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domingo, julho 25, 2010

Opressão da pedagogia

Educadores infantis são desvalorizados dentro e fora das escolas particulares de Sergipe

“Qual é a sensação de se sentir tão desvalorizada?”. A pedagoga ouve atentamente à pergunta; ergue ligeiramente um olhar confuso e distante de quem busca a explicação menos dolorosa; embaraça e desembaraça os dedos das mãos, no afã de acomodar o desgosto. E desabafa. “É desconfortável demais, principalmente porque sei que sou uma boa profissional. Se não o fosse, não estaria na mesma empresa há tanto tempo”.
A pedagoga não é da rede pública. Ao contrário, trabalha há cerca de dez anos em uma das mais conceituadas e caras escolas particulares da capital. É professora da educação infantil e dedica oito horas diárias da sua vida a ensinar crianças com idades entre 1 ano e 8 meses e 5 anos. Por tudo isso, recebe um salário-base indigno para qualquer profissão, sobretudo a de educador, formadora de todas as outras: quinhentos e poucos reais, equivalentes – que ironia – à mensalidade de um só aluno.
“O discurso da escola é de que nos valoriza, acredita na gente, mas a educação infantil dá prejuízo. Então, infelizmente, é impossível contemplar o professor com um salário melhor. Ninguém consegue ver de que forma este prejuízo ocorre, se são os nossos alunos que depois sustentam o ensino fundamental e o médio (um educador do ensino médio ganha o dobro ou mais que o do infantil). Já foi até questionado por que instituições particulares de renome remuneram tão mal, enquanto escolas de bairro pagam igual ou melhor”, contesta a pedagoga, que não pode ser identificada sob o risco de perder o emprego, ainda que lhe renda tão pouco.
Para ela, a tal justificativa do prejuízo não passa de engodo e basta a negociação entre funcionário e patrão ficar um pouco mais acirrada que um outro discurso se descortina: o que contrapõe a fartura de mão-de-obra e a escassez de oportunidades no mercado de trabalho. “Têm muitos professores formados, outros se formando e em busca de um lugar onde possam fazer o seu nome. Eles querem trabalhar nessas instituições particulares e acabam entrando a qualquer custo. De forma mais rebuscada, donos de escolas resumem: seu salário é ‘x’ e tem tantas pessoas querendo um salário de ‘x’. Se você quiser ficar, fica. Se não, tem gente pra entrar”.

Desvalorização social

Como no Brasil todo castigo para professor é pouco, os profissionais da educação infantil do Estado de Sergipe ainda são obrigados a enfrentar desvalorização por parte da sociedade. “Fora da escola as pessoas acham que a gente só serve para dar banho nas crianças, limpar cocô e brincar. Muitas dizem que matriculam os filhos para não deixar em casa, com as babás. Mas o nosso trabalho não é esse, é de educar, conscientizar, socializar. Trabalhamos conteúdos como o racismo, a valorização do outro, o incentivo à leitura – que começa nessa época – e o conhecimento de si mesmo. É nessa faixa etária que os pequenos começam a se descobrir e a descobrir o mundo. E isso é gratificante para nós”, pondera a pedagoga.
Desiludida, pretende dar novos rumos à carreira. “Gosto do que faço, mas confesso que já pensei em pedir demissão. Hoje tenho outras pretensões como lecionar em faculdades de Pedagogia, transmitir minha experiência a outras pessoas, ou mesmo estudar para passar em concursos públicos”, diz. Caso faça a opção pelos concursos públicos para mudar de vida, a pedagoga pode ser mesmo obrigada a abandonar a educação. Se tivesse sido aprovada, por exemplo, na seleção para educador assistente das creches do município de Aracaju, realizada em fevereiro, sua situação não melhoraria praticamente em nada.
O processo seletivo da Prefeitura da capital ofereceu renda mensal bruta de R$ 660 para quem quisesse trabalhar 40 horas semanais com crianças de 0 a 3 anos. Entre as atividades: auxiliar no processo de ensino-aprendizagem; na construção de atitudes e valores significativos para o processo educativo das crianças; na execução de atividades pedagógicas e recreativas diárias; cuidar da higiene, alimentação, repouso e bem-estar dos alunos; planejar atividades pedagógicas próprias para cada idade. Escolaridade mínima exigida: nível médio pedagógico ou licenciatura plena em Pedagogia.

Mais-valia do novo milênio

“Há uns 25 anos encontrei, em um povoado do município de Simão Dias, chamado Galhos Cortados, uma professora dando aula a crianças, de pés descalços, fumando um charuto. A turma alfabetizada com a letra belíssima me deixou impressionada. Verifiquei e era porque a letra da mestra era linda, e os alunos acabavam copiando. As pessoas da comunidade tomavam a benção da educadora, porque todo mundo havia passado por ela, havia um respeito. Só que ela recebia 10% de um salário mínimo, um fato subumano.”
É com essa história que a doutora em Educação Ada Augusta Celestino, pesquisadora do Núcleo de Pós-graduação em Educação da Universidade Tiradentes (Unit), ilustra o massacre histórico aos professores de Sergipe não só da educação infantil, como do ensino fundamental, que hoje se estende até o 9º ano. “Tal desvalorização equivale ao princípio da mais-valia, é o modo de pensar capitalista. O educador realiza um trabalho excedente, não recebe por isso e dele ainda é cobrado cada vez mais qualidade. A rede particular deveria, no mínimo, aderir ao piso nacional do magistério, lei válida somente para o serviço público. O Estado se responsabiliza pela questão salarial na rede pública, exige plano de carreira e tudo o mais. E quem acompanha as escolas particulares? Os conselhos estaduais de educação deveriam atuar neste sentido”.
Para Ada Augusta, um educador dificilmente deixará de cumprir o seu papel em sala de aula, mesmo diante de uma condição tão humilhante. “Na formação do professor nós desenvolvemos muito a construção de valores. Além disso, eles fazem o trabalho com amor, dão o melhor de si, mas sofrem em sua sobrevivência. O que precisam fazer é fortalecer-se na luta docente, nos seus sindicatos e explicitar essa luta e fazer valer um lei que é de 1996 e que estabelece que se deve ganhar pelo nível que tem”.

“Professores não são desvalorizados financeiramente”


O vice-presidente da Federação dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Estado de Sergipe (Fenen/SE), João Bosco Argolo Delfino, garante que o professor da rede particular de ensino ganha melhor do que muitas categorias, sobretudo, pela carga horária de trabalho. Bosco diz que a dificuldade financeira das escolas não é mero discurso e garante: “o bom profissional está bem empregado e ainda é muito disputado”.


Botecospício - O professor da educação infantil ou do ensino fundamental recebe de salário-base quase que o equivalente a mensalidade de um aluno. Porque as escolas não conseguem pagar melhor a estes educadores?

JOÃO BOSCO - Na verdade, o professor não recebe seu salário vinculado à mensalidade ou parcelas da anuidade escolar. Ele recebe de acordo com o que está previsto em convenção coletiva. Se eu fizer um cálculo tomando por base parcelas de anuidade escolar, como é que ficam as outras despesas da escola: encargos sociais, energia, água, manutenção e muitas outras? Além disso, uma escola não funciona só com o professor. Tem o pessoal da secretaria, porteiros, são outros profissionais envolvidos nessa prestação de serviços educacionais. Mas na verdade os professores não são desvalorizados financeiramente. Muito pelo contrário, eles têm uma jornada de trabalho fechada nas unidades escolares, são horistas e estão com um salário superior a muitas categorias. Geralmente o que se estabelece é o salário mínimo por uma jornada de trabalho integral. E esses profissionais, pela convenção coletiva, recebem um salário mínimo por um turno de trabalho, exceto aqueles que estão atuando em escola com menos de duzentos alunos.

Botecospício - A afirmação de que a educação infantil "dá prejuízo" não é mero discurso? As crianças custam mais caro à escola do que os adolescentes do ensino médio? Por quê?

JB - Não é discurso. Isso acontece porque o número de alunos é reduzido em sala de aula. Se você verificar uma turma de educação infantil não passa de 20 alunos. Enquanto que no ensino médio, encontra até 50.

Botecospício - Por que os professores do ensino médio são mais valorizados que os da educação infantil e ensino fundamental?


JB - É a lei da oferta e da procura. Quando eu tenho uma oferta maior de profissionais, evidentemente tenho uma redução do valor de mão-de-obra. Mas é importante dizer que todo o valor da anuidade escolar é vinculado ao número de alunos pagantes. Isso é o que está previsto na Lei 9.870. Eu apuro os custos através de uma planilha e esses custos são rateados pelo número de alunos pagantes. Ainda têm os estudantes inadimplentes e bolsistas que a gente precisa prever na planilha.

Botecospício - Então o desemprego reduz o preço de um educador infantil...

JB - Em todas as profissões existem profissionais desempregados, mas o bom profissional está bem empregado e ainda é muito disputado. Agora, profissionais sem experiência têm que ter a oportunidade de adquiri-la. Falta uma política de incentivo ao primeiro emprego. O governo até ensaiou essa política, mas não incentiva as empresas a proporcionarem isso. Quando a escola contrata, tem que arcar com todos os encargos sociais previstos em lei, então tem que ter uma contrapartida do governo para que esses professores venham a atuar nas escolas a título de experiência e gradativamente se desenvolvam. Muitas escolas da rede particular já têm esses profissionais contratados como auxiliares e à medida que começam a adquirir a filosofia, o ritmo da escola, automaticamente se transformam em titulares.


Botecospício - Por que a rede particular não adota o mesmo piso nacional para os professores aprovado para a rede pública?


JB - Se for estabelecer esse piso salarial, nós vamos reduzir salários de professores, porque muitos profissionais já ganham bem acima desse piso nas escolas particulares. Existe um projeto tramitando na Câmara Nacional que pretende estabelecer um piso para os salários de professores da iniciativa privada. O merecido seria algo em torno do que está estabelecido para a rede pública. Quem puder pagar mais, paga. Agora quem não puder pagar esse piso mínimo, vai ter que se ajustar ao mercado e, consequentemente, ajustar os valores das suas anuidades escolares.

5 comentários:

Força da palavra disse...

Boa reportagem, mas tem muita balela dita pelo sr. João Bosco. Certamente, a valorização do professor, em nível algum, passa por longe das prioridades dessas escolas particulares. Parabéns.

Professora Ires Muller disse...

Parabens Alvaro pela matéria.
O professor da Educação Infantil tem que ser muito preparado,por isso, licenciado em Pedagogia pois esse nível de escolaridade é a base de toda construção do conhecimento. É o alicerce, e como tal, deve ser reforçado, bem preparado. Em uma construção cujo alicerce é frágil, a casa cai. Da mesma forma que o docente precisa ter a plena consciência da formação do outro.

Anderson Ribeiro disse...

Esse João Bosco sabe defender o dele, né? O pior é achar que todo mundo é idiota e cai na dele! Isso me deixa irritado! O professor, principalmente esse, da base, lá onde primeiro aprendemos, deveria ser muitíssimo valorizado, mas infelizmente é como você apurou. Uma pena ou melhor, uma vergonha!

Suely disse...

suely ayres - Pedagoga, pós-graduada e educadora assistente PMA
Realmente é uma vergonha, o que nós recebemos é terrível e não tem ninguém que nos apóie na luta de melhorar o salário...........

t♥h♥a♥i♥s disse...

Isso é triste só de pensar que estudei três anos e meio para ter que engolir essa baboseira
O que seria dessas escolas mentirosas sem nós, na educação infantil, tem que encher de lição, trocar e alimentar, crianças em grande número, sofrer pressão dos familiares dos donos, mentir para os pais, fazer tarefas em casa, usar nosso dinheirinho ,estudar muito,em troca de que?
A culpa é do governo que protege essa classe, e nós que aceitamos qualquer porcaria
È triste, nossa classe de professores não tem quem a represente e lute por ela.
Quem ainda não teve sorte de um bom emprego deve fazer Pós para ser valorizado e prestar concursos, e pensar em outras áreas para atuar.
Não nos formamos somente para formar cidadãos, mas para ganhar dinheiro,como qualquer outro profissional.
Já temos nossos filhos para isso não vamos cair nessas e outras como citado acima.
Não ligue se cem vão aceitar a esmola.
Vamos nos valorizar.