O doce gosto da amarga crítica

Fazer uma boa crítica não é para qualquer um. O crítico por excelência tem de ser um exímio alquimista das palavras, capaz de dosar, com precisão cirúrgica, a cor e o cheiro, a essência e peso que toda palavra tem. A boa crítica não pode ser apenas persistente - precisa ser infalível, por mais que, nela, os escritos ganhem sabores muitas vezes indigestos ao gosto de quem a carapuça se acomode melhor.

Alguém sempre sairá ferido, pelo menos, no ego. E no universo do futebol brasileiro não é diferente. Uma análise crítica bem fundamentada, obrigatoriamente provoca azedume ao paladar da cartolagem e adoça a boca e a alma do torcedor que, mesmo maltratado durante décadas de mandos, desmandos e incompetência, ainda sonha em ver a valorização do seu clube e, claro, do esporte.

É justamente por este torcedor sofrido que o crítico tem a obrigação de desembainhar as palavras que forem necessárias. Nobres, quando para enaltecer o labor; chulas, quando para desmascarar ações igualmente chulas, de dirigentes zombeteiros que, debruçados no passado e com uma espécie de discurso Malufista, só tentam acobertar o presente e dar as costas ao futuro, só tentam enganar os verdadeiros amantes do futebol.

Na ponta da lança, as palavras; no escudo, a imparcialidade; na armadura, a honestidade. Com esta indumentária, qualquer crítico sobrevive ao destempero de quem foi ou, por algum motivo, se sentiu criticado, mas não conhece o devido valor da crítica. E quando a crítica é implacável perante àqueles que permanecem em situação confortável no cenário obscuro e destruído do futebol, não são poucas as tentativas desesperadas de denegrir a imagem de quem fez as afirmações mais duras. Pura falta de argumento, coisa que o bom crítico, incólume, tira de letra.

Aliás, o bom crítico jamais cambaleia ou se curva, porque nunca se rendeu ou renderá aos afagos de quem precisa de apoio para permanecer no poder. Ele jamais será subserviente ao descaso, à postura antidemocrática, ao amadorismo no futebol. Exatamente por isso, quando percebe tentativas de achincalhe, contra ele ou seu trabalho, o crítico se agiganta. Tem a certeza de que a sua crítica não só incomodou, como foi certeira, dilacerante. Que sirva, pois, de lição para que as palavras duras de hoje, quem sabe, sejam substituídas por elogios em breve. No dia em que isso acontecer, o futebol estará caminhando no rumo que o bom crítico e o torcedor tanto sonham.

Comentários

João áquila disse…
Os encarapuçados só querem o silêncio, pois é se alimentam da surdina. É necessário a crítica para o bem comum, que óbvio baterá de frente com interesses pessoais dos "poderosos".
Claudia disse…
Gostei do comentário, não demore muito a aparecer no seu blog, os seguidores sentem sua falta

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