Eis aqui a grande invenção da internet! A inimaginável fusão do boteco, ponto de discussões filosóficas e nascedouro das soluções para todos os problemas políticos, econômicos e sociais do mundo, com o hospício, furna da mais pura sinceridade, livre das convenções, amarras e obrigações sociais. Coerências ou devaneios, tudo vale. Tudo é possível. Portanto, seja bem-vindo! Entre, sente, tire a camisa de força e tome mais um gole, sem pressa para pedir a saideira.

terça-feira, novembro 21, 2006

A síndrome do chifrudo imaginário


“O que faz o homem se sentir corno sem ser?”, disparou a aluna, atendendo ao meu clamor por uma pauta para o Boteco. Estupefato, eu, que jamais passei por essa situação de me sentir corneado – e fique aqui você, leitor, atormentado pela incerteza se falo ou não a verdade, até porque um homem com H jamais admite sequer a iminência de um par de chifres pesando-lhe a cabeça – resolvi atender ao pedido dela, mesmo por preocupação... E os homens se sentem cornos sem ser? Eu, particularmente, não. Até porque, como diz a lei do mundo da cornália, só é corno que sabe que é. Portanto, como nunca soube, fico de fora das estatísticas dos cornudos, pelo menos por enquanto.

Mas, se apesar de ainda não acompanhar esta revolução no psíquico masculino, acredito no protesto das mulheres – acaba de me chegar uma outra estudante aqui dizendo “Eita! Essa pauta é boa mermo! Esses fio da peste sempre acham que tomaram gaia!” –, acabo por começar a escrever, imaginativamente, é claro, quais motivos levam um sujeito a se sentir gaiudo.

Bom. Por conta da minha inexperiência no assunto, vou sair pela tangente e jogar a culpa, a princípio, na dor de cabeça das mulheres. Afinal, toda vez em que elas alegam dor de cabeça – principalmente naquelas horas em que estamos mais carentes por afeto –, acabamos fadados ao desprezo. E não há Anador ou Aspirina que resolva... Por que as danadas não sentem as inquietantes pressões na caixa craniana quando estão no shopping center ou no salão de beleza, onde, curiosamente, suportam intermináveis esticões no couro cabeludo? Estranho....

A dor de cabeça é um ponto a ser considerado e, portanto, meu amigo, se a sua mulher tem estado constantemente acometida por este mal, cuidado. Amanhã, a cabeça a doer poderá ser a sua. Como precaução, comece a injetar comprimidos de um analgésico qualquer, obviamente esfarelados e dissolvidos em copos d’água, no suco de laranja, na sopa, na vitamina, na panela do feijão.... Se o medicamento for em gotas, melhor. Menos trabalho. Mas, ainda assim, cuidado para não exagerar na dose e deixar que a vítima desvende a trama pelo gosto estranho na boca.

Mas não só as intermináveis dores de cabeça são sinais da traição feminina. Outro indício sério é quando a mulher, como num passe de mágica, passa a não mais se incomodar e, pior, até a deixar o namorado, noivo ou marido assistir ao futebol com os amigos. Das duas, uma: ou ela enlouqueceu, ou está enfiando um belo par de chifres no pobre coitado! Mulher que é mulher jamais concede ao seu parceiro o direito de assistir à pelada com os companheiros de cerveja. Aliás, a mulherada parece já nascer programada para o veto e, ainda que tenha algo pra fazer – como ir ao shopping, por exemplo –, insiste em arrastar o homem com ela. “Amar não é ir somente aos lugares de que gosta, e sim fazer companhia à pessoa amada”, argumenta, num discurso altamente fajuto, genuíno atentado à democracia e ao direito de ir e vir... Afinal, que mulher se predispõe a ir ao estádio de futebol com o homem que ama? Existe, sim. Da mesma forma que existem os ganhadores da mega-sena.

Mas eu acredito que o grande termômetro para o homem chifrudo é, sem dúvida, se a sua mulher desistir de discutir o relacionamento. Não. Aí já é demais. Dores de cabeça propositais, abstinência sexual, crises de TPM, tudo é passível de variação. Mas mulher que não discute o relacionamento, não existe. O debate conjugal é, para ela, uma terapia. O segundo maior passatempo depois do shopping, é claro. E não adianta ao macho andar na linha durante meses, ou mesmo anos. No primeiro deslize, por mais bobo que seja, lá vem ela, de forma imperativa. “Precisamos conversar!”. Algumas, mais dissimuladas, forjam uma postura sujestiva. "Você não acha que precisamos conversar?". Independentemente do tom das palavras, não tem “caba homi” capaz de fugir à CPI que, invariavelmente – não sei como elas ainda não se aperceberam disso –, acaba em pizza, sem solução, assim como a maioria das CPIs de Brasília. Na melhor das hipóteses, cada um vira para o seu lado da cama e vai dormir tachando o outro de “cabeça dura”, abraçando suas rijas convicções.

Bom, acho que é isso. Tentando responder ao reclame das minhas alunas - e, quem sabe, da mulherada em geral –, acredito que as situações apresentadas neste artigo seriam, prioritariamente, os maiores indícios de que uma mulher estaria me corneando. Acho até que, quando me sentir vítima de todos esses distúrbios de uma só vez, em uma só mulher, terei certeza da minha desgraça. Serei corno, e pronto.

terça-feira, outubro 24, 2006

A Era do ApoCalypso


Já não agüento mais. Depois de tentarem me obrigar a botar a mão no joelho e dar uma abaixadinha, agora querem que eu saia me esfregando em praça pública, feito um animal irracional - puro instinto -, ao som de um pequeno punhado de notas repetidas num teclado qualquer.

É. Definitivamente, não sou arrocheiro... Se é que é assim que se nomeiam as pessoas que gostam deste barulho, deste... desta balbúrdia musical. Enfim, deste troço inaudível que toca nas FMs, nos botecos, nas feiras, nos carros dos playbboys - atitude perdoável, visto que estes acéfalos nada conseguem fazer além de serem condicionados a reproduzir o que a mídia lhes impõe.

Literalmente, não dá mais para viver na terra do arrocha, da música brega, daquelas batidas repetidamente insuportáveis do funk carioca - batidas estas que, se deflagradas na década de 60, serviriam muito bem às Forças Armadas como instrumento de tortura contra os descontentes com a ditadura militar.

Quero ir embora. Quero ir a um lugar onde não tenha de acordar com o som do Harmonia do Samba, num "sambinha" de quatro notas e sem a menor harmonia. Quero ir a um lugar onde não tenha de ligar a TV e me deparar com o Lacraia se contorcendo e sendo aplaudido por um bando de idiotas pocotós, estrategicamente enfileirados e capazes de passar uma tarde inteirinha atendendo aos mandos e desmandos de um apresentador qualquer.... Afinal, o que faz um ser humano em sã consciência sair do conforto do seu lar para ficar feito uma besta, gritando e aplaudindo à exaustão, num programa de auditório? Acho que nem Freud explica isso, mas a teoria dos ilusórios 15 segundos de fama na telinha, talvez sim.

Por fim, preciso arrumar um jeito de descansar meus ouvidos dessas melodias paupérrimas, dessas letras catastróficas e deseducativas - aliás, já está na hora de se vender aparelho de som com a tarjeta "mantenha longe do alcance das crianças -; dos "pirilim-pompons", dos "chupe meu braço", dos "cUelhinhos", dessas gargantas berrantes e renitentes a abradar coisas como "Calypsooooooooo" e a me tirar o sono - não sei quem decretou que berrar é saber cantar -. Enfim, dessa porcalhada toda.

Cadê João Gilberto? Tom Jobim? Vinícus de Morais? Baden Pawel? Cartola? Noel Rosa? Luiz Gonzaga? Onde está a genialidade da música popular brasileira? Ela existe, sim, em talentos como Tom Zé, Francis Hime, Hamilton de Holanda, Ná Ozzeti, Cordel do Fogo Encantado, Toquinho, Ceumar, Hermeto Pascoal, Lenine, Mônica Salmaso, Sivuca, Yamandu Costa, Zeca Baleiro, Miúcha, Riachão, Otto, Arnaldo Antunes, Chico César, Gilton Lobo, Djenal Gonçalves, Leila Pinheiro, Flávio José, Elomar, Xangai.... Ih, é muita gente!!! Isso sem contar os imortais como Chico Buarque e Paulinho da Viola. Mas, infelizmente, a MPB de qualidade está nas alcovas, escondida, submissa, algemada aos ditames do mercado.

Em 1969, Chico Buarque compôs “Essa moça tá diferente” e demonstrou sua desilusão com a mudança da música nacional, do samba e do chorinho, que começava a se modernizar através do movimento tropicalista:

Essa moça tá diferente
Já não me conhece mais
Está pra lá de pra frente
Está me passando pra trás

Essa moça tá decidida
A se supermodernizar
Ela só samba escondida
Que é pra ninguém reparar

Eu cultivo rosas e rimas
Achando que é muito bom
Ela me olha de cima
E vai desinventar o som

Faço-lhe um concerto de flauta
E não lhe desperto emoção
Ela quer ver o astronauta
Descer na televisão

Mas o tempo vai
Mas o tempo vem
Ela me desfaz
Mas o que é que tem
Que ela só me guarda despeito
Que ela só me guarda desdém

Mas o tempo vai
Mas o tempo vem
Ela me desfaz
Mas o que é que tem
Se do lado esquerdo do peito
No fundo, ela ainda me quer bem.

A atemporalidade da obra é a marca registrada do gênio, e a descalabrosa realidade musical do Brasil só nos serve para reverenciar ainda mais a genialidade de Chico. De fato, essa moça chamada MPB continua diferente. Se maquiando cada vez mais e perdendo sua essência para o colorido efêmero da futilidade e da mediocridade intelectual. E ela – a música popular brasileira – realmente ainda nos quer bem. E muito bem. Nós é que somos os verdadeiros ingratos e não lhe damos a devida atenção.

sexta-feira, setembro 01, 2006

Henfil por todos os buracos, mas quem disse que adianta?


Colaboração de Anderson Ribeiro

Um dia a humanidade se salva, quero crer. Como se salvaram a obra e o apelo político dos cartuns de Henfil e a preservação de sua memória através dos tempos idos. Aí você deve estar se perguntando: por que tanta exaltação? Ora, explico: para alguns colegas jornalistas, o irmão do Betinho está tão vivo quanto a eterna esperança de dias melhores e justiça social do povo brasileiro, percebidos também nos traços do Henfil. A nobre repórter de TV sergipana levou a máxima ‘está vivo’ tão a sério, que esperou para uma exclusiva com o cartunista sobre sua exposição na Biblioteca Pública Epiphânio Dória, em Aracaju.

Ué, Como assim? Não entendi! Calma, o Circuito Henfil aportou pela terra dos cajus e a ínclita colega foi fazer a cobertura do evento. O problema é que o artista a deixou de molho. Uma falta de respeito mesmo do Henfil não conceder uma entrevistazinha a TV. Êpa! Ninguém sabe ainda quem é, quase digo. Apesar dos protestos da espírita-jornalista ele não deu as caras. Mas quem disse que ela se satisfez? Ligou pra redação e relatou a desfeita. Quem ele pensa que é? O rei da França? (não poupou nem os que já viraram pó e personagem da história).

A simpática produtora e o curador foram tentar acalmar a pobre jornalista, que insistia dizer que não podia voltar à TV sem a matéria; estava na pauta e não podia cair. Mas nada, pensava eu, poderia cair tanto. Nem o militar deposto por golpe nem a dignidade humana que faz malabarismo nos sinais.

Porém, o que não queria crer era que o inferno da ignorância galopante, arrasadora, fria, cruel e dilacerante, cortava o chão, criando valas, abrindo um abismo profundo diante da jornalista a cada tentativa de explicação aos pacientes profissionais.

Seu desespero era tão grande que começou a juntar um monte de curiosos para tentar entender o porquê de tanto furdunço. Parecia uma louca, dando escândalo, gesticulando com os braços como quem rege uma orquestra, a cabeça balançando pra ver se o juízo retomava seu lugar de origem e achando que tava num comercial de xampu (tem cabelo bom a tal jornalista), mas de tanto exagero, já estava descabelada, suada, com a maquiagem borrada e implorando um copo d’água porque o calor estava de rachar e ela não tinha mais fôlego para sua encenação.

Djenal (dos UQP), que foi visitar a exposição, assistiu a cena e ligou para um cantor que ele disse ter visto tomando sangue de galinha no último Festival Banese de Música, antes da apresentação. Não hesitou. Era mesmo um caso de macumba e só o Melo poderia resolver o problema.

Melo não atendeu ao telefone e a essa altura na Biblioteca, o caso da jornalista esquisita já se transformara num reality show. A turma do Poyesis, do Yázigi, cantinas e biroscas da vizinhança comprou bebidas e petiscos e se acomodou por ali para assistir. Até que uma daquelas figuras cabeçóides, descritas por Gilton Lobo, não achando mais graça da falta de informação sem estar aliada a um strip tease do balacobaco da jornalista, gritou: Ele tá morto, ô anta!

Um silêncio profundo tomou conta da Biblioteca (longa pausa). Então a escandalosa repórter se recompôs, arrumando o cabelo e passando a mão no rosto para se ajeitar. Como se estivesse diante de um espelho, olhou a redor, percebeu que havia platéia, sorriu para a produtora e o curador e disse: Não é uma questão de Vestibular!. Nessa hora todos tiveram a certeza que ela era a Graúna reencarnada. E aproveitando que estava numa Biblioteca, chamou sua equipe e foi se tomar um refrigerante na 13 de julho. Coca-cola é isso aí.

quinta-feira, agosto 10, 2006

Cantoria Chuverial Descomedida, a maldição do milênio

Olha láá quem veeem do lado opooosto
e vem sem goosto de viveeer
Olha láá que os braaaaavos são
escraaaavos sãos
e saaaaalvos de sofrer
Olha láá quem aacha que perder
é ser menor na vidaaa
Olha láá quem sempre quer vitóóória
e perde a glóória de choraaaaaaaar

Este é o meu primo Eduardinho, cantando no banheiro do seu apartamento, em Salvador. Ele é um dos tantos e tantos cidadãos brasileiros acometidos pela Cantoria Chuveiral Descomedida – CCD –, um mau que assola o país. Bem mais que o câncer ou a aids. Bem mais que a desnutrição ou a seca. Talvez até, bem mais que a corrupção e os cambalachos dos nossos políticos, ora travestidos de salvadores da humanidade e pedindo, encarecidamente, o meu, o seu, o nosso voto, quando não, se antecipando em pagar pela preferência dos eleitores compráveis. Talvez até, bem mais que o tráfico de drogas e os mandos e desmandos do crime organizado. Enfim, uma desgraça!

Digamos que, de cada duas residências brasileiras, três têm um portador de CCD. Desses que não podem ver um chuveiro e já vão metendo a boca no trombone. Ou melhor, no microfone. Ou melhor, no chuveirinho ou, na falta deste equipamento, no frasco de shampoo mesmo.
O pior é que, invariavelmente, os portadores de CCD sofrem, como se não bastasse, de Desafinite Aguda – DA –. E aí, eu, como um dos sofredores que acompanham a carreira de Eduardinho pelos banheiros do Brasil afora, desde a época em que o nosso pop star ensaboado, ainda guri, embolava-se em letras simples como “vou na timbalada óiaaa caaaaanto bar” (não sei de onde ele tirou esse “canto bar”), posso garantir: juntou a Cantoria Chuveiral Descomedida com a Desafinite Aguda, F-U-D-E-U!

Quando um cantador de chuveiro resolve tomar banho, é um Deus nos acuda. Não há cristão ou tímpano que agüente. Enquanto ele pega a toalha, já assobiando e prenunciando o desastre, os familiares e amigos posicionados em um raio de até 500 metros procuram, entre olhares aflitos e palpitadas do coração, se proteger do tsunami sonoro que está por vir. Mas nem os pobres vizinhos escapam. Geralmente reprimidos de cantarolar em redutos sociais, e é fácil imaginar por quê, os portadores de CCD mal trancam a porta da “casinha”e já começam a entoar, quer dizer, desentoar os primeiros versos, as primeiras estrofes. E aí não param mais.

Se lhes faltam – aos cantadores de chuveiro, é claro – os graves e agudos vocais, a capacidade imaginativa é transbordante. O sanitário vira um verdadeiro Morumbi lotado, em pleno show do U2. E eles, obviamente, são os Bono Voxes em carne e osso! Alguns chegam até a conversar com o público: “Mãos pra cima”, dizem os pagodeiros. “Sai do chão!”, gritam os axezeiros. “Thank you!”, agradecem os metidos a internacionais, após quase enrolarem a língua no famoso processo de “embromeichon” (vou escrever assim mesmo, pois sou brasileiro).

Ao mesmo tempo, do lado de fora do banheiro, seres humanos aflitos caminham de um lado para o outro, olham ansiosamente para o relógio, de parede ou pulso, não importa. O vagaroso tempo passa a ser um inimigo mortal, prático instrumento de tortura psicológica, bem como a voz que ecoa do sanitário. Os ouvintes mais jovens dispõem de maior resistência às desafinações e conseguem sair da tortura sem grandes seqüelas psicológicas. Os mais velhos, por sua vez, já naquele estágio em que a paciência deixou de ser uma virtude, se arriscam a dar uma batidinha na porta. “EDUARDINHO! BORA RAPAZ! TÁ TODO MUNDO AQUI FORA ESPERANDO PRA TOMAR BANHO! CÊ TÁ PROCURANDO BRINCADEIRA, É?”, grita meu tio Eduardo. Ô desculpinha esfarrapada! Todo mundo sabe que ele quer mesmo é acabar com aquele circo dos horrores em que o seu filho transformou o toalete... E eu, bem ao longe, observando aquela cena e comentando comigo mesmo: “Quem mandou botar essa praga no mundo?”

Mas, se os portadores de Cantoria Chuveiral Descomedida agravada por Desafinite Aguda jamais se incomodam com as críticas, meu primo Eduardinho, em fase avançada da doença – espero que não terminal –, já começa até a sair do banheiro e cantar em locais públicos. Quando trabalhava na Caixa Econômica Federal, resolveu fazer uma visitinha ao “bocão”, decerto por ter comido um acarajé no terminal rodoviário de Alagoinhas, daqueles que aguardam três dias e três noites por um cliente corajoso e faminto ao ponto de abocanhá-los com pimenta e tudo, e não titubeou em soltar a voz: “Jesus, desde menino, éé palestino, éé palestino” (pelo repertório, faltou pouco pro cara nascer um timbaleiro nato, apesar do seu cabeção avantajado, digno de um verdadeiro boneco de Olinda). Acabou de “cortar o quibe” e saiu naturalmente, como se nada tivesse acontecido.

Dizem as más línguas que, no dia seguinte, o excessivo número de reclamações dos clientes e pedidos de demissão por parte dos funcionários obrigou o gerente da Caixa a tomar uma medida drástica: manter o banheiro interditado até que uma sindicância interna identificasse o responsável pela proeza sonora. E Eduardinho, nem aí. Cara de pau, ainda se arvora a admitir, em qualquer mesa de bar, que cantou mesmo, apesar de negar a história da interdição.
Aliás, cara de pau é pouco. Um dos mais graves sintomas da Cantoria Chuveiral Descomedida parece ser mesmo a completa destruição da auto-crítica. Imaginem vocês que, quando estava no meio desse texto, comecei a conversar com Eduardinho pelo msn:

– E aí cabeça, tô fazendo um texto em sua homenagem aqui!
– Manda aí!
(texto enviado..)
– E aí, tá massa?
– Huahuahauahauha! Você é foda! Tô me pocando de rir aqui! Faz o seguinte: ao final do texto, coloca meu telefone de contato para shows....

Dá pra acreditar?...

quarta-feira, julho 26, 2006

O PM, o trabalhador e a mãe do bandeirinha

Se a máxima “Deus ajuda a quem cedo madruga” fosse de fato veraz, meu amigo Etevaldo Dória já teria ganhado na mega-sena, ainda que sem comprar o bilhete. Acostumado a ficar de pé, todo santo dia, em sincronia com primeiro sussurro do galo da madrugada, “Théo”, como gosta de ser chamado – e ai daquele que escrever seu nome sem o “h” –, sai pra trabalhar quando cerca de 90% das almas brasileiras ainda estão vagando despregadas das carapaças de carne e osso.

Mas, como bem antes de decretar a ajuda aos “despertadores humanos” Deus encasquetou com a idéia de que, pelo menos no Brasil, o trabalhador tem de ser pisoteado, torturado, humilhado publicamente, desdenhado, enxovalhado, açoitado, massacrado e etc., num é que Etevaldo e todo o seu labor quase foram parar no xilindró um dia desses? Simplesmente porque um dito sargento da Polícia Militar invocou que o meu amigo – logo ele, que tanto sua pra pagar seus impostos – estava a perturbar a ordem pública e deixar as famílias sergipanas em situação constrangedora. Tudo porque Théo simplesmente xingava a mãe de um bandeirinha, durante uma partida de futebol.

Calma sargento! Veja bem rapaz, a gente é torcedor, trabalha a semana toda. Aqui é o lugar que a gente pode extravasar, Argumentou Etevaldo, trêmulo e arfando de nervoso. Aqui em Aracaju não tem essa estória de trabalhador não. Ou você pára de xingar, ou lhe dou voz de prisão, Rebateu o truculento militar, vencido somente após as próprias mulheres às quais dizia estar preservando a integridade moral lhe dedicaram uma pomposa vaia. Uhhhhhh! Solta o rapaz!

Bonito... Logo em Aracaju, terra das araras, dos cajus e das incessantes brigas entre torcidas organizadas – pelejas que a polícia é INCAPAZ antever e impedir, como se ninguém soubesse o que acontece ao final de todo clássico Sergipe x Confiança –, eis que me surge um sargento diplomata disposto não só a pôr ordem na casa, como alterar sensivelmente a cultura do futebol nacional... De onde me trouxeram tal troglodita? Da Ilha de Tonga?

Alguém precisa dizer a esse sargento, e bem rapidinho – antes de ele mandar 90% dos torcedores sergipanos para o xadrez –, que xingar a mãe do bandeirinha no Brasil faz parte do espetáculo, de tal forma que se todos os filhos desta pátria de chuteiras fossem concebidos nas arquibancadas pelo país afora, suas primeira palavras jamais seriam “papá” ou “mamã”, e sim, um embolado “pua e paiu!”, ou, quem sabe, um “fia a pua!”?
A coisa é de tal forma natural que, acredito, os árbitros auxiliares devem passar inclusive por um treinamento de “Como Conviver com a Fama da Mamãe” ou algo do tipo. Uma espécie de disciplina, curso de especialização... sei lá! Aposto meu salário que até mesmo para os bandeirinhas, imaginar um torcedor fervoroso sem xingar suas genitoras é praticamente impossível. É o mesmo que vislumbrar um fiel católico se recusando a receber a hóstia ou um PM vendando os olhos para a bandidagem e correndo atrás do trabalhador, simplesmente para exercer o poder da farda. Bom... este último caso eu já não tenho certeza se é tão inimaginável assim.

quinta-feira, julho 20, 2006

O amor entre o aracajuano e a porta do buzu


O calvário para todo brasileiro pé-rapado que precisa do transporte coletivo para tocar a vida é praticamente o mesmo em qualquer ponto do país: preço abusivo da tarifa, ônibus superlotados, iminência de assalto e até mesmo os ataques de ovo goro que a molecada arma contra o buzu, sem dó nem piedade (eu mesmo perdi as contas de quantas “bolas brancas” arremessei contra as tantas janelas da minha infância em Alagoinhas, junto ao meu amigo Caatinga, parceiro de planos maquiavélicos e infalíveis).

Mas em Aracaju o calvário de um pé-rapado para se locomover tem lá suas peculiaridades. A mais rotineira delas é estranhíssima: o aracajuano adora a porta do meio do ônibus. É uma paixão avassaladora! Uma fixação doentia! Uma adoração sacra!

Quem trafega de ônibus pela capital sergipana e ainda não foi acometido por esta atração fatal não deve, portanto, espantar-se ao perceber que, enquanto as pessoas se amontoam em frente à porta do meio do buzu, o fundo do carro permanece vazio. Afinal de contas, isso é o que quase sempre acontece.

Apenas para situar os internautas de outros Estados, os ônibus em Aracaju possuem três portas – frente, meio e fundo –: os passageiros entram pela frente, passam pela borboleta, pagam a passagem e, ao invés de se dispersarem, ficam prostrados na bendita porta do meio. É como se fosse uma espécie de status, idêntico ao do sujeito que senta no banco da frente de uma BMW.

Daí, quem entra mais cedo pode até se salvar, mas quem pega o bonde andando – ou melhor, o buzu em trânsito – sofre feito um condenado. Em meio ao calor insuportável, espreme-se de um lado, vira-se do outro; dá uma cotoveladazinha aqui, um “despretencioso” pisão de pé ali; usa a bolsa, mochila, sacola ou o que estiver na mão como escudo; ergue o rosto para respirar mais aliviado, pensa até em gritar “ói o gelo!”, como se faz em estádios de futebol e festas de rua para dispersar a multidão. Mas nada disso adianta. O jeito é se acomodar na lata de sardinha em que se converte aquele trecho da santa e cobiçada porta do meio.

O pior é que os espaços estão ficando cada vez mais exíguos. Um dia desses, solicitei a parada de um ônibus na avenida Beira Mar, mas quase desistia e mandava o motorista passar direto. Em pé na calçada, olhando o carro de frente, tive a impressão de que estava com gente saindo pelo ladrão. Ledo engano. Além de um punhado de pessoas que estava quase caindo no colo do motorista, o ônibus permanecia completamente vazio lá nos fundos. “Fio do cabrunco se num foi!” (Esta expressão, por aqui, funciona como uma espécie de juramento, de quem se está dizendo a mais pura da verdades).

Tentei interpretar aquela cena esquisita, de um ônibus superlotado em dois ou três metros e com o restante do seu espaço interno vazio, ocupado apenas pelas pessoas que se encontravam sentadas. “Será que o motorista está usando Avanço?”, pensei, relembrando a famosa propaganda daquele desodorante. Mas como percebi tanto mulheres quanto homens naquele pedacinho do carro, descartei a hipótese.

Resolvi então perguntar ao cobrador, que me saiu com esta pérola da sociologia dos afetos e das relações: “Já viu, rapaz? Será que sou tão feio assim? Ou é porque vou cobrar a passagem?”.Será que os aracajuanos estão começando a se apaixonar também pela porta dianteira do ônibus? Agora estou preocupado! Não seria esse o momento da SMTT (Superintendência Municipal de Transporte e Trânsito) promover, em caráter de urgência-urgentíssima, um curso de “Técnica da Boa Utilização do Interior dos Ônibus Urbanos de Aracaju: como afastar de vez o risco de morte súbita por asfixia e esmagamento entre o motorista e a segunda porta”?. Fica aqui a sugestão. Você acha a idéia irônica? Porque não é você, fio do cabrunco, que está lá todos os dias asfixiado!

quarta-feira, junho 21, 2006

Gordinho enlatado? NEM MORTO!


Está cada dia mais difícil ser gordo nesta ----- de mundo estereotipado. Como se já não bastassem as espremedoras roletas de ônibus e terminais, as poltronas apertadas, os preços abusivos dos produtos dietéticos – artifícios para os fofinhos inconformados que precisam sair da crise existencial –, agora somos obrigados a andar pelas ruas com roupas apertadinhas, parecendo sardinhas na lata. Assim, não tem obeso que agüente, caramba!

Nós, os gordinhos, somos heróis natos. Mesmo antes de darmos os primeiros passos ou falarmos as primeiras palavras, já aprendemos a enfrentar as agruras proporcionadas pelos quilinhos a mais.. entre elas, as piadinhas e os apelidos que, acreditem, nos perseguem por toda a vida. De “bochechudinhos” nos primeiros cinco, seis anos de existência, passamos a ser tachados como rolhas de poço; baleias; elefantes; hipopótamos, free willys; cocôs de dinossauro; bujões de gás; modelos da Butano... e, ainda assim, conseguimos – entre lágrimas escondidas e sorrisos amarelos –, sair incólumes da avalanche de insultos provocada pelos magricelas sem sal... Mas, daí a quererem nos ensacar nos modelitos magérrimos da moda atual, já é golpe baixo, né não?

Eu mesmo, nem consigo mais me empolgar com as roupas que, vira e mexe, atêm os meus olhos às vitrines por aí a fora. Nas três últimas vezes em que isso aconteceu e resolvi coçar o bolso para comprar uma camisa, saí das lojas literalmente frustrado... O diálogo é invariavelmente o mesmo:

– Eu: “Vocês têm tamanho GG?”

– Atendentes: “Hum.. GG não, mas nós temos o G.. Tem certeza de que o GG não é demais pra você?”

Sem saber se as simpáticas atendentes disparam a pergunta por se enganarem com o meu corpinho de Bob Esponja – pra quem não me conhece, sou quadrado, de pernas e braços finos, mas com uma gigantesca e bem criada barriga de chopp escondida por debaixo da camisa – ou simplesmente por quererem me empurrar o produto e garantirem suas comissões, acabo aceitando experimentar a tal G... E é aí que a minha teimosia se transforma em ódio...

Já não se faz mais GG’s como antigamente. O incômodo é tamanho que, para um gordinho como eu, até a movimentação dos braços fica inviável. Além do que, sejamos sinceros: nós, os cinturinhas de ovo (outro apelido que esqueci de citar acima), DETESTAMOS roupas apertadas! Primeiro, por que desenham as boas e velhas dobrinhas, principalmente aquela camada mais adiposa que, quando cercada por uma calça jeans, acaba se inchando ao ponto de encobrir a fivela do cinto. Segundo, por que nós, os “bolos fofos” (olha outra alcunha aí!), gostamos de nos sentir bem, à vontade. Não fazemos questão de andar amarrados somente pra mostrar músculos que cairão com o tempo. Até porque, diga-se de passagem: não dispomos desses músculos.

Outro detalhe: porque cargas d’água as camisas masculinas agora vêm com mangas encurtadas e desenhadas para chegar, no máximo, até a altura da cintura do cidadão? Quem foi o estilista que resolveu acabar com o nosso direito de botar a camisa por dentro da calça? Para um gordo, essa “tendência” é a morte, principalmente, porque ele não pode sequer cogitar a hipótese de levantar um dos braços, que a famosa “pochete” já se esparrama por debaixo da blusa...


É por essas e outras que resolvi usar o Botecospício para exprimir minha revolta com toda essa situação e dizer aos gordinhos de plantão que aposto todas as minhas fichas no fato de ser esta mais uma estratégia dos magrelos para acabar com nossa alegria de viver, com a cara de felicidade que só nós expressamos, com aquele brilho no olhar que reluz diante de uma picanha, um cupim, uma feijoada ou uma lasanha.

Deixo um aviso aos magros: Atenção seus “sopas de osso” (vocês também têm apelidos)! Não só somos mais felizes, como mais fortes e inteligentes, pois enquanto vocês queimam gorduras nas academias, nós gastamos neurônios tentando entender justamente que sentido há em ficar levantando, abaixando, puxando e empurrando peso, ou muito menos em sair correndo pelas ruas feito louco... Não. Definitivamente, eu não sou ladrão!

Mas, tudo bem. Se é guerra que vocês querem, podem declarar a peleja! Estamos aqui, garfos e facas a postos, para trucidar qualquer pouca carne que parar em nossa frente. Vocês não perdem por esperar...

segunda-feira, junho 05, 2006

Eu não mordo travesseiro!

Os mordedores de travesseiro que me perdoem, mas não sou homossexual. E não digo isso em tom pejorativo ou, muito menos, preconceituoso. Respeito os homens que têm desejos sexuais por outros homens e até admiro os assumidos, aqueles que, no quesito “coragem pra encarar a nossa sociedade hipócrita”, são infinitamente mais machos do que eu ou qualquer outro hetero que se preze. Talvez até disponham de um culhão a mais no saco, quem sabe? Não serei o cientista a fazer essa constatação.

Mas, apesar de não possuir trejeitos femininos – pelo menos, acredito que não – e de jamais ter me deparado com o desejo de sentir um barbudo fungando ao meu cangote e arranhando-me o pescoço com a barba mal feita, fui rotulado como sendo “do babado”, por um jornalista sergipano, amigo de uma outra colega de profissão. Detalhe: ele é homossexual e baseia o seu argumento no fato de eu andar com amigos homossexuais. Assim como ele.

Pensamento retrógrado o desse pobre rapaz... Numa época em que as mulheres já comprovaram sua força e conquistaram independência, inclusive, para manter relacionamentos amigáveis com os homens – sem aquela história de que uma relação fraternal entre sexos opostos é inviável, à exceção dos casos em que elas são feiosas, definitivamente incomestíveis –; numa época em que o movimento gay ganha a orla de Atalaia, arrastado por trios elétricos e com bandeiras em riste para exigir respeito e igualdade, eis que me surge um homossexual pra, num ato preconceituoso, descolorir o arco-íris da diversidade e da liberdade de opções.

Decerto, esse jovem jornalista jamais me enxergaria como amigo. Uma aproximação minha e poderia eu estar correndo sério risco de sofrer um assédio sexual... Mas ainda bem que nem todos os homossexuais pensam desse jeito. Se assim pensassem, estariam ainda mais enfronhados às malhas do preconceito.

Tenho amigos homossexuais sim, e os amo da mesma forma que amo os heterossexuais! E daí? São meus amigos e ponto final! Pessoas sensíveis, inteligentes, sensatas, acolhedoras e companheiras nas horas mais difíceis – aquelas em que muito “amigo” hetero de cachaça some do mapa!

Quer saber? Não creio que os verdadeiros valores humanos perpassem a opção sexual, e não abro mão de uma grande amizade com um homossexual inteligente por relacionamentos sociais interesseiros e vazios, pra não dizer burros. Mais vale um amigo homo inteligente no coração, do que 1.000 heteros idiotas e preconceituosos voando.

É uma pena que eu e o referido jornalista, que por razões éticas não vou revelar o nome, não possamos construir uma bela amizade. Ele não acredita na amizade homo-hetero. Quer dizer, hetero-homo, pela ordem das pessoas. Mas, também, não será pela atitude dele e de um bando de outros trogloditas que vêem com maus olhos a companhia de um homossexual – numa mesa de bar, numa casa de shows, numa barraca de praia, no shopping ou em qualquer outro lugar em que os amigos verdadeiros costumem se encontrar – que eu irei deixar de cultivar novos amigos, nem muito menos sairei por aí com um questionário em baixo do braço: “quer ser meu amigo? Então responde aqui, por favor. Você já deu o Zé de porco? O toba? O bufante? Se quiser minha amizade, marca com um “x” na opção “não” e assina por extenso!”. Sinceramente, isso seria ridículo. Tanto quanto o preconceito do meu colega de profissão.