Eis aqui a grande invenção da internet! A inimaginável fusão do boteco, ponto de discussões filosóficas e nascedouro das soluções para todos os problemas políticos, econômicos e sociais do mundo, com o hospício, furna da mais pura sinceridade, livre das convenções, amarras e obrigações sociais. Coerências ou devaneios, tudo vale. Tudo é possível. Portanto, seja bem-vindo! Entre, sente, tire a camisa de força e tome mais um gole, sem pressa para pedir a saideira.

segunda-feira, agosto 10, 2009

Cordel na Era do "Brasil internético"

video

Texto: Thiago Barbosa
Narração: Nino Karvan
Edição: Álvaro Müller

Futebol: balaio de gatos


A cadeia alimentar do futebol é cruel, todo mundo sabe. É dirigente comendo jogador – no sentido figurado da coisa, é claro –; jogador comendo dirigente, é um balaio de gatos dos diabos, uma bagunça. E tolo é quem acredita que só os cartolas estão no topo dessa cadeia. Nada... os metidos a espertalhões muitas vezes recebem bolas nas costas e ficam a ver navios, como um goleiro que acaba de levar um frango.
Taí o Cristiano Alagoano, que não me deixa mentir. O cara meteu no meio das canetas do Motinha e companhia, sem piedade. Na última segunda-feira, o atacante assinou contrato com o Sergipe, diga-se de passagem, na calada da noite; na quarta, a notícia explodiu na imprensa: Cristiano Alagoano é do Sergipe. Mas cadê ele???
A procura foi intensa. Repórteres, dirigentes do alvi-rubro, todos à caça do matador. Uma angústia que só teve fim quando o nosso querido editor do Líder!, Marcos Cabidelli, conseguiu localizar o dito cujo – através do telefone de terceiros – e, também por telefone, recebeu do Alagoano a informação de que não cumpriria o contrato com o “Gipão”, já que havia perspectivas melhores para ele em outros clubes. Em entrevista gravada, Cristiano diz ter recebido três novas propostas.
Ora, vamos e convenhamos: que o Motinha merecia esse contra-ataque, merecia. Pelo visto, o vetusto dirigente não é tão afeito ao profissionalismo – o Hugo Henrique, por exemplo, foi escorraçado do Sergipe depois de alcançar a artilharia do campeonato estadual. E, se não me falha a memória, quem a torcida colorada vaiou foi o Hugo Henrique, quando o centroavante estreou pelo Confiança, logo em seguida. Eu, hein! Coisa mais esquisita...!
Mas, sem perder o foco, o fato é que, pelas ações de Motinha, o Mais Querido, infelizmente, merece mesmo é o Cristiano Alagoano. Bem feito. Mas tão bem feito quanto teria sido com o Confiança e a diretoria de maior poder de compactação do futebol brasileiro e, quiçá, mundial. Ou alguém conhece outro caso de quem guarde a sobrevivência e, porque não dizer, o futuro do clube em uma caixa de sapatos?
Para alívio do Sergipe – afinal, futebol se faz de rivalidade –, o Dragão do Bairro Industrial também tem Da Silva, o atacante que assinou contrato com o alvi-rubro, recebeu o dinheiro e, logo em seguida, resolveu mudar de idéia e assinou também com o Dragão. Imagina um clássico em que o Da Silva jogasse metade do tempo em um time, e a outra metade em outro? Ah, essa eu queria ver. Seria mais um feito inédito do nosso futebol.
Apostando em Da Silva, o Confiança pagou ao Sergipe os oito mil reais que o jogador tinha recebido ao firmar o primeiro contrato. E ficou com o atleta. Mas aí vieram os salários atrasados e o Da Silva esmoreceu. Tempos depois afirmou, categoricamente, que não queria mais jogar pelo clube. Uma decisão que, coincidentemente ou não, veio com a saída do zagueiro Valdson. Mesmo assim, o Confiança preferiu se humilhar – como bom devedor – e permitir o retorno do funcionário que não queria mais trabalhar na empresa. Deu no que deu: Icasa x Confiança em Juazeiro do Norte, jogo decisivo, derrota acachapante e a amarga Série D. Sem a presença de Da Silva.
Quem tem a razão, Da Silva ou a diretoria do Dragão? Ao meu ver, ninguém. Esses são episódios de um futebol que insiste em subsistir no amadorismo. Da assinatura de contratos aos salários não pagos, do dinheiro ‘guardado’ em caixa de sapatos às ausências nos gramados, ninguém é inocente. E eu até entendo que jogador é pai de família e precisa receber, de preferência, em dia; que dirigentes tem dificuldade de arrecadar recursos, justamente porque a falta de profissionalização espanta qualquer empresa minimamente interessada. Aliás, a chave está justamente aí. É preciso ser profissional, pelo menos, em respeito aos tantos pais de família que vão aos estádios e sofrem com balaios de gatos como Sergipe e Confiança.