Eis aqui a grande invenção da internet! A inimaginável fusão do boteco, ponto de discussões filosóficas e nascedouro das soluções para todos os problemas políticos, econômicos e sociais do mundo, com o hospício, furna da mais pura sinceridade, livre das convenções, amarras e obrigações sociais. Coerências ou devaneios, tudo vale. Tudo é possível. Portanto, seja bem-vindo! Entre, sente, tire a camisa de força e tome mais um gole, sem pressa para pedir a saideira.

quarta-feira, dezembro 21, 2011

Aura linda

De todas as pessoas com quem trabalhei em 2011, a que mais me ensinou foi Lindaura de Jesus Santos, agente de limpeza da Multiserv. Não foram poucas as vezes em que saí da sala com a cara emburrada, cabeça quente mesmo, e fui desarmado pelo sorriso da Lindaura. Ela não é especialista, não tem mestrado ou doutorado. Deve ter tantos problemas quanto eu ou mais. Ainda assim, nunca perde a doçura e o otimismo. Se não for pedir muito, gostaria de conhecer e trabalhar com outras Lindauras em 2012.

terça-feira, agosto 30, 2011

Retrato do antiartista quando coisa

 
“Alvinho!”, gritou Paulo Lobo. Depois foi Dirceu de Marília. Daí veio Edson e pronto. Lá estava eu, cercado de “Alvinhos” por todos os lados.
Alguns ditos por velhos parceiros de farra; outros, mais despretensiosos, ganhavam eco na voz daquela gente desconhecida, que nas altas da madrugada não faz cerimônia e se aconchega na fronha da amigueira boemia.
Enfim, havia chegado a hora da minha canja e eu não podia dizer não. O bar estava vazio, é verdade, mas para um sujeito de timidez acentuada e autocrítica sem limites, qualquer banquinho de boteco vira o palco do Tobias Barreto – em noite de casa cheia.
Primeiro vem o frio na barriga; o gelo nas mãos. Levanto sem graça, pego o violão, bebo um gole. Bebo outro. Mais alguns goles; mais algumas doses. E a coisa só piora. A canja começa e os primeiros acordes são trêmulos. A voz também vacila, reluta, desafina. E eu fico mais nervoso.
Tem ainda aquele momento em que a memória se esvai. Dá branco na execução das notas e letras. Risinho amarelo, aquele olhar vago, para cima, que evita encarar o público de frente, enquanto procura os acordes e versos perdidos no ar. Nessa hora, o nervosismo dá lugar a uma vergonha mais serena, digna de um antiartista que sabe – precisa parar.
Desço do banquinho e embainho o violão fingindo que ninguém me vê. E, por mais que goste das madrugadas e violões, por mais que ame a boa música, retoco a certeza de que não sou artista.
Não sou artista, primeiro, porque não tenho alma de artista. E para completar, não componho como Gilton e Paulo Lobo; não toco violão com a destreza de Heitor Mendonça ou o suingue de Samuca; não canto como Fábio Lima; não tenho a presença de palco de Dirceu, e muito menos a criatividade de Djenal Gonçalves. Não tenho a poesia de Anderson Ribeiro. Sou um mero reprodutor de melodias, ainda assim, continuarei a arranhar meu pinho toda vez que os amigos pedirem a fatídica canja. Um dia, quem sabe, eles se cansam de mim.

segunda-feira, agosto 29, 2011

É Noite

Fernando Pessoa

É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância
Brilha a luz duma janela.
Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.
É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, e que não sei quem é,
Atrai-me só por essa luz vista de longe.
Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão.

Mas agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.
Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
Se eu, de onde estou, só veio aquela luz,
Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
A luz apagou-se.
Que me importa que o homem continue a existir?

sábado, julho 16, 2011

O doce gosto da amarga crítica

Fazer uma boa crítica não é para qualquer um. O crítico por excelência tem de ser um exímio alquimista das palavras, capaz de dosar, com precisão cirúrgica, a cor e o cheiro, a essência e peso que toda palavra tem. A boa crítica não pode ser apenas persistente - precisa ser infalível, por mais que, nela, os escritos ganhem sabores muitas vezes indigestos ao gosto de quem a carapuça se acomode melhor.

Alguém sempre sairá ferido, pelo menos, no ego. E no universo do futebol brasileiro não é diferente. Uma análise crítica bem fundamentada, obrigatoriamente provoca azedume ao paladar da cartolagem e adoça a boca e a alma do torcedor que, mesmo maltratado durante décadas de mandos, desmandos e incompetência, ainda sonha em ver a valorização do seu clube e, claro, do esporte.

É justamente por este torcedor sofrido que o crítico tem a obrigação de desembainhar as palavras que forem necessárias. Nobres, quando para enaltecer o labor; chulas, quando para desmascarar ações igualmente chulas, de dirigentes zombeteiros que, debruçados no passado e com uma espécie de discurso Malufista, só tentam acobertar o presente e dar as costas ao futuro, só tentam enganar os verdadeiros amantes do futebol.

Na ponta da lança, as palavras; no escudo, a imparcialidade; na armadura, a honestidade. Com esta indumentária, qualquer crítico sobrevive ao destempero de quem foi ou, por algum motivo, se sentiu criticado, mas não conhece o devido valor da crítica. E quando a crítica é implacável perante àqueles que permanecem em situação confortável no cenário obscuro e destruído do futebol, não são poucas as tentativas desesperadas de denegrir a imagem de quem fez as afirmações mais duras. Pura falta de argumento, coisa que o bom crítico, incólume, tira de letra.

Aliás, o bom crítico jamais cambaleia ou se curva, porque nunca se rendeu ou renderá aos afagos de quem precisa de apoio para permanecer no poder. Ele jamais será subserviente ao descaso, à postura antidemocrática, ao amadorismo no futebol. Exatamente por isso, quando percebe tentativas de achincalhe, contra ele ou seu trabalho, o crítico se agiganta. Tem a certeza de que a sua crítica não só incomodou, como foi certeira, dilacerante. Que sirva, pois, de lição para que as palavras duras de hoje, quem sabe, sejam substituídas por elogios em breve. No dia em que isso acontecer, o futebol estará caminhando no rumo que o bom crítico e o torcedor tanto sonham.

sexta-feira, abril 29, 2011

Desespero tricolor

Tudo bem que o Jahia não ganha nada há mais de uma década. Mas tentativa de suicídio já é demais. Se esse povo todo morre, eu vou sacanear quem?

segunda-feira, março 28, 2011

Declaração de amor a Aracaju



Texto: Cleomar Brandi
Imagens: Augusto Baiano e Miro Ribeiro
Narração: Evenilson Santana
Edição de imagem: Álvaro Müller e Leno Kravitz
Edição de texto: Álvaro Müller

quarta-feira, março 23, 2011

Suruba de incompetentes

Narciso se despede do Sergipe (Foto: Ascom/Sergipe)

Narciso veio ao Sergipe para dar uma rapidinha e se mandou. Chegou ao final de fevereiro com o seguinte discurso: "Sem ter a mesma estrutura, estou adorando esse trabalho. Tenho contrato até o fim do campeonato, no dia 10 de junho, mas há possibilidade de ser estendido". Menos de um mês depois, deixou o alvirrubro dizendo que 'esperou muito' para que a situação do clube melhorasse.

É no mínimo estranho que o mesmo homem que venceu a leucemia e transformou-se em exemplo de perseverança e superação no esporte tenha desistido do Sergipe tão rápido e fácil. Ou a passagem do Narciso pelo Vermelhinho esconde negociações espúrias, descumprimento de palavra, ou ele simplesmente aproveitou a primeira deixa - no caso, a falta de frutas e de um jantar para os jogadores -, para juntar as tralhas e correr em busca de um emprego melhor.
Mas a quem Narciso quis enganar com essa estória de falta de estrutura? A torcida? A imprensa? A si próprio? Talvez tenha sido reconfortante para ele alegar que esperou 'longos' 20 dias por mudanças num clube afundado em dívidas que, segundo a diretoria, somam mais de R$ 600 mil. Talvez. Mas o que Narciso não tem o direito é de tentar nos fazer acreditar que ele desconhecia a realidade que iria enfrentar no Estádio João Hora.

Está publicada no blog do jornalista Adel Ribeiro (www.adelribeiro.blogspot.com) a justificativa do ex-técnico do Sergipe para exigir mudanças em tão pouco tempo: "O futebol é dinâmico, não dá para ficar esperando". Ora, o que Narciso entende como 'dinâmico' eu entendo como volúvel e aposto que tenho razão, até porque não há nada de 'dinâmico' em deixar um clube precisando desesperadamente da vitória e às vésperas de um clássico contra o seu maior rival.

Certo mesmo é que, no frigir dos ovos, a rapidinha do Narciso com o Sergipe nada mais é que o retrato da falta de planejamento, também entendida como 'dinâmica' pela cartolagem local. Assim como o ex-santista, tantos outros treinadores já entraram e saíram, entraram e saíram, insistentemente, nessa suruba da incompetência que é o futebol sergipano. Narciso chega, Narciso vai embora. Fulano chega, fulano vai embora. Ciclano chega, ciclano vai embora. E o torcedor, infeliz, é quem fica só assistindo a orgia e sem sentir o mínimo prazer.