Eis aqui a grande invenção da internet! A inimaginável fusão do boteco, ponto de discussões filosóficas e nascedouro das soluções para todos os problemas políticos, econômicos e sociais do mundo, com o hospício, furna da mais pura sinceridade, livre das convenções, amarras e obrigações sociais. Coerências ou devaneios, tudo vale. Tudo é possível. Portanto, seja bem-vindo! Entre, sente, tire a camisa de força e tome mais um gole, sem pressa para pedir a saideira.

terça-feira, julho 27, 2010

O governador tuiteiro

Sábio o governador Marcelo Déda. Candidato à reeleição em Sergipe, aproveita o período de campanha para marcar presença forte no twitter. Astuto que só ele, pouco fala sobre política e muito menos se indispõe com oposicionistas. Ao contrário do que faz a maioria dos parlamentares ou postulantes, Déda aproveita a mais badalada ferramenta das redes sociais para expressar sentimentos, sensações, desejos comuns aos cidadãos mais simples. Aproxima-se ainda mais de eleitores de carteirinha e cativa novos eleitores.

“Ontem resolvi matar a saudade da pipoca de S. Dias durante a procissão. Fui com tanto gosto que quebrei o dente e tô rindo de banda...Rsrsrs”; “À tarde irei pedir socorro ao Dr. Déda, meu primo e dentista dos bons! O problema é que ele me sacaneia e fica testando meu medo do motor...”; “Bom vou, almoçar. O pessoal aqui de casa tá reclamando que eu tiro o horário do almoço pra tuitar e a comida esfria! Até logo!”.

Este é o tom das mensagens de Marcelo Déda, ou melhor, de @MarceloDeda. Sem agressões gratuitas, sem baixaria, sem acidez. Quando ironizado ou criticado de forma insultuosa, não responde; quando recebe um questionamento mais sereno, responde no mesmo tom. Aparentemente, o Déda tuiteiro quer mesmo é falar sobre futebol e outras amenidades, divulgar belos registros fotográficos de suas viagens ao interior e por aí vai. No twitter ele é sempre o torcedor, o amigo, o pai, o marido, o colega. Mas sem perder a política jamais.

Vez por outra, posta mensagens como “Nossa coligação está nas ruas em atos, caminhadas, carreatas, visitas ao interior e aos bairros da capital. Sempre que der virei aqui” ou respostas como “Continuar as parcerias, na área da Habitação, Infraestrutura, saúde, etc... Estamos fazendo a rodovia para Gal.Maynard”. Sempre antenado, Déda mostra no twitter que é de fato um showman. Tem em 140 caracteres o mesmo jogo de cintura dos seus discursos de improviso mas contundentes, bem articulados e com raros erros de português.

Assim como Luís Inácio Lula da Silva, Marcelo Déda aprendeu que é preciso ser light para cair nas graças do povo. Sem contar que está no poder e estrategicamente não lhe é interessante bater boca com a oposição. Enquanto isso, outros políticos e cabos eleitorais tuitam em desespero, atirando para tudo quanto é lado, sem perceber que estão sendo deseducados, vazios, irritantes, inconvenientes, chatos pra cacete!

domingo, julho 25, 2010

Opressão da pedagogia

Educadores infantis são desvalorizados dentro e fora das escolas particulares de Sergipe

“Qual é a sensação de se sentir tão desvalorizada?”. A pedagoga ouve atentamente à pergunta; ergue ligeiramente um olhar confuso e distante de quem busca a explicação menos dolorosa; embaraça e desembaraça os dedos das mãos, no afã de acomodar o desgosto. E desabafa. “É desconfortável demais, principalmente porque sei que sou uma boa profissional. Se não o fosse, não estaria na mesma empresa há tanto tempo”.
A pedagoga não é da rede pública. Ao contrário, trabalha há cerca de dez anos em uma das mais conceituadas e caras escolas particulares da capital. É professora da educação infantil e dedica oito horas diárias da sua vida a ensinar crianças com idades entre 1 ano e 8 meses e 5 anos. Por tudo isso, recebe um salário-base indigno para qualquer profissão, sobretudo a de educador, formadora de todas as outras: quinhentos e poucos reais, equivalentes – que ironia – à mensalidade de um só aluno.
“O discurso da escola é de que nos valoriza, acredita na gente, mas a educação infantil dá prejuízo. Então, infelizmente, é impossível contemplar o professor com um salário melhor. Ninguém consegue ver de que forma este prejuízo ocorre, se são os nossos alunos que depois sustentam o ensino fundamental e o médio (um educador do ensino médio ganha o dobro ou mais que o do infantil). Já foi até questionado por que instituições particulares de renome remuneram tão mal, enquanto escolas de bairro pagam igual ou melhor”, contesta a pedagoga, que não pode ser identificada sob o risco de perder o emprego, ainda que lhe renda tão pouco.
Para ela, a tal justificativa do prejuízo não passa de engodo e basta a negociação entre funcionário e patrão ficar um pouco mais acirrada que um outro discurso se descortina: o que contrapõe a fartura de mão-de-obra e a escassez de oportunidades no mercado de trabalho. “Têm muitos professores formados, outros se formando e em busca de um lugar onde possam fazer o seu nome. Eles querem trabalhar nessas instituições particulares e acabam entrando a qualquer custo. De forma mais rebuscada, donos de escolas resumem: seu salário é ‘x’ e tem tantas pessoas querendo um salário de ‘x’. Se você quiser ficar, fica. Se não, tem gente pra entrar”.

Desvalorização social

Como no Brasil todo castigo para professor é pouco, os profissionais da educação infantil do Estado de Sergipe ainda são obrigados a enfrentar desvalorização por parte da sociedade. “Fora da escola as pessoas acham que a gente só serve para dar banho nas crianças, limpar cocô e brincar. Muitas dizem que matriculam os filhos para não deixar em casa, com as babás. Mas o nosso trabalho não é esse, é de educar, conscientizar, socializar. Trabalhamos conteúdos como o racismo, a valorização do outro, o incentivo à leitura – que começa nessa época – e o conhecimento de si mesmo. É nessa faixa etária que os pequenos começam a se descobrir e a descobrir o mundo. E isso é gratificante para nós”, pondera a pedagoga.
Desiludida, pretende dar novos rumos à carreira. “Gosto do que faço, mas confesso que já pensei em pedir demissão. Hoje tenho outras pretensões como lecionar em faculdades de Pedagogia, transmitir minha experiência a outras pessoas, ou mesmo estudar para passar em concursos públicos”, diz. Caso faça a opção pelos concursos públicos para mudar de vida, a pedagoga pode ser mesmo obrigada a abandonar a educação. Se tivesse sido aprovada, por exemplo, na seleção para educador assistente das creches do município de Aracaju, realizada em fevereiro, sua situação não melhoraria praticamente em nada.
O processo seletivo da Prefeitura da capital ofereceu renda mensal bruta de R$ 660 para quem quisesse trabalhar 40 horas semanais com crianças de 0 a 3 anos. Entre as atividades: auxiliar no processo de ensino-aprendizagem; na construção de atitudes e valores significativos para o processo educativo das crianças; na execução de atividades pedagógicas e recreativas diárias; cuidar da higiene, alimentação, repouso e bem-estar dos alunos; planejar atividades pedagógicas próprias para cada idade. Escolaridade mínima exigida: nível médio pedagógico ou licenciatura plena em Pedagogia.

Mais-valia do novo milênio

“Há uns 25 anos encontrei, em um povoado do município de Simão Dias, chamado Galhos Cortados, uma professora dando aula a crianças, de pés descalços, fumando um charuto. A turma alfabetizada com a letra belíssima me deixou impressionada. Verifiquei e era porque a letra da mestra era linda, e os alunos acabavam copiando. As pessoas da comunidade tomavam a benção da educadora, porque todo mundo havia passado por ela, havia um respeito. Só que ela recebia 10% de um salário mínimo, um fato subumano.”
É com essa história que a doutora em Educação Ada Augusta Celestino, pesquisadora do Núcleo de Pós-graduação em Educação da Universidade Tiradentes (Unit), ilustra o massacre histórico aos professores de Sergipe não só da educação infantil, como do ensino fundamental, que hoje se estende até o 9º ano. “Tal desvalorização equivale ao princípio da mais-valia, é o modo de pensar capitalista. O educador realiza um trabalho excedente, não recebe por isso e dele ainda é cobrado cada vez mais qualidade. A rede particular deveria, no mínimo, aderir ao piso nacional do magistério, lei válida somente para o serviço público. O Estado se responsabiliza pela questão salarial na rede pública, exige plano de carreira e tudo o mais. E quem acompanha as escolas particulares? Os conselhos estaduais de educação deveriam atuar neste sentido”.
Para Ada Augusta, um educador dificilmente deixará de cumprir o seu papel em sala de aula, mesmo diante de uma condição tão humilhante. “Na formação do professor nós desenvolvemos muito a construção de valores. Além disso, eles fazem o trabalho com amor, dão o melhor de si, mas sofrem em sua sobrevivência. O que precisam fazer é fortalecer-se na luta docente, nos seus sindicatos e explicitar essa luta e fazer valer um lei que é de 1996 e que estabelece que se deve ganhar pelo nível que tem”.

“Professores não são desvalorizados financeiramente”


O vice-presidente da Federação dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Estado de Sergipe (Fenen/SE), João Bosco Argolo Delfino, garante que o professor da rede particular de ensino ganha melhor do que muitas categorias, sobretudo, pela carga horária de trabalho. Bosco diz que a dificuldade financeira das escolas não é mero discurso e garante: “o bom profissional está bem empregado e ainda é muito disputado”.


Botecospício - O professor da educação infantil ou do ensino fundamental recebe de salário-base quase que o equivalente a mensalidade de um aluno. Porque as escolas não conseguem pagar melhor a estes educadores?

JOÃO BOSCO - Na verdade, o professor não recebe seu salário vinculado à mensalidade ou parcelas da anuidade escolar. Ele recebe de acordo com o que está previsto em convenção coletiva. Se eu fizer um cálculo tomando por base parcelas de anuidade escolar, como é que ficam as outras despesas da escola: encargos sociais, energia, água, manutenção e muitas outras? Além disso, uma escola não funciona só com o professor. Tem o pessoal da secretaria, porteiros, são outros profissionais envolvidos nessa prestação de serviços educacionais. Mas na verdade os professores não são desvalorizados financeiramente. Muito pelo contrário, eles têm uma jornada de trabalho fechada nas unidades escolares, são horistas e estão com um salário superior a muitas categorias. Geralmente o que se estabelece é o salário mínimo por uma jornada de trabalho integral. E esses profissionais, pela convenção coletiva, recebem um salário mínimo por um turno de trabalho, exceto aqueles que estão atuando em escola com menos de duzentos alunos.

Botecospício - A afirmação de que a educação infantil "dá prejuízo" não é mero discurso? As crianças custam mais caro à escola do que os adolescentes do ensino médio? Por quê?

JB - Não é discurso. Isso acontece porque o número de alunos é reduzido em sala de aula. Se você verificar uma turma de educação infantil não passa de 20 alunos. Enquanto que no ensino médio, encontra até 50.

Botecospício - Por que os professores do ensino médio são mais valorizados que os da educação infantil e ensino fundamental?


JB - É a lei da oferta e da procura. Quando eu tenho uma oferta maior de profissionais, evidentemente tenho uma redução do valor de mão-de-obra. Mas é importante dizer que todo o valor da anuidade escolar é vinculado ao número de alunos pagantes. Isso é o que está previsto na Lei 9.870. Eu apuro os custos através de uma planilha e esses custos são rateados pelo número de alunos pagantes. Ainda têm os estudantes inadimplentes e bolsistas que a gente precisa prever na planilha.

Botecospício - Então o desemprego reduz o preço de um educador infantil...

JB - Em todas as profissões existem profissionais desempregados, mas o bom profissional está bem empregado e ainda é muito disputado. Agora, profissionais sem experiência têm que ter a oportunidade de adquiri-la. Falta uma política de incentivo ao primeiro emprego. O governo até ensaiou essa política, mas não incentiva as empresas a proporcionarem isso. Quando a escola contrata, tem que arcar com todos os encargos sociais previstos em lei, então tem que ter uma contrapartida do governo para que esses professores venham a atuar nas escolas a título de experiência e gradativamente se desenvolvam. Muitas escolas da rede particular já têm esses profissionais contratados como auxiliares e à medida que começam a adquirir a filosofia, o ritmo da escola, automaticamente se transformam em titulares.


Botecospício - Por que a rede particular não adota o mesmo piso nacional para os professores aprovado para a rede pública?


JB - Se for estabelecer esse piso salarial, nós vamos reduzir salários de professores, porque muitos profissionais já ganham bem acima desse piso nas escolas particulares. Existe um projeto tramitando na Câmara Nacional que pretende estabelecer um piso para os salários de professores da iniciativa privada. O merecido seria algo em torno do que está estabelecido para a rede pública. Quem puder pagar mais, paga. Agora quem não puder pagar esse piso mínimo, vai ter que se ajustar ao mercado e, consequentemente, ajustar os valores das suas anuidades escolares.

segunda-feira, julho 19, 2010

Nem todo soco no Santa Maria é violência

Foto: Portal Infonet


A comunidade do bairro Santa Maria, um dos mais violentos de Aracaju, ganhou através do esporte a oportunidade de enxergar-se de uma forma bem diferente da que costuma esquentar os noticiários policiais. É do Santa Maria a atleta sergipana de maior expressão na atualidade. Aos 17 anos, a pugilista Mirele Cruz, campeã nacional na categoria até 46 quilos e representante de Sergipe na Seleção Brasileira de Boxe, é mais do que uma vencedora. É o exemplo de que a violência pode ser lapidada para o bem, transformada em dignidade e perspectiva de futuro profissional. Basta que as oportunidades sejam criadas.

Mirele tinha tudo para engordar as estatísticas do desemprego ou mesmo da Secretaria de Segurança Pública. Tinha tudo para ser mais um ser humano algemado e de olhar voltado para o chão, exposto nas páginas policiais. Filha de um ex-presidiário e uma alcoolista, conviveu com a violência desde cedo, dentro de casa. Pediu esmolas, passou oito anos da sua infância em um orfanato – sem receber uma visita da mãe –, depois viu sua residência incendiada por bandidos. Acabou no Morro do Urubu, ao lado dos pais e de sete irmãos, num casebre sem água encanada, que, literalmente, não tinha teto, não tinha nada. Mas nem de longe era engraçado como a casa do Vinícius de Morais.

Há cerca de três anos Mirele procurou o Punhos de Ouro, projeto social tocado no bairro Santa Maria pelo ex-pugilista Valter Duarte e que tem como objetivo retirar crianças e adolescentes do mundo do crime, das drogas, dar a eles a chance de escrever um futuro diferente do que vivenciam em seu cotidiano. Cansada de ver a mãe ser agredida pelo pai, Mirele calçou as luvas pela primeira vez com sede de vingança, mas Duarte percebeu o potencial da jovem e direcionou os jabs e cruzados em favor do boxe e contra a violência que tanto a perseguia.

Agora, pela Seleção Brasileira, Mirele prepara-se para disputar competições importantes como o Panamericano no Canadá e o Mundial em Barbados. Dá um gancho à la Mike Tyson na fuça dos governantes, mostra que o Santa Maria tem muito talento a ser descoberto, que a cidadania é também uma questão de oportunidades. E não é que muitas vezes essas oportunidades estão em investimentos e gestos simples como um ringue, alguns pares de luvas e gente com vontade de mudar a realidade social?

segunda-feira, julho 12, 2010

Naquela mesa tá faltando eles

O Treze da Paraíba é hoje o líder do Campeonato do Nordeste com 19 pontos. O Confiança, na nona colocação, tem 10. Parece mentira, mas apesar de distantes na tabela, as duas equipes marcaram o mesmo número de gols: 16. O que distancia o Galo da Borborema do Dragão do Bairro Industrial é o saldo de gols contra. O Treze sofreu 11; o Confiança, 18. O time proletário tem a segunda defesa mais vazada da competição, superando apenas o Sergipe, que já teve a rede balançada 19 vezes e “coincidentemente” está na última posição.
Cálculo simples, raciocínio elementar. Por mais que o sistema ofensivo do Confiança faça a sua parte, por mais que o centroavante Cristiano Alagoano permaneça na artilharia do Nordestão, a defesa azulina joga qualquer pretensão da equipe pelo ralo. E se é assim numa competição em que times como Sport e Vitória não estão dando muita importância, também pode ser na Série D do Brasileirão.
Mas a matemática da diretoria e do treinador do Confiança é meio diferente. Diante do vergonhoso saldo de gols sofridos, Milton Dantas, Maurício Simões e companhia resolveram tomar uma atitude: contrataram quem? O Da Silva, que é atacante. Ou seja, reforçaram o setor que já está dando certo e empurraram o abacaxi da defesa com a barriga.
Renovação? Nem nem pensar. Da Silva é um velho conhecido da torcida proletária. Fez boa temporada com a camisa azulina em 2008, no Campeonato Sergipano e na Série C do Brasileiro. O problema é que assinou contrato com o Sergipe para 2009, recebeu dinheiro adiantado e depois, talvez por arrependimento, acabou assinando também com o Dragão. Virou atleta dos dois maiores rivais do futebol sergipano ao mesmo tempo, um fenômeno.
A peleja entre Sergipe e Confiaça pelo passe de Da Silva foi resolvida após muito disse-me-disse. O time do Bairro Industrial resolveu devolver o dinheiro que o Mais Querido tinha antecipado ao jogador, mas Da Silva não repetiu as mesmas atuações em 2009. Se dizendo ameaçado pela torcida do Dragão, o atacante deixou o clube.
Em 2010, Da Silva volta a subir na barca do capitão Simões, mesmo que o grande problema do Confiança esteja no setor defensivo. O atacante não deixa de ser um bom jogador, mas sua contratação, além de imprópria para o momento – tendo em vista a fragilidade da zaga azulina –, cria um medo: o de que o treinador queira remontar o time que deu ao torcedor proletário uma das suas maiores decepções – a ascensão e queda na Série C do Brasileiro, em 2008. É como se o Maurício Simões estivesse na concentração, observando os jogadores em uma mesa, olhando para Valdson e Da Silva, pensando em Juninho Petrolina, Alemão, Wilson Surubim, e cantando com seus botões: “Naquela mesa tá faltando eles, e a saudade deles tá doendo em mim”.

domingo, julho 04, 2010

Todo brasileiro tem um quê de argentino

Brasileiro é engraçado. Quase sempre vota errado, avaliza a bandalheira política, têm seus direitos essenciais violentados e sorri. Faz piada da sua situação de otário e não se incomoda em repetir o erro na eleição seguinte. Brinca com coisa séria, mas quando perde no futebol se enfeza, vira bicho. A bem da verdade, o brasileiro, que tanto repudia a soberba argentina, alimenta em si uma empáfia velada. Definitivamente, não sabe perder, sobretudo na Copa do Mundo.
Toda eliminação do Brasil em Copa é a mesma coisa. A caça às bruxas começa antes mesmo de o jogo terminar, já durante as transmissões. Isso porque o brasileiro ainda não aprendeu que o esporte é feito de vitórias e derrotas, e que há sempre um adversário. Se vence, o mérito é seu; se perde, a culpa é sua. Como se estivesse sozinho em campo.
Não quero aqui fazer um discurso pró-Dunga. Nada disso. Acredito que o técnico carrancudo se despede da Seleção com alguns erros e muitos acertos. O Dunga poderia ter levado um elenco melhor, é claro, mas se eu escalar o meu time aqui, muita gente também vai discordar. Isso é normal e realmente não creio que esteja apenas numa convocação o motivo da queda do Brasil em 2010. A Seleção perdeu para uma equipe inferior porque futebol é futebol. Imprevisível, muitas vezes ilógico e humanamente injusto.
Há uma série de contradições até mesmo no discurso dos críticos que mostraram otimismo antes de Brasil e Holanda e, em míseros 45 minutos, mudaram radicalmente de opinião. A principal contradição soa como ironia: para vencer a Seleção Brasileira, a Laranja Mecânica utilizou, justamente, a tática condenada pela imprensa e pela torcida no Brasil. Segurou o jogo, apostou no erro do adversário, fez do gol ‘uma consequência’, como diria o Parreira. Tapa na cara da crítica especializada.
Os erros do Brasil também são mais do que irônicos. Júlio César, o melhor goleiro do mundo, perdeu o tempo da bola no primeiro gol – provavelmente não cometerá a mesma falha nos próximos quatro anos –; a melhor defesa do planeta cochilou e um nanico cabeceou, sem precisar pular, para fazer o segundo gol holandês. Injusto, não é? Coisas do futebol, este esporte que muitas vezes se alimenta da ingratidão, da injustiça.
O futebol-arte argentino, tão cobrado no Brasil de Ganso e Neymar, sucumbiu diante da eficiente Alemanha; já Gana se despediu da Copa nas mãos do atacante uruguaio Suarez, que deu uma de goleiro e tirou a bola em cima da linha do gol. Detalhe: no último minuto do segundo tempo da prorrogação. O Uruguai passou às semifinais só porque transgrediu as regras do jogo e o Suarez, é claro, virou herói por trapacear. Já o africano Asamoah Gyan, que já havia marcado dois tentos de pênalti na Copa, acertou o travessão e desperdiçou a grande chance da história de Gana. Se despediu como artilheiro, mas se estivesse no Brasil teria virado o vilão da história. Assim como o gênio Zico já foi vilão uma vez.
Isso porque brasileiro não está pronto para digerir a derrota, as justiças e injustiças do futebol, este esporte fascinantemente imprevisível. Se ganha, ótimo. Se perde, prefere enxergar o próprio demérito a aceitar o mérito adversário. Dunga tem a sua parcela de culpa? Tem. Felipe Melo, idem – da mesma forma que também tem ‘culpa’ pelo passe magistral do gol de Robinho contra a Holanda. Mas nada disso foi determinante para o resultado. O Brasil perdeu simplesmente porque futebol é futebol, mas o brasileiro não aceita. Em suma, é na derrota que todo brasileiro vira argentino.