Eis aqui a grande invenção da internet! A inimaginável fusão do boteco, ponto de discussões filosóficas e nascedouro das soluções para todos os problemas políticos, econômicos e sociais do mundo, com o hospício, furna da mais pura sinceridade, livre das convenções, amarras e obrigações sociais. Coerências ou devaneios, tudo vale. Tudo é possível. Portanto, seja bem-vindo! Entre, sente, tire a camisa de força e tome mais um gole, sem pressa para pedir a saideira.

terça-feira, dezembro 30, 2008

Lavem as manchas do mundo

Lembra quando postei uma reportagem sobre os artesãos de Santana do São Francisco?

Lembra que eu disse que fomos para a antiga Carrapicho eu, o jornalista Anderson Ribeiro e o cinegrafista e editor de imagens Genisson Silva, munidos de uma câmera condenada e um microfone comum?

Lembra que eu disse que, ainda assim, trouxemos na bagagem um especial de 30 minutos e duas reportagens? Pois bem. Eis a segunda reportagem:

video

Tá bom, tá bom. Eu admito que o microfone apareceu umas duas ou três vezes. Mas não foi você que ficou durante um bom tempo em cima de uma pedra, num sol de rachar, de braço teso e esticado, segurando o fio de um microfone comum. OU VOCÊ PENSOU QUE TUDO ISSO FOI FEITO COM MEGAESTRUTURA DE NOVELA?

segunda-feira, dezembro 29, 2008

O Piano




Notas e tons, jobinando as canções pra você
Solta um bemol, gargalhadas em lá
Esse piano, instrumentando a nossa ilusão
Teclas e sonho, arremedos nos dedos das mãos
A mão entende o que o meu coração quer dizer
E quando se estende, procura você
E esse piano, extensão dos meus braços, remir
Alcança o sol para lhe oferecer
O primeiro dó
O primeiro amor
Paixão sustenida, razão diminuta
E a clave arrebenta em mi
São tantas oitavas
Mas todo piano
Termina em si.


Música em parceria com Anderson Ribeiro e Gilton Lobo.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Adoção em pauta

Os cinco posts a seguir são uma reportagem especial que publiquei no Jornal Cinform desta semana. Espero que alguém consiga ler até o final.

Mito e preconceito: cárcere da adoção

Amor de Aderval deu sentido à vida da pequena Camila

“Com tanta criança saudável, o senhor vai levar logo essa doentinha?”. Cara a cara com o absurdo, o bioquímico Aderval Nunes pasma por um instante. Engole seco, recompõe-se, segue em frente. Decidido, não seria o preconceito, impregnado nas próprias instituições de proteção a crianças e adolescentes e que, naquele momento, alastrava-se na voz e no inconsciente da funcionária de um dos abrigos de Itabaiana, que o demoveria do sonho de ter a pequena Camila, 6 anos, como sua filha. Com uma deficiência mental moderada, ela encontrou em Aderval e na sua esposa, a contabilista Maria Luíza Santana, uma família e um estímulo para voltar a andar e falar. Hoje, um ano e oito meses após a adoção, médicos estimam 90% de chances de recuperação.
“Procurei pensar no bem-estar da criança e no amor que eu sentiria por ela, e que também é recíproco, sem me preocupar que fosse igual a nós. Camila é negra, mas isso não nos incomoda. Ela uniu a família, é supercarinhosa e, segundo o fisioterapeuta, é a única criança especial que tem vontade própria de melhorar, que chora quando acabam os exercícios. Ela se adapta a qualquer ambiente, e o que fez com que ganhasse essa liberdade foi o tratamento igual que recebe dentro de casa”, testemunha Aderval.
Enquanto a Associação dos Magistrados do Brasil – AMB – contabiliza cerca de 80 mil crianças e adolescentes em situação de risco nos 6 mil abrigos de todo o país – e em Sergipe o número de abrigados é de 428, de acordo com Núcleo de Apoio à Infância e Adolescência do Ministério Público Estadual –, casos de amor como o de Aderval e Maria Luíza pela pequena Camila continuam raros e resvalam na muralha dos mitos e medos que envolve a adoção.
Os números do Cadastro Nacional de Adoção, criado em abril pelo Conselho Nacional de Justiça, ilustram muito bem a situação. Até agora, estão cadastrados 10,6 mil pais para 1.500 crianças no Brasil. Pelos dados do Grupo de Apoio à Adoção de Sergipe – Gaase –, o menor Estado da Federação possui apenas 17 crianças disponíveis e há aprovados pelo juizado 115 casais ou pessoas à espera de um filho adotivo. Em suma, o número de brasileiros interessados em adotar é praticamente nove vezes maior que o de crianças à espera da adoção, mas esses pequenos ainda permanecem abrigados, sobretudo, por conta do estigma do “defeito de fabricação”.

SOB MEDIDA DO PRECONCEITO
A maioria dos propensos pais adotivos exige crianças brancas, de cabelos lisos e olhos claros, com idade abaixo de um ano e sem qualquer problema de saúde. Em um Brasil erigido na opressão de negros, índios e mestiços, não é difícil imaginar que os abrigos, albergues de filhos de pobres e também dependentes de um sistema precário de saúde pública, não disponham de tantas crianças com esse perfil “bonito e saudável”, feitas sob encomenda para dar conta do preconceito.
Em outros tantos casos, casais inférteis temem adotar meninos ou meninas que tragam consigo “descompassos psicológicos” oriundos dos seus pais biológicos. E os que adotam geralmente debitam na conta da adoção muitas das oscilações emocionais, normais e inerentes a qualquer criança. “Isso não existe, e eu sempre faço um teste: diga-me o nome completo do seu tetravô paterno? Não sabe? Ninguém sabe. Eu também não sei o do meu. Agora se a gente não sabe nem o nome da nossa ascendência, como quer exigir de uma criança saber os antecedentes dela, se tem problema, se não tem?”, questiona o filósofo, psicólogo, teólogo e avô adotivo pernambucano Luiz Schettini Filho, um dos maiores estudiosos da adoção no Brasil.
“Quando se fala em cultura da adoção, está se referindo ao fato de adotar um filho pelo filho. E eu creio que, aos poucos, temos incutido essa cultura, tanto que há pessoas adotando crianças com necessidades especiais. Eu entendo que não é todo mundo que tem essa disponibilidade, mas a gente já vê isso, já vê adoções inter-raciais, de crianças de mais idade, e a cada vez que isso acontece e chega ao conhecimento das pessoas, elas vão se despregando um pouco desse preconceito. E o mérito disso é exatamente a ação de pessoas e instituições como os grupos de apoio à adoção, que hoje já são cerca de 120 no país. Eles têm dado uma contribuição enorme”, diz Schettini.

ÉTICA E GENÉTICA
Segundo o pesquisador pernambucano, o rótulo da “criança perfeita” extrapola o universo da adoção e envolve, ainda, questões de comportamento. “O que é a criança perfeita? Para ser bem prático, é aquela que não dá trabalho, que é estudiosa, organizada, não briga com os outros e obedece ao que a gente manda. Mas isso na verdade é a criança submissa, e quem descobre que essa ‘criança perfeita’ não existe passa a olhar para uma coisa que é fundamental na relação parental: a singularidade do outro”.
Luiz Schettini acredita que o grande mito a ser quebrado não está nas filas de adoção, mas na mentalidade de pessoas que não podem ter filhos e, ainda assim, recusam-se a aceitar a idéia de adotar uma criança. É a mítica ligação genética enquanto arrimo familiar. “A família não se constrói através de uma ligação genética, mas através de uma ligação ética. O genético pode existir, mas ele não é imprescindível, nem fundamental. O ético, sim. E o ético está ligado ao afetivo, de modo que todos os filhos têm de ser necessariamente adotivos, mesmo aqueles que a gente gera. Se eu gero um filho e não o adoto afetivamente, na realidade eu não sou o pai. Sou apenas o genitor. Por isso é preciso acabar com essa história antiga de laços de sangue. Isso me soa um tanto vampiresco”.

Espectro do abandono, infância de incertezas

O administrador de empresas Antônio Matos (nome fictício), 29 anos, viveu a infância como um malabarista amador, a manejar desastradamente suas angústias, dúvidas e mágoas. Quem era o seu pai? Onde estava? Por que não o procurava? Perguntas sem resposta exerciam o peso de malabares de chumbo na cabeça do menino do município de Serrinha, na Bahia. Filho de uma dona de casa e de um empresário bem-sucedido, aos 19 anos Antônio até sabia o nome de seu progenitor, mas jamais o havia visto.
“Sempre tive curiosidade de saber quem ele era. Só me faltava coragem de perguntar, porque eu também não queria constranger a minha mãe, fazê-la relembrar um passado que talvez não quisesse. Mas os meus familiares não aceitavam que eu vivesse naquela situação, com a identidade sem o nome do pai, e passaram a me dizer que eu merecia saber. Minhas tias o procuraram e a gente começou a se aproximar”, rememora Antônio.
A reaproximação entre filho e pai biológico aconteceu mediante exigência de teste de DNA. Comprovada a paternidade, passaram a manter contato por telefone ou em visitas esporádicas do empresário a Serrinha. “Logo em seguida eu vim morar em Aracaju e o nosso contato ficou restrito a telefonemas e a alguns momentos de feriado. Quatro anos depois, surgiu a oportunidade de abrir uma nova loja e ele acabou me chamando para trabalhar”, diz o administrador de empresas.
Para Antônio, aquele era o momento em que seria definitivamente adotado como filho, o que não ocorreu. “Nosso relacionamento era uma coisa muito fria. Ele poderia ter tido uma atenção mais forte e, de alguma forma, acredito que eu também assumi uma postura defensiva, pois achava que as coisas haviam acontecido de forma errada. Na verdade, eu sentia um certo rancor por ele não ter me procurado bem antes, e isso dificultou muito. Talvez hoje a relação fosse outra se tivéssemos um contato afetivo desde cedo. Eu não tenho intimidade de falar com ele como pai. Não consigo ter esse tipo de afinidade”.

UM PAI, UM NORTE
Apesar das tentativas de agrado, o pai biológico de Antônio jamais conseguiu dividir igualmente o carinho e a atenção entre ele, sua esposa e os seus dois outros filhos mais novos. Pior: a relação passou a ser mensurada em cifras. “Tentou-se entrar no âmbito comercial, e não paterno, e aí houve muito erro da parte dele e da minha também. Depois disso, eu fiquei muito magoado com coisas que aconteceram. Essa mágoa ainda é forte, mas eu tento, da melhor forma, conduzir isso. Ele diz que me considera como filho mesmo, mas eu ainda sinto que não é bem assim. Eu voltei para Aracaju há quatro anos, saí de lá sem querer contato, pensei até em esquecer que tinha um pai. Mas depois, com uma certa insistência dele, voltei a ceder um pouco e hoje acho que vale a pena tentar fazer uma amizade. Eu não o tenho como pai, mas acredito que isso possa ser contornado daqui pra frente”.
Criado pela avó e pela mãe, o menino Antônio tornou-se um homem de caráter, de boa conduta, um bom profissional, mas ainda sente o peso da ausência paterna em sua vida. “Acho que é até mais fácil ter um pai que não seja uma boa referência. Você fala assim: ‘Pô, esse cara não é um exemplo, mas é o que eu tenho’. Já eu não tinha nem como dizer se meu pai era bom ou ruim, e conduzir a vida sem nem saber se essa pessoa que existe seria boa ou não deixa você sem norte”.
As perguntas sobre os tempos de criança ainda fazem Antônio respirar fundo antes de cada resposta. “Foi difícil para mim, tanto que em todo homem mais velho com quem eu fazia amizade buscava aquela atenção, aquele conforto que me faltava de um pai verdadeiro. Não tenho como não relacionar essa ausência à escola, ao Dia dos Pais. Tudo bem que meus tios tentavam supri-la, mas, no fundo, eu sabia que a atenção especial deles seria sempre para os seus filhos”. Em Serrinha, sempre que perguntado sobre o paradeiro do seu pai, o menino desconversava, e se as perguntas persistiam, respondia para encerrar o assunto: “Já morreu. Não tenho pai não. Infelizmente não tive”.

“A saudade é o revés de um parto”

Professor remói saudade, mas reluta em adotar um filho

Jéssica nasceu com problemas congênitos. Frágil, lutou contra a infecção hospitalar, pneumonia, meningite, entre outras enfermidades. Começou a andar aos 5 anos e perdeu a vida aos 7, no colo da mãe, vítima de uma crise asmática, a caminho de um hospital. Hoje, uma década após a sua morte, a perda ainda dói latejada no peito da dona de casa Juliana Santos, 36 anos, e do seu marido, o professor Francisco, 54 (tanto o nome da criança quanto os dos pais são fictícios). Todo dia, a mãe prepara o quarto da sua pequena como se a esperasse voltar – cama, impecavelmente arrumada, fotos dispostas nas prateleiras, bonecas caprichosamente vestidas e penteadas. Juliana e Francisco materializam a saudade que é, de fato, “arrumar o quarto do filho que já morreu”.
Casados há 17 anos, eles mantêm o quarto intacto enquanto lutam para ter um novo bebê. Ligados pelos traços consangüíneos, os primos Juliana e Francisco sabem que uma nova criança gerada pode trazer complicações genéticas. Ainda assim, resistem quando o assunto é adoção. “Até hoje sentimos a morte da Jéssica e ficamos receosos de ter mais um filho. Mas a minha mulher está fazendo tratamento, com acompanhamento médico, é nova e nós vamos tentar mais uma vez. A adoção a gente está prorrogando enquanto for possível ela ter um filho natural”, argumenta o professor.
O casal já teve experiências com duas outras crianças deixadas por pessoas do interior do Estado que não tinham condições de criá-las. “Não chegamos a adotar totalmente, mas recolhemos duas meninas e, se tivesse dado certo, a gente ficaria. Mas o problema é que as crianças de uma certa idade já vêm com alguns vícios, já foram educadas de outra maneira e não se adaptam, não querem seguir a educação que a gente proporciona. São crianças que, vamos supor, gostam muito de viver na rua, aí você quer botar na escola, para estudar, cumprir horário, fazer as coisas todas certinhas, mas elas preferem voltar para a vida antiga, para a mãe. Sabem que não estão sendo criadas pelos pais, aí você também não pode reclamar de nada, não pode aconselhar”, diz Francisco.
É com essa convicção que o casal prefere arriscar, novamente, a desilusão da perda de um filho a dar uma nova vida a uma criança carente de família. “Quando é um filho gerado, se porventura ele não quiser seguir um bom caminho, e isso pode até acontecer, você tem que aceitar, pois foi Deus quem mandou. Eu até acredito que uma criança adotada novinha, que não teve contato com outro tipo de educação, adapte-se bem e seja criada como filho mesmo. Ainda assim, a gente prefere adotar só no último caso”, reluta Francisco.

Amor à décima potência

Kael e Carla: irmãos unidos pela adoção

Quem duvida do amor entre pais e filhos adotivos certamente não conhece a secretária executiva Carla Batista Conceição. Aos 15 dias de vida, ela foi adotada por Maria Alice Conceição, uma assistente social que enfrentou o preconceito – muito mais arraigado há 32 anos – e, mãe solteira, criou três crianças e construiu uma família que ainda hoje, 12 anos após a sua morte por infarto, permanece sólida.
“A minha mãe biológica não tinha condições de me criar. Morava no interior da Bahia, era muito jovem, tinha problemas de saúde e não era casada. A minha tia trabalhava no hospital onde eu nasci e chegou em casa dizendo que uma menina ficaria para adoção. Foi aí que minha mãe me adotou”, revela Carla. Depois dela, Maria Alice ainda adotaria Carlos Eduardo, aos 3 meses de vida – hoje com 23 anos –, e o caçula Kael, com apenas um dia de nascido – e agora um adolescente de 13.
“Eu nunca tive problema por ser adotada. Na minha cabeça, é uma coisa que sempre foi muito bem resolvida. Talvez o amor tenha sido tanto que nada me faz falta. Eu não me sinto diferente, menos ou mais do que ninguém, e hoje vejo que o maior presente da minha vida foi esse. Fui amada por quem me gerou, porque ela teve a dignidade ou hombridade de me dar, e fui amada à décima potência por quem me pegou, porque a minha mãe é a pessoa mais maravilhosa do mundo”, diz Carla, de olhos marejados.
Desde as broncas e tapas, até o carinho da família, nada faltou à menina. Em meio a oito netos biológicos que se reuniam para brincar no casarão dos avós, no bairro Suíssa, não havia distinção. “Quando minha mãe me adotou, meu avô disse que era um absurdo, que as pessoas iriam pensar que ela era mãe solteira, mas uma semana depois o meu berço estava do lado da cama dele, porque minha mãe trabalhava à noite, então ninguém encostava mais em mim. O xodó da vida do meu avô, todo mundo sabe, era eu”, garante.
Entre Maria Alice e os seus três filhos, a adoção jamais foi encarada como tabu e, muito menos, comentada nas alcovas. “Eu não tenho uma lembrança de quando soube que era adotada. É como se a minha vida inteira eu soubesse. A minha mãe incutia desde pequenininha: dizia que eu tinha a ‘mãe do coração’ e a ‘mãe da barriga’, em uma linguagem mais infantil. Ela nunca escondeu”, diz Carla Conceição.
A secretária executiva não guarda na memória qualquer momento de diferenciação, de preconceito. “A minha avó, que ainda tinha uma cabeça meio retrógrada, contou para a rua inteira que eu era adotada, para que as pessoas não imaginassem que a filha dela pudesse ser mãe solteira. Mas dentro da minha família eu nunca tive esse problema, e na escola também não lembro de ter sido tratada diferente por ser adotada, até mesmo porque, para mim, eu não era. Não que renegasse o fato de ser, mas eu sou tão minha mãe...”.
Com a morte de Maria Alice, Carla continuou cuidando do pequeno Kael. “Minha mãe morreu quando ele tinha 1 ano, e eu tive que arregaçar as mangas. Hoje ele tem todos os defeitos de um adolescente, tem de ficar de castigo, mas eu acho que poucas pessoas amam um irmão como eu amo o meu. Ele sabe que eu não sou a mãe dele, mas quem manda sou eu”, ri.
Há algum tempo Carla Conceição passou a trabalhar voluntariamente com o Grupo de Apoio à Adoção de Sergipe. Por meio do seu testemunho de vida, tenta conscientizar a população de que os laços sanguíneos não são fundamentais para se constituir uma família feliz. “Mais importante do que o sangue é o amor. Sangue você faz transplante, você perde. O amor não. Eu amo minha mãe, mesmo ela não estando no plano físico. E fui amada, talvez, como muitos filhos e muitas mães que têm o mesmo sangue não possam mensurar. Acho que se o sangue valesse alguma coisa não tinha filho matando mãe, e vice-versa. Amor, respeito, carinho, você constrói no dia-a-dia”.

Destituição do poder familiar: dilema da justiça

Luiz Schettini, sobre abrigos: “a criança vai ficando indefinidamente ali”

O Cadastro Nacional de Adoção é um grande passo da justiça brasileira no sentido de democratizar e desburocratizar os processos de adoção. Faz uma integração das listas de crianças que podem ser adotadas e dos candidatos a pais registrados nas varas da infância e da juventude de todo o país. Possibilita, por exemplo, que um casal do Rio Grande do Sul encontre no Maranhão uma criança com o perfil desejado. Mesmo com tantos avanços, o principal dilema da justiça permanece: a maioria dos pequenos abrigados ainda mantém vínculos jurídicos com familiares de origem, que muitas vezes sequer comparecem às audiências. Como definir, então, o momento exato de destituir um pai ou mãe biológicos do pátrio poder ou poder de família? Como desgarrar essas crianças e dar a elas uma chance de viver fora dos abrigos?
“Muitas dessas crianças não estão disponíveis para adoção porque o juiz não retirou o poder de família desses pais. Em muitos dos casos, a criança fica no abrigo um tempo imenso e depois de seis, oito meses, um ano, aparece algum familiar. E se aparece, o juiz não tira o poder. Mas aí esse parente desaparece de novo, passa mais outro ano sumido, e a criança vai ficando indefinidamente ali”, reclama o psicólogo Luiz Schettini Filho.
“Nos casos em que o poder familiar já foi destituído, o processo é muito mais célere. Mas para aqueles em que o pátrio poder permanece, existem todos os trâmites legais porque nós estamos em um Estado de Direito, em um regime democrático, no qual os pais têm que ser citados, têm direito de defesa, e nós temos prazos a cumprir. Eu sempre digo que isso é uma segurança para os pais responsáveis, pois ninguém pode perder o direito de um filho, a não ser que autorize essa adoção voluntariamente ou que seja destituído do poder familiar por meio de um processo legal”, explica a promotora da 16ª Vara da Infância e da Adolescência, Lilian Carvalho.
Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA –, crianças e adolescentes só podem ser colocados à adoção quando todos os recursos para mantê-los no convívio com a família de origem tiverem sido esgotados. O zelo é necessário, porém emperra a vida de muitos que estão em abrigos, e por isso exige uma reavaliação em determinadas situações.
“Mesmo sofrendo maus-tratos, abusos ou negligência familiar que tenham motivado o abrigamento, muitas crianças costumam atribuir a si mesmas sua situação de abandono. Imaginam que elas foram abandonadas ou maltratadas porque são más, fizeram algo errado, são feias e não servem para nada. Ao serem abrigadas, convivem com pessoas desconhecidas, num estado de hiato – não estão em casa, vivem numa situação temporária de longos anos e sem projetos de vida. Também não há espaço para trabalhar adequadamente sentimentos como a raiva e a dor da perda, que precisam ser externados e trabalhados para que a mágoa dê lugar à esperança. E a esperança em novas vinculações afetivas é fundamental para que a integração ou reintegração familiar seja bem-sucedida”, adverte a psicóloga Marlizete Maldonado Vargas, presidente do Gaase.

PROJETO DE LEI
Para o juiz da Infância e Adolescência José Antônio de Novaes Magalhães, não é possível criar uma regra geral para a destituição do poder familiar. “Cada caso é um caso. Há três meses nos chegou a informação de que um casal de gêmeos recém-nascidos estava morrendo de fome. Nós detectamos que o problema era a pobreza de uma família de nove filhos e pais desempregados, por isso, resolvemos abrigar as crianças e acompanhar. Hoje, assistentes sociais e psicólogos buscam reorganizar essa família, enquanto as crianças já passaram por tratamento médico, ganham peso, estão se recuperando. A nossa intenção é devolver os filhos aos seus pais. Já em outra situação, uma mãe alugou seus dois filhos para trabalharem nos semáforos. Essas crianças foram levadas para um abrigo e nós verificamos que a família é envolvida com drogas, possui um arsenal em casa, vive em confusões. Inclusive, um dos familiares ameaçou a assistente social com uma faca. Aí, sim, foi necessária a destituição do pátrio poder, pois não havia condições de se criar as crianças naquele ambiente”.
Se aprovada pelo Senado e sancionada pelo presidente Lula, a Nova Lei de Adoção, de autoria do deputado federal João Matos – PMDB/SC –, tende a diminuir a espera dos abrigados. De acordo com o projeto, os abrigos poderão executar programas específicos para localização dos genitores ou responsáveis desaparecidos, contando com o apoio do Conselho Tutelar e da Polícia Civil, e terão prazo máximo de 60 dias para encaminhar à justiça e ao Ministério Público um estudo indicando se a criança ou adolescente devem ser reintegrados à família de origem ou colocados em família substituta. Após esse encaminhamento, os abrigos terão mais 120 dias para realizar a reintegração à família de origem ou, na impossibilidade, subsidiar o MP para que promova a ação de decretação da perda do poder familiar. Ao receber o relatório encaminhado pela entidade de abrigo, o Ministério Público terá 30 dias para promover a ação ou requerer a homologação da reintegração familiar realizada. Se ficar constatada a impossibilidade de retorno à família de origem, à família substituta ou o encaminhamento à adoção, o abrigo deverá apresentar, em 90 dias, uma proposta de projeto de vida do abrigado. O acompanhamento desse projeto ficará sob responsabilidade do Conselho Tutelar e de programas específicos do município.

ADOÇÃO À BRASILEIRA
A justiça também trava uma batalha contra a chamada “adoção à brasileira”, a do “jeitinho”, caracterizada quando pessoas sem condições financeiras de cuidar dos seus filhos os entregam para outras criarem. “Essa é a adoção mais comum, porém, é um crime que precisa ser combatido, entre outras coisas, porque não há um estudo psicossocial de quem recebe a criança. Isso coloca a vida do adotado em risco”, explica o juiz Antônio Magalhães.
Há severidade nas punições para quem pratica esse tipo de adoção. Na esfera civil, a pena vai desde a anulação do registro de nascimento até a retirada da criança do convívio do casal responsável pelo ato. Na penal, a prática do crime de parto suposto – registro de parto alheio como próprio – pode representar de dois a seis anos de reclusão. A depender da motivação, esse tempo diminui para um a dois anos, podendo o juiz deixar de aplicar a pena.
Outra briga da justiça é para acabar com o estigma da morosidade que lhe foi imputado quando, na verdade, a preferência por crianças brancas e com idade abaixo de um ano é o que engorda a fila de espera da adoção. “O problema é que as pessoas pensam assim: ‘se há uma criança disponível para a adoção, por que tanta burocracia? Por que é que em uma, duas ou três semanas não se vêem os documentos e se fecha a questão?’. Mas todo mundo esquece que, quando se gera um filho, espera nove meses para tê-lo nas mãos. Agora, na adoção, não quer esperar dois, três, quatro ou cinco meses. O tempo é necessário porque não se vai entregar uma criança a uma pessoa que apresente o mínimo de insegurança em sua idoneidade pessoal, moral, em suas condições psicológicas. A adoção é feita de forma legal, é irreversível e deve ser criteriosa”, argumenta Luiz Schettini Filho.
“Acredito que há ainda muito desconhecimento na sociedade. Para adotar, as pessoas só precisam procurar a 16ª Vara da Infância e Adolescência e fazer o cadastro. E a pobreza não é impedimento. O importante é que se tenha muito amor para dar àquela criança. Obviamente, precisa ser uma família estruturada, mas não necessariamente um casal. Pode ser união estável ou até mesmo uma pessoa solteira. Hoje, inclusive, muitos homens já estão adotando. É claro que uma equipe interdisciplinar, com assistente social, psicólogo, avaliará a situação de quem está requerendo a adoção, se tem idoneidade para requerer. Não será dada uma criança para alguém que vai maltratá-la”, garante a promotora de justiça aposentada Adélia Pessoa, diretora do Instituto Brasileiro de Direito de Família – IBDFAM/SE.