do esquecimento nacional. Como sempre, o brasileiro ensaiou insatisfação; enraiveceu à primeira denúncia do Jornal Nacional; remoeu a sem-vergonhice ao segundo dia; ao terceiro, preocupou-se em tecer breves e insipientes comentários. Por fim, no quarto dia, transformou o assunto em piada de mesa de bar e pronto. Voltou ao seu estado normal de catatonia.
Tudo isso porque brasileiro de responsa carrega consigo duas certezas: “Somos penta” e “Político é tudo igual” (como se não fosse ele o eleitor, ou, pior, reeleitor da calhordice engravatada). Perpetuada, esta última crença acaba fazendo-nos votar em qualquer um mesmo. No Rola, na Chana ou em quem mais puder nos esfregar à fuça como fazemos pornochanchada do futuro do país – e, obviamente, do nosso.
Somos nós, portanto, os embusteiros da nossa própria dignidade, capacidade de repulsa e, sobretudo, de mudança. Somos nós que, a cada eleição, digitamos números desatentos (você lembra em quem votou no último pleito?), olhamos rapidamente para a foto do sujeito a sorrir deslavadamente na urna e encarcamos o dedo no ‘Confirma’. Para agradecer o saco de cimento ‘dado’ durante a campanha; assegurar o cargo comissionado; ajudar um amigo candidato sem projetos, mas doidinho para usar a política como fonte de renda (este país é de tal forma imoral que, quando o ‘cidadão’ não tem mais como ganhar dinheiro, resolve ser político).
Somos nós a votar para salvar um outro amigo, este prestes a perder o emprego caso o seu ‘padrinho político’ seja expurgado do poder. Enfim, somos nós os verdadeiros bandidos. Os anti-heróis. Se não o fôssemos, já teríamos saído às ruas, em caminhada, a empunhar faixas e cartazes com mensagens de protesto (e sem precisar pintar a cara espetaculosamente, de forma festiva, para crescer a audiência da Rede Globo).
Invadiríamos o Senado, o Congresso, o Palácio. Recobraríamos a nossa decência. Assim, como num conto de fadas em que o mocinho vence a guarda do castelo e liberta a jovem indefesa. Não. Definitivamente, não somos os mocinhos. Sequer temos coragem de estender braços à nossa moral, pedindo para que jogue as tranças como Rapunzel. Somos bandidos e pronto. Não exigimos respeito aos nossos votos, pois nós sequer os respeitamos.
O discurso de que todo político é ladrão virou arma letal nas mãos corruptas da ‘esquerda’ e ‘direita’ deste país. É a estratégia perfeita para os mandos e desmandos, para os ‘desvios’ de milhões (quem leva pouco é ladrão safado. Quem leva muito é ‘ímprobo’). E nós, os pentacampeões brasileiros, assistimos a tudo passivamente. Financiamos a roubalheira e permitimos que os nossos representantes reúnam-se a portas fechadas para decidir o próprio destino e rir ironicamente da nossa cara. Da cara de milhões que, em casa ou nas ruas, forjam esperança, mas, em verdade, antevêem os crimes de colarinho e, entre escárnios como “Isso não vai dar é em nada!”, assumem a postura não menos depravada de total cumplicidade. Nós, o feliz povo brasileiro, endossamos a corrupção. Nos sabotamos. Por Deus e por tantos outros Renans que virão, somos nós os verdadeiros larápios. Somos nós os nossos verdadeiros Calheiros. Prendam-nos!

segunda-feira, setembro 17, 2007

Quem matou Taís?


Preparava-me pra redigir um artigo sobre o episódio Renan Calheiros, quando chegou ao meu e-mail o artigo abaixo, do Luciano Pires, autor de Brasileiros Pocotó. "Um cartunista interessado na provocAÇÃO, inspirAÇÃO, inovAÇÃO e na transformAÇÃO das pessoas" (assim ele se define). Bom, lancei mão do artigo (com a devida autorização do autor, é claro) e publico na íntegra, aproveitando para divulgar o Café Brasil, site do Luciano. Um espaço muito bacana, com críticas atualizadas, fóruns, vídeos, enquetes, entrevistas, indicações de livros, filmes etc. etc. etc. Vale a pena conferir (o site e o artigo!!)

Quem matou Taís?
LUCIANO PIRES

Lá para os idos de 1990, Renan Calheiros era um fiel escudeiro de Fernando Collor. Lembro que ele chamava atenção pelo cabelo sempre despenteado. Era uma figura estranha, vivendo na sombra do poder. Foi eleito senador pelo estado de Alagoas em 1994 e reeleito em 2002. Quando do impeachment, fazia parte da “tropa de choque” que defendia Collor.
Collor se foi, mas Renan ficou. E aprendeu como poucos a navegar no mundo da política. Foi ministro da Justiça no governo de Fernando Henrique Cardoso, ocasião em que presidiu a XI Conferência dos Ministros da Justiça dos Países Ibero-Americanos, e pouco depois a reunião dos ministros do Interior do Mercosul, Bolívia e Chile. Foi também presidente do Conselho Nacional de Trânsito (Contran); do Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente(Conanda); do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH) e do
Conselho Nacional de Segurança Pública (Conasp).
Em 2002, foi um dos mentores do Estatuto do Desarmamento. Chegou a Presidente do Senado Federal em 2005 e foi reeleito em 2007. O cabelo despenteado desapareceu, a roupa melhorou, o patrimônio aumentou. E ele acabou traçando aquela tetéia que era repórter da Rede Globo.
O resto já sabemos. O escudeiro transforma-se na figura central da política brasileira durante o primeiro semestre de 2007. Surgem denúncias em cima de denúncias. Mas o cara não cai. Resiste bravamente, de tal forma que começamos a desconfiar que ele tem mais do que inocência.
Ele sabe das coisas. Ou melhor, ele sabe de coisas. Sabe tanto que pode ameaçar:
- Se cair, levo um monte junto.
Esse é o risco que corre quem tem escudeiro. O escudeiro conhece as manias do príncipe, as fraquezas do príncipe, as sacanagens do príncipe. E seu conhecimento pode destruir o príncipe. Para livrar-se dele o príncipe tem que mandar matar. Ou aceitar a chantagem.
O que assistimos nos últimos meses talvez seja um dos maiores escândalos de chantagem pública “destepaíz”. Nunca antes um senador teve em suas mãos tanto poder, tanto conhecimento para causar medo.
Veja só: provoca o afastamento de Fernando Collor, que se licencia de seu mandato reconquistado depois de cumprir a pena pelo impeachment. Collor não pode votar contra seu ex-escudeiro. Provoca a saída do país do Presidente Lula, que faz teatro do outro lado do mundo. Destrói a carreira de Aloísio Mercadante, que mais uma vez tenta explicar o inexplicável, justificar o injustificável. Expõe a cara-de-pau de um Romero Jucá, de um Epitáfio Cafeteira. Deixa explícito que a mídia pode muito, mas não pode tudo.
Mancha definitivamente a imagem do Senado. É poder demais para um senador só, o que nos leva a perguntar: o que é que Renan sabe? Eu posso imaginar. Sabe de outros senadores e deputados que usam dos mesmos expedientes que ele usou para benefício próprio. Sabe tudinho do mensalão.
Sabe das negociatas para compra de votos, para mudança de legenda, para proteção de empresas devedoras frente ao fisco. Sabe das doações de bancos e grandes empresas. Sabe de concessões de rádio e televisão. Sabe quem come quem. Sabe dos propinodutos variados (aliás, quando é que uma CPI vai dedicar-se a esmiuçar os contratos da área de informática no governo?).
Deve saber dos acordos envolvendo as Farcs. Chavez. Fidel Castro. Sabe de muitos outros filhos fora do casamento. Talvez Renan saiba quem matou Celso Daniel e o Toninho do PT. Deve saber sobre os bastidores das privatizações. Conhece alguns – ou muitos – podres envolvendo as grandes estatais. Sabe do Kia, do Boris e do Corinthians...
Renan tem o poder supremo: informação. Ele manda em quem quiser. Ele dita regras, exige apoio e faz tremer. Renan pode tudo. E sabe que pode. Daí aquela segurança, aquela arrogância, aquele sorrisinho, aquele “abisolutamente”, aquela certeza, aqueles abraços e apertos de mão inexplicáveis. Renan é o cara.
Quer saber? Eu acho que Renan sabe até quem matou a Taís. E nós, que pensamos que sabemos das coisas e na verdade sabemos de nada? Vamos seguir a vida, bovinamente resignados e obedecendo ao supremo mandamento do novo Brasil:
– Cale a boca. E compre.
Será que o Renan sabe até quando?

sábado, setembro 01, 2007

Brasil, país da sindicância (e da "cinicância"!)



Atenção "representante do povo"!
Descobriram aquele ‘desviozinho’ de milhões do erário público que, sabe-se lá como, foram utilizados para financiar a sua campanha eleitoral???
Vidas ceifadas por falta de estrutura nos hospitais públicos que o senhor administra acabaram inconvenientemente ilustrando as primeiras páginas dos jornais???
Algum engraçadinho resolveu dizer a um repórter FDP que os detentos do presídio que o senhor administra recebem até pizza na cadeia???
Um desastrezinho aéreo mata mais de duas centenas de pessoas depois de o senhor investir pesado na ornamentação do aeroporto e ‘se esquecer’ de gastar bem menos pra reformar aquela pista de pouso onde outros aviões já haviam derrapado e vidas já tinham sido postas à prova???
Os descalabros da sua tragicômica gestão pública vieram à tona e a imprensa causou aquele furdunço que pode lhe arrancar votos nas próximas eleições???
SEUS PROBLEMAS ACABARAM! CHEGOU A SUPER-ULTRA-HIPER-MEGA SINDICÂNCIA!
Somente com a sindicância você consegue fingir tomar providências, tirar a imprensa chata do seu pé e ainda fazer o povo esquecer aquela improbidade ou aquela tragédia causada só porque você simplesmente sobrepôs a permanência da sua sigla partidária no poder ao bem-estar daqueles que elegeram a sua trupe! E a sindicância já tem efeito comprovado em todo o Brasil!

Em Sergipe, a morte de 12 bebês em menos de 15 dias na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal da Maternidade Hildete Falcão gerou uma indignação de proporções nacionais. Em reunião ontem com o Ministério Público, a presidente da Comissão de Controle da Infecção Hospitalar, Magali Soares, apontou, dentre os principais problemas, a superlotação da UTIN – que dispõe de 15 leitos, mas chega a ‘abrigar’ 25 neonatos. Em meio à possibilidade de surto de infecção hospitalar, a médica ressaltou ainda a falta de materiais de limpeza, como sabão líquido e papel toalha.

De bate-pronto, o secretário de Estado da Saúde, Rogério Carvalho, prometeu abrir uma sindicância para avaliar todos os erros encontrados em sua gestão (fico a imaginar o árduo trabalho dos inquisitores: “Cadê o sabão líquido? E o papel? NÃO COMPRARAM? E cadê o dinheiro? E por que ninguém informou isso à direção da maternidade, e nem ao secretário? Queriam o quê? Que eles, de seus gabinetes, percebessem que falta sabão e papel aqui?”).
É, assim, fica difícil... Quem nesse mundo imaginaria que faltavam papel toalha e sabão na Hildete Falcão? Superlotação da UTIN então... os prematuros são tão pequenos.. Impossível contar, pô!!!!

Mas o fato é que a sindicância será instaurada, provavelmente não dará em nada (não me recordo do dia em que uma sindicância resolveu alguma coisa), a imprensa imediatista voltará os olhos para outras tantas denúncias e a vida continuará – talvez não para boa parte dos internos da UTIN da Hildete Falcão...

Uma pergunta: e se os 12 recém-nascidos não tivessem morrido, haveria a tal sindicância???
A SINDICÂNCIA PELO BRASIL (notícias de outros Estados. Só pra contextualizar)

“A Prefeitura de Cotia, na Grande São Paulo, abriu sindicância nesta sexta-feira (24) para apurar como uma boliviana de 28 anos - sem registro de médica - atendia pacientes havia um mês em um pronto-socorro da cidade. Ela foi contratada pela prefeitura, que não conferiu o registro”. G1 – Portal de Notícias da Globo

“O presidente do Instituto Ambiental do Paraná, Rasca Rodrigues determinou nesta sexta-feira (31) a abertura de uma sindicância para apurar eventuais irregularidades em licenciamentos ambientais para corte de madeira. O resultado da sindicância será apresentado em 15 dias úteis”. Agência Estadual de Notícias do Paraná

“A Secretaria da Justiça, por meio da Direção Regional do Entorno de Brasília, abriu sindicância para investigar a morte do detento Fernando Homero da Silva, de 24 anos, na madrugada de ontem, 24, na Cadeia Pública de Santo Antônio do Descoberto. O preso, condenado por porte ilegal de arma, foi espancado pelos colegas de cela e morreu no Hospital Regional do Gama, em Brasília”. Goiás Agora

“A Secretaria da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos (SJCDH) já instaurou o processo de sindicância e definiu os integrantes da comissão que vai apurar possíveis falhas da equipe de segurança do Presídio de Salvador na fuga de presos ocorrida ontem (26). A portaria relativa à comissão de sindicância, emitida pela SJCDH, será publicada no Diário Oficial de amanhã (28)”. AGECOM – Notícias do Governo da Bahia

“O governo do Estado de Minas Gerais instaurou sindicância e inquérito policial para apurar as circunstâncias em que ocorreu uma briga entre presos na cadeia de Ponte Nova, na madrugada desta quinta-feira. Um incêndio causado durante o conflito deixou 25 presos carbonizados. A entradas de armas na unidade também será apurada, já que alguns dos detentos mortos foram baleados”. Folha Online

*Nota do autor: esse artigo não pretende ser instrumento de esquerda ou direita – sabe-se lá se ainda existe essa distinção na política nacional. A idéia aqui é tão somente mostrar como crimes bárbaros contra a vida e a dignidade do brasileiro são cometidos diariamente, e, de sindicância em sindicância, os culpados vão ficando impunes e, pior, reelegendo-se.

terça-feira, agosto 28, 2007

Adolfo é um mentiroso!

VIVA LA BRASA!

Adolfo Sá é um mentiroso. E eu posso provar!
Alguém cogitaria dar credibilidade a uma frase como “Álvaro Müller é meu amigo e por acaso um dos melhores jornalistas da nova geração”? Eu, particularmente, não. Acima de tudo, pela exacerbada referência ao meu “talento” jornalístico (ai meu São Pauteiro, existirá no mundo um bom jornalista homônimo a mim???). E depois, por que qualquer afirmação precedida do conjunto de palavras “é meu amigo” está passível de suspeição. Afinal, você já viu amigo falar mal de amigo???
Tudo bem que em seu blog Viva La Brasa o cara (que trabalha comigo na Aperipê TV, manda ver na edição de imagens e nos quadrinhos) até solta algumas verdadezinhas, do tipo “O boteco do Müller passou uns meses fechado mas reabriu semana passada, e está funcionando 24 hs. Em seu mais recente post, ele segue zoando o jornalismo-malhação que impregna a TV atual”... Verdade, Adolfo, verdade...
Pô! E por falar no Viva La Brasa, quem acessa o blog do Sá tem acesso a textos do ca... (ops! seguro-me pra manter a linha "old school").

Situações inusitadas e engraçadíssimas (como a entrevista do Adolfo embriagado em um programa de rádio local), dicas sobre altos sons, cinema, exposições, opiniões ácidas sobre o cenário político, econômico, cultural e social do Brasil e do mundo... Enfim, ninguém escapa ao senso crítico do Adolfo e.... Putz! Elogiei pra @#$@#%& o Viva La Brasa.. Mas, SOU AMIGO DO CARA!!!!... Ihhhhhhh... Estarei eu tirando a credibilidade das palavras que ora escrevo e nas quais acredito? Serei eu um mentiroso em potencial? Estarei eu destruindo a reputação de um blog que acho tão bacana??? Bom. Agora, f..... Quem quiser que pague pra ver. Ou melhor, clique pra ver.

sábado, agosto 18, 2007

Filhos da pauta!


"Três, dois, um. Início do off". Respiração ponderada e microfone em riste, o repórter televisivo anuncia, de forma pomposa, a sua morte. Em meio a tanto esplendor, a tanto espetáculo, não percebe que é um suicida. E que na televisão é assim. Retocam-se as maquiagens, borram-se os textos, enodoam-se as idéias, destemperam-se o faro investigativo e a criticidade do engomado jornalista.

A inquietude se foi. O olhar fulgurante, sedento, incisivo sobre a pauta praticamente inexiste. Abriu alas para uma apatia descomunal, para a incapacidade de questionamento; perdeu para o discurso medíocre da instantaneidade, do imediatismo; vergou-se frente a correria bestial para 'cobrir tudo' que, geralmente, acaba por não cobrir bulhufas.

O repórter televisivo deixou de ser a víbora e encarnou lagartixa. Perante o entrevistado, balança insistente e positivamente a cabeça, sorri de forma cínica, como se estivesse a processar as informações que recebe, mas nada disseca. As absorve apenas e, boas ou ruins, verdades ou mentiras, as regurgita na redação. Filho da pauta, agarra-se a ela como um rebento primata preso às costas da mãe. E não a larga por nada. Já não tem mais fontes. Já não sugere pautas – nem mesmo aquelas que gostaria de cobrir. Já não se orgulha por trazer da rua a informação a mais que a pauta não lhe dava. Não. O universo do repórter engomadinho e maquiado resume-se ao espaço de uma folha A4. E só.

Incompreendeu que é a alma do jornalismo. Pior, desaprendeu a ser repórter. Não fuça, não esmiúça, não escarafuncha nada. Deixou de ser o pugilista das palavras que, à primeira abertura de guarda do entrevistado, socava-lhe o estômago com uma pergunta ácida e fulminante, capaz de derrocar uma história inventada. Supervaloriza alguns segundos de passagem (momento em que aparece no vídeo) e os sobrepõem à sua capacidade textual e de discernimento, ao seu olhar crítico sobre as coisas.

Reúne a família para assistir às suas performances e sente-se um Deus. Crê em um reconhecimento tão ilusório quanto tem sido o seu papel de informador. Ego nas alturas (alguns sequer cumprimentam os colegas de profissão), sente a 'glória' do reconhecimento, quando, na verdade, é apenas um conhecido fadado ao esquecimento caso suma da tela por alguns meses ou até mesmo dias. Eis a prova da efemeridade em que a TV transformou o seu trabalho, mas que ele faz questão de reverenciar.

O repórter televisivo já não vê poesia em sua profissão. Escreve por escrever. E se estiver próximo de encerrar o expediente, escreve qualquer coisa mesmo. Tornou-se um burocrata. Ou seja, tudo o que não poderia ser. Esquálida, a alma do jornalismo desaba em frangalhos.

Álvaro Müller é jornalista?