Eis aqui a grande invenção da internet! A inimaginável fusão do boteco, ponto de discussões filosóficas e nascedouro das soluções para todos os problemas políticos, econômicos e sociais do mundo, com o hospício, furna da mais pura sinceridade, livre das convenções, amarras e obrigações sociais. Coerências ou devaneios, tudo vale. Tudo é possível. Portanto, seja bem-vindo! Entre, sente, tire a camisa de força e tome mais um gole, sem pressa para pedir a saideira.

terça-feira, dezembro 30, 2008

Lavem as manchas do mundo

Lembra quando postei uma reportagem sobre os artesãos de Santana do São Francisco?

Lembra que eu disse que fomos para a antiga Carrapicho eu, o jornalista Anderson Ribeiro e o cinegrafista e editor de imagens Genisson Silva, munidos de uma câmera condenada e um microfone comum?

Lembra que eu disse que, ainda assim, trouxemos na bagagem um especial de 30 minutos e duas reportagens? Pois bem. Eis a segunda reportagem:

video

Tá bom, tá bom. Eu admito que o microfone apareceu umas duas ou três vezes. Mas não foi você que ficou durante um bom tempo em cima de uma pedra, num sol de rachar, de braço teso e esticado, segurando o fio de um microfone comum. OU VOCÊ PENSOU QUE TUDO ISSO FOI FEITO COM MEGAESTRUTURA DE NOVELA?

segunda-feira, dezembro 29, 2008

O Piano




Notas e tons, jobinando as canções pra você
Solta um bemol, gargalhadas em lá
Esse piano, instrumentando a nossa ilusão
Teclas e sonho, arremedos nos dedos das mãos
A mão entende o que o meu coração quer dizer
E quando se estende, procura você
E esse piano, extensão dos meus braços, remir
Alcança o sol para lhe oferecer
O primeiro dó
O primeiro amor
Paixão sustenida, razão diminuta
E a clave arrebenta em mi
São tantas oitavas
Mas todo piano
Termina em si.


Música em parceria com Anderson Ribeiro e Gilton Lobo.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Adoção em pauta

Os cinco posts a seguir são uma reportagem especial que publiquei no Jornal Cinform desta semana. Espero que alguém consiga ler até o final.

Mito e preconceito: cárcere da adoção

Amor de Aderval deu sentido à vida da pequena Camila

“Com tanta criança saudável, o senhor vai levar logo essa doentinha?”. Cara a cara com o absurdo, o bioquímico Aderval Nunes pasma por um instante. Engole seco, recompõe-se, segue em frente. Decidido, não seria o preconceito, impregnado nas próprias instituições de proteção a crianças e adolescentes e que, naquele momento, alastrava-se na voz e no inconsciente da funcionária de um dos abrigos de Itabaiana, que o demoveria do sonho de ter a pequena Camila, 6 anos, como sua filha. Com uma deficiência mental moderada, ela encontrou em Aderval e na sua esposa, a contabilista Maria Luíza Santana, uma família e um estímulo para voltar a andar e falar. Hoje, um ano e oito meses após a adoção, médicos estimam 90% de chances de recuperação.
“Procurei pensar no bem-estar da criança e no amor que eu sentiria por ela, e que também é recíproco, sem me preocupar que fosse igual a nós. Camila é negra, mas isso não nos incomoda. Ela uniu a família, é supercarinhosa e, segundo o fisioterapeuta, é a única criança especial que tem vontade própria de melhorar, que chora quando acabam os exercícios. Ela se adapta a qualquer ambiente, e o que fez com que ganhasse essa liberdade foi o tratamento igual que recebe dentro de casa”, testemunha Aderval.
Enquanto a Associação dos Magistrados do Brasil – AMB – contabiliza cerca de 80 mil crianças e adolescentes em situação de risco nos 6 mil abrigos de todo o país – e em Sergipe o número de abrigados é de 428, de acordo com Núcleo de Apoio à Infância e Adolescência do Ministério Público Estadual –, casos de amor como o de Aderval e Maria Luíza pela pequena Camila continuam raros e resvalam na muralha dos mitos e medos que envolve a adoção.
Os números do Cadastro Nacional de Adoção, criado em abril pelo Conselho Nacional de Justiça, ilustram muito bem a situação. Até agora, estão cadastrados 10,6 mil pais para 1.500 crianças no Brasil. Pelos dados do Grupo de Apoio à Adoção de Sergipe – Gaase –, o menor Estado da Federação possui apenas 17 crianças disponíveis e há aprovados pelo juizado 115 casais ou pessoas à espera de um filho adotivo. Em suma, o número de brasileiros interessados em adotar é praticamente nove vezes maior que o de crianças à espera da adoção, mas esses pequenos ainda permanecem abrigados, sobretudo, por conta do estigma do “defeito de fabricação”.

SOB MEDIDA DO PRECONCEITO
A maioria dos propensos pais adotivos exige crianças brancas, de cabelos lisos e olhos claros, com idade abaixo de um ano e sem qualquer problema de saúde. Em um Brasil erigido na opressão de negros, índios e mestiços, não é difícil imaginar que os abrigos, albergues de filhos de pobres e também dependentes de um sistema precário de saúde pública, não disponham de tantas crianças com esse perfil “bonito e saudável”, feitas sob encomenda para dar conta do preconceito.
Em outros tantos casos, casais inférteis temem adotar meninos ou meninas que tragam consigo “descompassos psicológicos” oriundos dos seus pais biológicos. E os que adotam geralmente debitam na conta da adoção muitas das oscilações emocionais, normais e inerentes a qualquer criança. “Isso não existe, e eu sempre faço um teste: diga-me o nome completo do seu tetravô paterno? Não sabe? Ninguém sabe. Eu também não sei o do meu. Agora se a gente não sabe nem o nome da nossa ascendência, como quer exigir de uma criança saber os antecedentes dela, se tem problema, se não tem?”, questiona o filósofo, psicólogo, teólogo e avô adotivo pernambucano Luiz Schettini Filho, um dos maiores estudiosos da adoção no Brasil.
“Quando se fala em cultura da adoção, está se referindo ao fato de adotar um filho pelo filho. E eu creio que, aos poucos, temos incutido essa cultura, tanto que há pessoas adotando crianças com necessidades especiais. Eu entendo que não é todo mundo que tem essa disponibilidade, mas a gente já vê isso, já vê adoções inter-raciais, de crianças de mais idade, e a cada vez que isso acontece e chega ao conhecimento das pessoas, elas vão se despregando um pouco desse preconceito. E o mérito disso é exatamente a ação de pessoas e instituições como os grupos de apoio à adoção, que hoje já são cerca de 120 no país. Eles têm dado uma contribuição enorme”, diz Schettini.

ÉTICA E GENÉTICA
Segundo o pesquisador pernambucano, o rótulo da “criança perfeita” extrapola o universo da adoção e envolve, ainda, questões de comportamento. “O que é a criança perfeita? Para ser bem prático, é aquela que não dá trabalho, que é estudiosa, organizada, não briga com os outros e obedece ao que a gente manda. Mas isso na verdade é a criança submissa, e quem descobre que essa ‘criança perfeita’ não existe passa a olhar para uma coisa que é fundamental na relação parental: a singularidade do outro”.
Luiz Schettini acredita que o grande mito a ser quebrado não está nas filas de adoção, mas na mentalidade de pessoas que não podem ter filhos e, ainda assim, recusam-se a aceitar a idéia de adotar uma criança. É a mítica ligação genética enquanto arrimo familiar. “A família não se constrói através de uma ligação genética, mas através de uma ligação ética. O genético pode existir, mas ele não é imprescindível, nem fundamental. O ético, sim. E o ético está ligado ao afetivo, de modo que todos os filhos têm de ser necessariamente adotivos, mesmo aqueles que a gente gera. Se eu gero um filho e não o adoto afetivamente, na realidade eu não sou o pai. Sou apenas o genitor. Por isso é preciso acabar com essa história antiga de laços de sangue. Isso me soa um tanto vampiresco”.

Espectro do abandono, infância de incertezas

O administrador de empresas Antônio Matos (nome fictício), 29 anos, viveu a infância como um malabarista amador, a manejar desastradamente suas angústias, dúvidas e mágoas. Quem era o seu pai? Onde estava? Por que não o procurava? Perguntas sem resposta exerciam o peso de malabares de chumbo na cabeça do menino do município de Serrinha, na Bahia. Filho de uma dona de casa e de um empresário bem-sucedido, aos 19 anos Antônio até sabia o nome de seu progenitor, mas jamais o havia visto.
“Sempre tive curiosidade de saber quem ele era. Só me faltava coragem de perguntar, porque eu também não queria constranger a minha mãe, fazê-la relembrar um passado que talvez não quisesse. Mas os meus familiares não aceitavam que eu vivesse naquela situação, com a identidade sem o nome do pai, e passaram a me dizer que eu merecia saber. Minhas tias o procuraram e a gente começou a se aproximar”, rememora Antônio.
A reaproximação entre filho e pai biológico aconteceu mediante exigência de teste de DNA. Comprovada a paternidade, passaram a manter contato por telefone ou em visitas esporádicas do empresário a Serrinha. “Logo em seguida eu vim morar em Aracaju e o nosso contato ficou restrito a telefonemas e a alguns momentos de feriado. Quatro anos depois, surgiu a oportunidade de abrir uma nova loja e ele acabou me chamando para trabalhar”, diz o administrador de empresas.
Para Antônio, aquele era o momento em que seria definitivamente adotado como filho, o que não ocorreu. “Nosso relacionamento era uma coisa muito fria. Ele poderia ter tido uma atenção mais forte e, de alguma forma, acredito que eu também assumi uma postura defensiva, pois achava que as coisas haviam acontecido de forma errada. Na verdade, eu sentia um certo rancor por ele não ter me procurado bem antes, e isso dificultou muito. Talvez hoje a relação fosse outra se tivéssemos um contato afetivo desde cedo. Eu não tenho intimidade de falar com ele como pai. Não consigo ter esse tipo de afinidade”.

UM PAI, UM NORTE
Apesar das tentativas de agrado, o pai biológico de Antônio jamais conseguiu dividir igualmente o carinho e a atenção entre ele, sua esposa e os seus dois outros filhos mais novos. Pior: a relação passou a ser mensurada em cifras. “Tentou-se entrar no âmbito comercial, e não paterno, e aí houve muito erro da parte dele e da minha também. Depois disso, eu fiquei muito magoado com coisas que aconteceram. Essa mágoa ainda é forte, mas eu tento, da melhor forma, conduzir isso. Ele diz que me considera como filho mesmo, mas eu ainda sinto que não é bem assim. Eu voltei para Aracaju há quatro anos, saí de lá sem querer contato, pensei até em esquecer que tinha um pai. Mas depois, com uma certa insistência dele, voltei a ceder um pouco e hoje acho que vale a pena tentar fazer uma amizade. Eu não o tenho como pai, mas acredito que isso possa ser contornado daqui pra frente”.
Criado pela avó e pela mãe, o menino Antônio tornou-se um homem de caráter, de boa conduta, um bom profissional, mas ainda sente o peso da ausência paterna em sua vida. “Acho que é até mais fácil ter um pai que não seja uma boa referência. Você fala assim: ‘Pô, esse cara não é um exemplo, mas é o que eu tenho’. Já eu não tinha nem como dizer se meu pai era bom ou ruim, e conduzir a vida sem nem saber se essa pessoa que existe seria boa ou não deixa você sem norte”.
As perguntas sobre os tempos de criança ainda fazem Antônio respirar fundo antes de cada resposta. “Foi difícil para mim, tanto que em todo homem mais velho com quem eu fazia amizade buscava aquela atenção, aquele conforto que me faltava de um pai verdadeiro. Não tenho como não relacionar essa ausência à escola, ao Dia dos Pais. Tudo bem que meus tios tentavam supri-la, mas, no fundo, eu sabia que a atenção especial deles seria sempre para os seus filhos”. Em Serrinha, sempre que perguntado sobre o paradeiro do seu pai, o menino desconversava, e se as perguntas persistiam, respondia para encerrar o assunto: “Já morreu. Não tenho pai não. Infelizmente não tive”.

“A saudade é o revés de um parto”

Professor remói saudade, mas reluta em adotar um filho

Jéssica nasceu com problemas congênitos. Frágil, lutou contra a infecção hospitalar, pneumonia, meningite, entre outras enfermidades. Começou a andar aos 5 anos e perdeu a vida aos 7, no colo da mãe, vítima de uma crise asmática, a caminho de um hospital. Hoje, uma década após a sua morte, a perda ainda dói latejada no peito da dona de casa Juliana Santos, 36 anos, e do seu marido, o professor Francisco, 54 (tanto o nome da criança quanto os dos pais são fictícios). Todo dia, a mãe prepara o quarto da sua pequena como se a esperasse voltar – cama, impecavelmente arrumada, fotos dispostas nas prateleiras, bonecas caprichosamente vestidas e penteadas. Juliana e Francisco materializam a saudade que é, de fato, “arrumar o quarto do filho que já morreu”.
Casados há 17 anos, eles mantêm o quarto intacto enquanto lutam para ter um novo bebê. Ligados pelos traços consangüíneos, os primos Juliana e Francisco sabem que uma nova criança gerada pode trazer complicações genéticas. Ainda assim, resistem quando o assunto é adoção. “Até hoje sentimos a morte da Jéssica e ficamos receosos de ter mais um filho. Mas a minha mulher está fazendo tratamento, com acompanhamento médico, é nova e nós vamos tentar mais uma vez. A adoção a gente está prorrogando enquanto for possível ela ter um filho natural”, argumenta o professor.
O casal já teve experiências com duas outras crianças deixadas por pessoas do interior do Estado que não tinham condições de criá-las. “Não chegamos a adotar totalmente, mas recolhemos duas meninas e, se tivesse dado certo, a gente ficaria. Mas o problema é que as crianças de uma certa idade já vêm com alguns vícios, já foram educadas de outra maneira e não se adaptam, não querem seguir a educação que a gente proporciona. São crianças que, vamos supor, gostam muito de viver na rua, aí você quer botar na escola, para estudar, cumprir horário, fazer as coisas todas certinhas, mas elas preferem voltar para a vida antiga, para a mãe. Sabem que não estão sendo criadas pelos pais, aí você também não pode reclamar de nada, não pode aconselhar”, diz Francisco.
É com essa convicção que o casal prefere arriscar, novamente, a desilusão da perda de um filho a dar uma nova vida a uma criança carente de família. “Quando é um filho gerado, se porventura ele não quiser seguir um bom caminho, e isso pode até acontecer, você tem que aceitar, pois foi Deus quem mandou. Eu até acredito que uma criança adotada novinha, que não teve contato com outro tipo de educação, adapte-se bem e seja criada como filho mesmo. Ainda assim, a gente prefere adotar só no último caso”, reluta Francisco.

Amor à décima potência

Kael e Carla: irmãos unidos pela adoção

Quem duvida do amor entre pais e filhos adotivos certamente não conhece a secretária executiva Carla Batista Conceição. Aos 15 dias de vida, ela foi adotada por Maria Alice Conceição, uma assistente social que enfrentou o preconceito – muito mais arraigado há 32 anos – e, mãe solteira, criou três crianças e construiu uma família que ainda hoje, 12 anos após a sua morte por infarto, permanece sólida.
“A minha mãe biológica não tinha condições de me criar. Morava no interior da Bahia, era muito jovem, tinha problemas de saúde e não era casada. A minha tia trabalhava no hospital onde eu nasci e chegou em casa dizendo que uma menina ficaria para adoção. Foi aí que minha mãe me adotou”, revela Carla. Depois dela, Maria Alice ainda adotaria Carlos Eduardo, aos 3 meses de vida – hoje com 23 anos –, e o caçula Kael, com apenas um dia de nascido – e agora um adolescente de 13.
“Eu nunca tive problema por ser adotada. Na minha cabeça, é uma coisa que sempre foi muito bem resolvida. Talvez o amor tenha sido tanto que nada me faz falta. Eu não me sinto diferente, menos ou mais do que ninguém, e hoje vejo que o maior presente da minha vida foi esse. Fui amada por quem me gerou, porque ela teve a dignidade ou hombridade de me dar, e fui amada à décima potência por quem me pegou, porque a minha mãe é a pessoa mais maravilhosa do mundo”, diz Carla, de olhos marejados.
Desde as broncas e tapas, até o carinho da família, nada faltou à menina. Em meio a oito netos biológicos que se reuniam para brincar no casarão dos avós, no bairro Suíssa, não havia distinção. “Quando minha mãe me adotou, meu avô disse que era um absurdo, que as pessoas iriam pensar que ela era mãe solteira, mas uma semana depois o meu berço estava do lado da cama dele, porque minha mãe trabalhava à noite, então ninguém encostava mais em mim. O xodó da vida do meu avô, todo mundo sabe, era eu”, garante.
Entre Maria Alice e os seus três filhos, a adoção jamais foi encarada como tabu e, muito menos, comentada nas alcovas. “Eu não tenho uma lembrança de quando soube que era adotada. É como se a minha vida inteira eu soubesse. A minha mãe incutia desde pequenininha: dizia que eu tinha a ‘mãe do coração’ e a ‘mãe da barriga’, em uma linguagem mais infantil. Ela nunca escondeu”, diz Carla Conceição.
A secretária executiva não guarda na memória qualquer momento de diferenciação, de preconceito. “A minha avó, que ainda tinha uma cabeça meio retrógrada, contou para a rua inteira que eu era adotada, para que as pessoas não imaginassem que a filha dela pudesse ser mãe solteira. Mas dentro da minha família eu nunca tive esse problema, e na escola também não lembro de ter sido tratada diferente por ser adotada, até mesmo porque, para mim, eu não era. Não que renegasse o fato de ser, mas eu sou tão minha mãe...”.
Com a morte de Maria Alice, Carla continuou cuidando do pequeno Kael. “Minha mãe morreu quando ele tinha 1 ano, e eu tive que arregaçar as mangas. Hoje ele tem todos os defeitos de um adolescente, tem de ficar de castigo, mas eu acho que poucas pessoas amam um irmão como eu amo o meu. Ele sabe que eu não sou a mãe dele, mas quem manda sou eu”, ri.
Há algum tempo Carla Conceição passou a trabalhar voluntariamente com o Grupo de Apoio à Adoção de Sergipe. Por meio do seu testemunho de vida, tenta conscientizar a população de que os laços sanguíneos não são fundamentais para se constituir uma família feliz. “Mais importante do que o sangue é o amor. Sangue você faz transplante, você perde. O amor não. Eu amo minha mãe, mesmo ela não estando no plano físico. E fui amada, talvez, como muitos filhos e muitas mães que têm o mesmo sangue não possam mensurar. Acho que se o sangue valesse alguma coisa não tinha filho matando mãe, e vice-versa. Amor, respeito, carinho, você constrói no dia-a-dia”.

Destituição do poder familiar: dilema da justiça

Luiz Schettini, sobre abrigos: “a criança vai ficando indefinidamente ali”

O Cadastro Nacional de Adoção é um grande passo da justiça brasileira no sentido de democratizar e desburocratizar os processos de adoção. Faz uma integração das listas de crianças que podem ser adotadas e dos candidatos a pais registrados nas varas da infância e da juventude de todo o país. Possibilita, por exemplo, que um casal do Rio Grande do Sul encontre no Maranhão uma criança com o perfil desejado. Mesmo com tantos avanços, o principal dilema da justiça permanece: a maioria dos pequenos abrigados ainda mantém vínculos jurídicos com familiares de origem, que muitas vezes sequer comparecem às audiências. Como definir, então, o momento exato de destituir um pai ou mãe biológicos do pátrio poder ou poder de família? Como desgarrar essas crianças e dar a elas uma chance de viver fora dos abrigos?
“Muitas dessas crianças não estão disponíveis para adoção porque o juiz não retirou o poder de família desses pais. Em muitos dos casos, a criança fica no abrigo um tempo imenso e depois de seis, oito meses, um ano, aparece algum familiar. E se aparece, o juiz não tira o poder. Mas aí esse parente desaparece de novo, passa mais outro ano sumido, e a criança vai ficando indefinidamente ali”, reclama o psicólogo Luiz Schettini Filho.
“Nos casos em que o poder familiar já foi destituído, o processo é muito mais célere. Mas para aqueles em que o pátrio poder permanece, existem todos os trâmites legais porque nós estamos em um Estado de Direito, em um regime democrático, no qual os pais têm que ser citados, têm direito de defesa, e nós temos prazos a cumprir. Eu sempre digo que isso é uma segurança para os pais responsáveis, pois ninguém pode perder o direito de um filho, a não ser que autorize essa adoção voluntariamente ou que seja destituído do poder familiar por meio de um processo legal”, explica a promotora da 16ª Vara da Infância e da Adolescência, Lilian Carvalho.
Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA –, crianças e adolescentes só podem ser colocados à adoção quando todos os recursos para mantê-los no convívio com a família de origem tiverem sido esgotados. O zelo é necessário, porém emperra a vida de muitos que estão em abrigos, e por isso exige uma reavaliação em determinadas situações.
“Mesmo sofrendo maus-tratos, abusos ou negligência familiar que tenham motivado o abrigamento, muitas crianças costumam atribuir a si mesmas sua situação de abandono. Imaginam que elas foram abandonadas ou maltratadas porque são más, fizeram algo errado, são feias e não servem para nada. Ao serem abrigadas, convivem com pessoas desconhecidas, num estado de hiato – não estão em casa, vivem numa situação temporária de longos anos e sem projetos de vida. Também não há espaço para trabalhar adequadamente sentimentos como a raiva e a dor da perda, que precisam ser externados e trabalhados para que a mágoa dê lugar à esperança. E a esperança em novas vinculações afetivas é fundamental para que a integração ou reintegração familiar seja bem-sucedida”, adverte a psicóloga Marlizete Maldonado Vargas, presidente do Gaase.

PROJETO DE LEI
Para o juiz da Infância e Adolescência José Antônio de Novaes Magalhães, não é possível criar uma regra geral para a destituição do poder familiar. “Cada caso é um caso. Há três meses nos chegou a informação de que um casal de gêmeos recém-nascidos estava morrendo de fome. Nós detectamos que o problema era a pobreza de uma família de nove filhos e pais desempregados, por isso, resolvemos abrigar as crianças e acompanhar. Hoje, assistentes sociais e psicólogos buscam reorganizar essa família, enquanto as crianças já passaram por tratamento médico, ganham peso, estão se recuperando. A nossa intenção é devolver os filhos aos seus pais. Já em outra situação, uma mãe alugou seus dois filhos para trabalharem nos semáforos. Essas crianças foram levadas para um abrigo e nós verificamos que a família é envolvida com drogas, possui um arsenal em casa, vive em confusões. Inclusive, um dos familiares ameaçou a assistente social com uma faca. Aí, sim, foi necessária a destituição do pátrio poder, pois não havia condições de se criar as crianças naquele ambiente”.
Se aprovada pelo Senado e sancionada pelo presidente Lula, a Nova Lei de Adoção, de autoria do deputado federal João Matos – PMDB/SC –, tende a diminuir a espera dos abrigados. De acordo com o projeto, os abrigos poderão executar programas específicos para localização dos genitores ou responsáveis desaparecidos, contando com o apoio do Conselho Tutelar e da Polícia Civil, e terão prazo máximo de 60 dias para encaminhar à justiça e ao Ministério Público um estudo indicando se a criança ou adolescente devem ser reintegrados à família de origem ou colocados em família substituta. Após esse encaminhamento, os abrigos terão mais 120 dias para realizar a reintegração à família de origem ou, na impossibilidade, subsidiar o MP para que promova a ação de decretação da perda do poder familiar. Ao receber o relatório encaminhado pela entidade de abrigo, o Ministério Público terá 30 dias para promover a ação ou requerer a homologação da reintegração familiar realizada. Se ficar constatada a impossibilidade de retorno à família de origem, à família substituta ou o encaminhamento à adoção, o abrigo deverá apresentar, em 90 dias, uma proposta de projeto de vida do abrigado. O acompanhamento desse projeto ficará sob responsabilidade do Conselho Tutelar e de programas específicos do município.

ADOÇÃO À BRASILEIRA
A justiça também trava uma batalha contra a chamada “adoção à brasileira”, a do “jeitinho”, caracterizada quando pessoas sem condições financeiras de cuidar dos seus filhos os entregam para outras criarem. “Essa é a adoção mais comum, porém, é um crime que precisa ser combatido, entre outras coisas, porque não há um estudo psicossocial de quem recebe a criança. Isso coloca a vida do adotado em risco”, explica o juiz Antônio Magalhães.
Há severidade nas punições para quem pratica esse tipo de adoção. Na esfera civil, a pena vai desde a anulação do registro de nascimento até a retirada da criança do convívio do casal responsável pelo ato. Na penal, a prática do crime de parto suposto – registro de parto alheio como próprio – pode representar de dois a seis anos de reclusão. A depender da motivação, esse tempo diminui para um a dois anos, podendo o juiz deixar de aplicar a pena.
Outra briga da justiça é para acabar com o estigma da morosidade que lhe foi imputado quando, na verdade, a preferência por crianças brancas e com idade abaixo de um ano é o que engorda a fila de espera da adoção. “O problema é que as pessoas pensam assim: ‘se há uma criança disponível para a adoção, por que tanta burocracia? Por que é que em uma, duas ou três semanas não se vêem os documentos e se fecha a questão?’. Mas todo mundo esquece que, quando se gera um filho, espera nove meses para tê-lo nas mãos. Agora, na adoção, não quer esperar dois, três, quatro ou cinco meses. O tempo é necessário porque não se vai entregar uma criança a uma pessoa que apresente o mínimo de insegurança em sua idoneidade pessoal, moral, em suas condições psicológicas. A adoção é feita de forma legal, é irreversível e deve ser criteriosa”, argumenta Luiz Schettini Filho.
“Acredito que há ainda muito desconhecimento na sociedade. Para adotar, as pessoas só precisam procurar a 16ª Vara da Infância e Adolescência e fazer o cadastro. E a pobreza não é impedimento. O importante é que se tenha muito amor para dar àquela criança. Obviamente, precisa ser uma família estruturada, mas não necessariamente um casal. Pode ser união estável ou até mesmo uma pessoa solteira. Hoje, inclusive, muitos homens já estão adotando. É claro que uma equipe interdisciplinar, com assistente social, psicólogo, avaliará a situação de quem está requerendo a adoção, se tem idoneidade para requerer. Não será dada uma criança para alguém que vai maltratá-la”, garante a promotora de justiça aposentada Adélia Pessoa, diretora do Instituto Brasileiro de Direito de Família – IBDFAM/SE.

sábado, novembro 22, 2008

SUUUUUUCEEEEEEESSOOOOOOOOO

Que voz, que interpretação, que poesia... é ou não é o grande fenômeno da música brasileira nos últimos dez, vinte anos?

sexta-feira, novembro 21, 2008

Catarina


Eis que o poeta amador endoideceu
Rabiscou no cobertor, ao léu, seu nome
Eis que o profeta não previu, ouviu falar
Desacreditou que tal amor endoidecia

Catarina, bailarina, roda, roda, gira
Faz galhofas do poeta, do profeta,
Baila, rima, pára o tempo da canção

Ensaia um novo passo
E dança no compasso
Sapatilha no palco da ilusão.


Letra: Álvaro Müller e Djenal Gonçalves
Música: Álvaro Müller

sábado, novembro 08, 2008

Por quem os sinos dobram?

Em outubro, recebi no mínimo três mensagens idênticas e sob o mesmo título: “O e-mail do ano”. Imagens fortes, precedidas de citações como a que segue abaixo:

“Se você acha que o seu salário é baixo, que tal ela?”



Ao ver este tal “e-mail do ano” tantas vezes passado e repassado por gente, carne, osso e sentimentos como eu, a humanidade que ainda me pesa arde em repulsa, incinera-se em vergonha.

Hipócritas! A criança que nos estende a mão neste “e-mail do ano” não é a mesma que nos abre a pequenina palma nas esquinas, nos semáforos das nossas vidas? Não é aquela mesma, olhos lânguidos e semblante roto, que balbucia nas janelas do nossos carros?

Claro que é. Mas, para além do “e-mail do ano”, para aquém do monitor da vida real, todos passam despercebidos: a criança, os enfermos prostrados nas filas dos hospitais públicos, os sem-teto que se alastram nas calçadas, todos estes que fingimos desconectados do nosso mundo, mas que são essência da nossa essência. E agora eles finalmente vêm a público, graças ao “e-mail do ano”, para nos mostrar como somos “privilegiados”, para nos acomodar?

Neste exato momento, imagino quantos e quantos acessaram o "e-mail do ano" em seus laptops, em suas coberturas, em suas varandas com vistas para o mar, e, após segundos de dó, agradeceram à vida, assim como agradecem as famílias, mesa posta, por terem o alimento que os outros não têm. Imagino e choro sangue...

Egoistas! A humanidade que me resta ainda me faz remoer a dor, a fome, o frio do meu semelhante. Me faz culpado e inerte. E se pensam, pois, que eu irei agradecer por poder pagar um plano de saúde enquanto muitos de mim não têm sequer como comprar um medicamento, se enganam; se vislumbram minha gratidão por sustentar um quarto alugado, ao passo em que muitos de mim fazem das marquises, abrigos, se enganam, redondamente. Jamais admitirei acostumar-me à miséria alheia, e muito menos farei dela torpor das minhas angústias, paliativo para os meus quereres.

Por isso, peço que, no ano que vem, não mais me repassem o "e-mail do ano". Aliás, nem no ano que vem, nem nos próximos.

“A morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”. John Donne, poeta inglês do século XVI.

sábado, novembro 01, 2008

A Ires dos meus olhos


A Ires dos meus olhos não se escreve com um segundo i. Não é uma íris qualquer. É a minha Ires e por ela aprendi a enxergar o mundo. Todas as íris são coloridas, eu sei. Mas a minha é mais. Isso porque é a minha Ires, e por ela avisto, nos gestos humanos, as mais belas cores. Tem cheiro de aconchego, sabor de saudade. É alívio, chuva em solo rachado, água do São Francisco a entornar canções de lavadeira. Nina minha solidão. É ponto de partida, sombra de cajueiro, cantinho único do mundo meu, e só meu. Mãe, quando crescer posso ser o que eu quiser? Pode sim, filho. Até mesmo um mecânico? Você pode ser o que quiser, meu filho, contanto que seja honesto. Minha Ires é assim, a mais linda das íris. E me guia por onde quer que eu vá. E está comigo sempre, sempre, até mesmo quando não sei aonde ir.

segunda-feira, outubro 27, 2008

A alma do futebol

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Reportagem: Álvaro Müller e Débora Andrade.

Imagens: Admilson Souza

Produção: Andreza Mota e Débora Andrade

Edição de Imagens: Álvaro Müller.

quarta-feira, outubro 22, 2008

Cidade de barro, jornalismo concreto

Sabe aquela altivez de quem faz uma boa comida a partir das sobras? De quem vence o prêmio da Fórmula 1 na munheca, sem estar a bordo de uma McLaren ou uma Ferrari? Pois então, acrescente a esse orgulho sem tamanho uma sensação de liberdade criativa e você já sabe o que é fazer TV pública.

Nada de ‘chefs’ se vangloriando pelo banquete com tempero pronto. Nada de Playmobil formatado para os mesmos movimentos. Nada de raciocínio padrão. Na corrida da TV pública não há amarras, amigo. O piloto ainda vale bem mais do que a máquina.

E por falar em piloto, lá fomos eu, o jornalista Anderson Ribeiro e o editor de imagens Genisson Silva para Santana do São Francisco, a antiga ‘Carrapicho’, capital brasileira do artesanato. Uma cidade que vive do barro e cheia de histórias para contar.

Partimos com a cara, a coragem, com a grana do próprio bolso – as diárias só foram liberadas após a viagem – e com uma tal de ‘PD’, a pior câmera da redação, condenada por nossos cinegrafistas. Coisa de quem acredita na pauta.

Nem entrevistado, nem horário, nem local específico. Nada agendado. Eu e o Ribeiro, atuais editores de texto da televisão, saímos para rememorar os tempos de repórter. De vez em quando é bom esticar as pernas, fazer o sangue circular. Genisson, o popular “Cabeção” ou “Lápis com Borracha”, doido para mostrar o seu talento de cinegrafista – até então, jamais havia saído da ilha de edição, pelo menos, nesta emissora.

“Você está indo sem a minha autorização”, bradou o chefe do Genisson, temeroso. Ele temia, mas nós não. Parecíamos antever o resultado: duas reportagens especiais, a primeira sobre os artesãos de Carrapicho – que está gerando um programa piloto de reportagem de meia-hora – e a segunda, ainda a ser editada, sobre lavadeiras. E o mais legal de tudo é que não tem repórter passado e engomado, nem qualquer voz didática explicando o que acontece em Santana do São Francisco. Para nós, a história contada por aqueles que a fazem vale muito mais. É o tal jornalismo sem maquiagem.

Por hora, compilamos o material sobre o trabalho com o barro para a TV Brasil e que exibo logo aí abaixo. Pena não termos tido condições de usar o boom, aquele microfone que capta o som ambiente sem precisar ninguém cansar o braço ou borrar cenários com os tradicionais microfones ‘picolés’. Éramos eu, Anderson, Genisson e a pior câmera da emissora. Ainda assim, gostei muito do resultado.

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quinta-feira, outubro 09, 2008

Em suma...



"O passado tenebroso de torturas, mutilações e assassinatos cometidos em nome da fé, o apoio a nazistas e ditadores vários e a cumplicidade com a propagação da AIDS em regiões carentes desqualificam o discurso 'pró-vida' das igrejas".

Trecho de Aborto e Estado laico, artigo do historiador e escritor Guilherme Scalzilli na Revista Caros Amigos, edição de outubro/2008.

terça-feira, outubro 07, 2008

Fui citado injustamente!

Sou leitor assíduo da coluna do professor André Ramos no site Notícias de Sergipe. André é um desses caras que, apesar de não serem jornalistas de formação, vivem, pensam e agem jornalisticamente. Exatamente por isso, há cerca de um ano encontra tempo pra escrever sobre assuntos diversos - e voluntariamente -, ainda que às voltas com as obrigações de quem coordena o mestrado em Engenharia de Processos da universidade em que tanto ele quanto eu trabalhamos.

Pois bem. Esta semana tive acesso à 50ª coluna do André Ramos. O texto, espécie de mapeamento genético do jornalismo que corre nas veias deste professor-repórter, retrata a influência do seu pai, um advogado carioca aficcionado pelo Vasco da Gama e que chegou a viajar para a Escócia como representante da imprensa brasileira em um Mundial Sub-20. Tudo sem receber um tostão.

Em meio a uma história tão bacana e a uma habilidade textual capaz de nos reportar às transmissões de futebol "ao vivo" para Sergipe, nas quais o André fazia a voz da torcida no estádio, ainda não entendo porque o meu nome apareceu lá. Decerto, como mero repórter esforçado que sou, não mereço a referência feita pelo professor. Ainda assim, acredito que os leitores do botecospicio, estes sim, merecem ler a coluna deste jornalista de virtude. O que justifica este post.

sexta-feira, setembro 26, 2008

Jornalista singular, jornalismo no plural


Esse cara aí da foto é Leandro Lopes, um jornalista grande e um grande jornalista, não necessariamente nessa ordem. Saiu da faculdade há cerca de dois anos, pouco mais ou pouco menos, e após breve passagem pela imprensa sergipana se mandou pra Belo Horizonte. Hoje é repórter cultural da Rede Minas.

Lembro bem da primeira manchete do Léo. Reportagem recheada, sobre a situação da segurança pública em Sergipe. Lembro também, e como não iria lembrar, do título que trazia “Deus salve os sergipanos” ou algo parecido. Uma dessas mudanças de edição que deixam qualquer repórter puto. O Leandro também ficou puto, é claro. E como ficou!

Ah, sim. Por que eu estou falando desse cara aqui no boteco? Bem, falar de Leandro Lopes é reverenciar o jornalismo em sua essência, e disso eu não me canso. É externar o orgulho de quem assiste, mesmo à distância, a erupção do espírito do repórter na cabeça e na alma de um garoto, onde há pouco fervilhavam as inseguranças de um foca. Sensibilidade, inteligência, sagacidade, curiosidade e inquietude fazem deste moleque um refúgio para o jornalismo inteligente brasileiro.

Puta que pariu, Léo, vai evoluir assim na casa do caraio!!! Nem depois de entrevistar Abujamra, Tom Zé, Zuenir Ventura e companhia você se aquieta, rapaz? E ainda me inventa um tal de Fiz + Sotaques, programa de jornalismo colaborativo exibido pela internet e inovador no país? Peste raçudo! Mais incansável do que você só mesmo o seu Bahia, que insiste em não sair da segundona (graças ao meu bom Deus)!
Bom, pelo menos agora eu sei porque partiu tão cedo. Sergipe era minúsculo para o seu talento e ainda mais para o jornalismo que se propõe a fazer, né?

NÃO ME APAREÇA MAIS AQUI!!!

sábado, setembro 20, 2008

Pétala de poesia

A grande beleza das flores está na simplicidade e generosidade com que permitem cultivar as sementes. Singela forma de retocar as cores do mundo.


quinta-feira, setembro 18, 2008

Yes, nós temos Michael Phelps

A saga dos campeões paraolímpicos em um país em crise de identidade e de imprensa míope



A repetição exagerada da imagem do Michael Phelps em fusão com a bandeira dos Estados Unidos, antes, durante e depois das Olimpíadas de Pequim, na China, denuncia a vassalagem da imprensa brasileira frente aos ditames estadunidenses. Uma subalternidade muito mais a serviço da reverberação do american way of life (estilo de vida americano) do que mera forma de reconhecer o talento do maior atleta olímpico de todos os tempos.
Recursiva na mídia da Guerra Fria, a expressão american way of life massificou a ‘qualidade de vida’ capitalista dos Estados Unidos enquanto alternativa ao socialismo defendido pela extinta União Soviética. Cravejou de tal forma os mandamentos do capital, por meio da deturpação do conceito de liberdade, que ainda hoje a mensagem ecoa entre povos de países em desenvolvimento, a exemplo do Brasil, de forma subliminar, aparentemente inofensiva e paradoxalmente catastrófica em seus efeitos.
Até mesmo em se tratando de coberturas olímpicas – a referência às Olimpíadas mostra como nem tudo é tão inocente quanto parece –, a imprensa brasileira permanece fadada ao papel de eterna lambe-botas. Em Pequim, enquanto âncoras sorridentes anunciavam conquistas das grandes potências do esporte, repórteres consagrados percorriam as ruas da China em busca de flagrantes da ditadura naquele país, como se o Brasil não fosse medalha de ouro em criminalidade, em mortalidade, em desigualdade social. Coincidência? Não, sobretudo, quando se tenta fazer um retrospecto das crônicas bem escritas e interpretadas, exibidas para abordar a esmagadora vitória da China sobre os EUA no quadro de medalhas. Você viu alguma dessas reportagens? Eu não vi.
E a coisa é tão brutal que ganha ares de tortura, de atentado contra a identidade nacional. Assim como o american way na Guerra Fria, a imprensa brasileira faz questão de massificar o “Chegamos aqui. Está bom” durante jogos olímpicos. Antes mesmo de a competição começar, já tem gente de microfone em punho semeando a covardia, justificando a derrota que está por vir, lembrando que os atletas do Brasil não têm a mesma condição de treinamento dos seus oponentes, que aquela colocação é a melhor de todos os tempos, etc., etc., etc. Em meio a essa ladainha toda, vamos perdendo a capacidade de acreditar em nós mesmos; vamos nos acostumando com o desbarato.
É bem verdade que existe aí uma eterna mania da crônica esportiva de querer achar o lado bom em tudo. Mas isso não reduz a culpa pelo auto-rebaixamento. O jornalismo tupiniquim alimenta-se do discurso da derrota ao ponto de empurrar os nossos verdadeiros campeões para debaixo do tapete. Não acredita? Olhe para as paraolimpíadas.

HERÓIS NA PENUMBRA





“Eu não tenho adversário. Os outros vieram aqui para compor fila. Meu adversário é eu e o relógio”. Era assim que o corredor cego Lucas Prado anunciava, em raro momento de exposição na TV aberta, o ouro que, no dia seguinte, ganharia nos 200 metros T11. Assim mesmo, com erro de português e tudo. De quebra, Prado ainda bateria os recordes paraolímpico e mundial na prova, resultados justos para quem se impõe como verdadeiro vencedor e não é domado ao discurso covarde do “Cheguei aqui. Está bom”.
Por que o medalhista Lucas Prado não ganhou tantos minutos nas telinhas do país? Explico. Lucas Prado não é atleta. É paratleta. E como todos os demais paratletas brasileiros, está fora dos padrões estéticos da televisão brasileira. Nessa brincadeira, 47 medalhas que coroam a melhor participação do Brasil nos jogos passaram quase que despercebidas.
Inversão de valores da mídia, com certeza. A história mostra que são os paratletas nossos grandes heróis, ainda que apareçam menos do que a Dona Olga, avó do nadador olímpico César Cielo, responsável pela primeira das três míseras medalhas de ouro que o Brasil “sadio” ganhou na China. Mas vamos aos dados. Desde 1972, quando a equipe de paratletas brasileiros participou pela primeira vez de uma paraolimpíada, em Heidelberg, Alemanha, o Brasil já soma 160 medalhas paraolímpicas. Na equipe olímpica, esse número é de 77, pouco menos da metade. Ao todo são 38 ouros paraolímpicos contra 17 olímpicos; 59 pratas contra 23; 63 bronzes contra 37. Resultados do esforço de homens e mulheres acostumados a vencer obstáculos bem maiores na vida do que o descaso da imprensa nacional.
Além do Lucas Prado, que conquistou três ouros em três provas, outros campeões brasileiros constroem essa história de dificuldades – sobretudo para quem míngua a depender de incentivo fiscal para manter-se atleta – e conquistas. As pedras no caminho são grandes, mas as vitórias são maiores. No atletismo, Ádria Santos já foi considerada a maior velocista cega do mundo. No judô, Antônio Tenório chegou a conquistar o tricampeonato paraolímpico. Na natação, Daniel Dias subiu nove vezes ao pódio em Pequim, quatro delas para receber o ouro, e Clodoaldo Francisco conquistou seis medalhas de ouro, uma de prata e bateu quatro recordes mundiais em 2004, nos jogos de Atenas. E por aí vai.
Ainda que o país lhes vire as costas, os paratletas brasileiros continuam acumulando mais e mais vitórias nas paraolimpíadas. De 22 medalhas em Sydney para 33 em Atenas; de 33 em Atenas para 47 em Pequim. Conquistas que exprimem esforço, competência e talento desses gigantes pela própria natureza. Mesmo desvalorizados e esquecidos em sua própria pátria, eles seguem em frente, provando que o Brasil tem muito Michael Phelps para mostrar. Yes, nós temos Michael Phelps. E pra dar e vender.

terça-feira, setembro 16, 2008

A última canção


Álvaro Müller / Gilton Lobo
O show já terminou
Antes de a cortina se fechar
A última canção, ninguém tocou
Só resta um refletor
Só resta o seu olhar
A vida quase sempre pede bis
O cantor insiste em sonhar
E a platéia aplaude, encantada
A estréia do final dessa canção
O maestro escolhe
A estrofe mais cantada
E o amor, enfim, refrão.

*(Música inscrita no último Prêmio Banese)

terça-feira, setembro 02, 2008

Propaganda proficioanal

Isso não é jogar a última pá de cal na língua portuguesa. É bater laje sobre o Aurélio.

sábado, agosto 30, 2008

Atualizando a sua programação

Você aproveita as madrugadas sem sono para assistir o Fala que Eu te Escuto? Ah, isso é porque ainda não conhece o.....

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terça-feira, agosto 26, 2008

Avaliação criteriosa das Olimpíadas























Por Canelinha de Cotonete
(ao vivo, direto de Beijing, na África)

Minha avaliação olímipica é a seguinte:

1) Com vara ou sem vara, a menina do Brasil não ia ganhar pôa nenhuma, mas, como sou legal, farei um empréstimo a ela para as próximas competições...

2) Lôas aos países africanos, em especial à JAMAICA, que tem como seu maior expoente, o africano Bob Marley, provando que maconha não deixa o cara lerdo, nem é detectada pelo exame anti-dopping.

3) Lôas a Galvão Bueno, que ganhou medalha de ouro em nadismo. Modalidade na qual o cara não fala nada com nada e ainda fica rouco.

4) Lôas a Pelé e Janete pela promoção da Olimpíada do Rio, cujo tema será: "Olimpíada no Rio...eu rio". Pelé promete desbancar os estádios da China e, no lugar do Cubo d'água, teremos no Brasil a 'Caixa d'água', no lugar do 'Ninho do Pássaro', será construída a "Entoca do corujão", homenagenado o velho Coruja, bandido boa praça do Morro da Rocinha.

5) Lôas a Maurren Caldo Maggi e a Isabella Varaiêva, por quebrarem aquele ditado milenar que dizia que mulher, ou dá ou vôa (uma coisa ou outra).

6) Não vou perder meu tempo comentando sobre a seleção brasileira de futebol, porque ela também não se dispôs a perder o tempo dela comigo nem com o povo brasileiro.


terça-feira, julho 29, 2008

Acredite se quiser... (Parte 3)
























E ainda não realiza o exame de próstata a laser???

Acredite se quiser... (Parte 2)


















Dizem que esse cara tentou tirar o time do Bahia do buraco, mas falhou na missão.

Acredite se quiser... (Parte 1)


















Peraí... Deus esfaqueou o cara ou o quê?

terça-feira, julho 15, 2008

Canal de saída. Entrada NEVER!

Exame de toque: a um passo de se tornar pré-histórico

A capacidade criativa do brasileiro se agiganta na adversidade e taí a efervescência cultural dos anos de chumbo que não me deixa mentir. É só se sentir ameaçado, acuado, que o brasileiro dá logo jeitinho de bolar uma escapatória, e por mais dificultoso que seja o nó, desata e ainda segue fazendo graça da desgraça que lhe acometeu. Mas o curioso é que, nessa brincadeira, estamos a um passo de emplacar duas, entre as três maiores invenções da humanidade.

Do sofrimento nasceu no Brasil, por volta de 1500, a grande criação da raça humana em toda a sua existência: o vatapá. Acorrentados nas senzalas e cansados de comer as espinhas e cabeças de peixe, os escravos aqui trazidos deram um jeito de acrescentar farinha de mandioca às sobras insossas dos banquetes da Casa Grande e prepararam um verdadeiro e delicioso argamassa, capaz de dar sustância para a labuta na lavoura.

A segunda maior invenção da humanidade não é nossa, sou obrigado a admitir. Criada ainda na idade da pedra, a roda está em todos os lugares, em todos os veículos, em todas as engrenagens, em todos os relógios, e até poderia ser o exemplo máximo da criatividade humana. Se tivesse o sabor do vatapá, é claro.

Já a terceira maior criação do homem ainda está por vir e será brasileira, com certeza. Cientistas de uma universidade em São José dos Campos, São Paulo, já trabalham na milagrosa tecnologia do exame de próstata a laser. Começam, aos poucos, a devolver o sono de muito macho como eu, que apesar dos 29 anos já não consigo conviver com a possibilidade de, em 15 anos mais, precisar ser deflorado pelo dedão invasivo de um proctologista.

A natureza é engraçada, viu. A próstata, glândula que produz e armazena o líquido seminal e coloca o homem na respeitada posição de potente procriador da sua espécie, é a mesma próstata que o obriga a aderir à posição em que “Napoleão perdeu a guerra” e apontar o seu canal de saída (entrada never!) na direção de outro macho... Quem vai se sujeitar a isso, eu? De jeito nenhum! Dane-se o Napoleão! Prefiro encarnar o Dom Pedro às margens do Rio Sergipe, fazendo valer o poder da minha ‘espada’ e aos brados de “EXAME A LASER OU MORTEEEEEEEEE!”.

Para mim, exame de próstata é o fim e macho que é macho não se sujeita nem a fio-terra de mulher, imagina a um homem tocando à sua região intocável?... AONDE, PAI! Não é a toa que três, em cada dez brasileiros com idade acima dos 45 anos, não fazem os exames preventivos, de acordo com a Sociedade Brasileira de Urologia.

No final do ano passado, o deputado Clodovil Hernandes (PR-SP), muito provavelmente após sair satisfeito do consultório do seu proctologista, teve a brilhante idéia de apresentar um projeto de lei que torna o exame de próstata obrigatório para os trabalhadores a partir dos 40 anos. Era só o que me faltava, neguinho com o emprego na guilhotina e sendo empurrado para a fila da dedada por exigência da Justiça do Trabalho, como se os impostos e o salário mínimo já não fossem um toque retal e diário no trabalhador brasileiro. Já pensou?

Bom, mas o que importa é que, entre mortos e doloridos, a inventividade do nosso povo pode deixar este pesadelo com os seus dias contados. Dois anos, mais precisamente, caso os experimentos dos cientistas de São José dos Campos dêem o resultado esperado. Se não derem, paciência. Daqui a 15 anos estarei eu, com muito orgulho, engordando os índices dos machos brasileiros que não se submetem ao exame do toque.

E pode me chamar de ignorante quem quiser. Eu sei que o exame de toque previne o câncer de próstata, segundo tipo mais comum entre os homens, e que cerca de 400 mil brasileiros devem ser atingidos pela doença somente este ano. Ainda assim, prefiro morrer ignorante e intacto. Como se diz lá no Silva Jardim, em Alagoinhas, aqui é canal de saída, pade. Entrada jamais!
xxxxxxxxxx
Sugestão de pauta: Guto Rego. Quem tem rego, tem medo né?

segunda-feira, julho 07, 2008

Causos de Alagoinhas


Zé Canudinho e seu radinho de pilha

* Roberto Müller

Zé Canudinho ouve do compadre as recomendações. Com as severas regras da Confederação Brasileira de Futebol, ficou proibida a venda de qualquer bebida que contenha álcool nos estádios.

– E agora compadre? Que é que a gente faz? Assistir a um joguinho de futebol sem tomar uma não dá! Se levar escondido e a polícia pegar, nós tamo em cana. Temos que dar um jeito.
– Você fica do lado de fora eu jogo um cordão, amarra e durante o jogo eu vou tomando as minhas.
– Não dá certo, você bebe, assiste ao jogo e eu fico do lado de fora. Já sei! Você tem rádio portátil?
– Tenho.
– Vamos encher os radinhos de cana e tomar todas, ninguém vai descobrir. A gente tira o miolo do rádio, reveste com material daquelas caixinhas de leite do supermercado, do buraco donde sai a antena a gente chupa e a policia não vai ver.

E foi o que fizeram. Beberam todas. Depois do jogo um curioso pergunta:
– Vocês agora deram para chupar até rádio?

E Zé Canudinho responde:
– O jogo tava tão bom que além de chupar quase eu como o danado do rádio.

terça-feira, julho 01, 2008

Presidente-bebum-traumatizado (enfim, uma explicação para a Lei Seca)

Como um presidente aguarino pode assinar a Lei Seca em uma nação de tantos companheiros pinguços?

Foram muitas horas de sono perdido, de pestanas gastas. Vasculhei a filosofia, a sociologia, a psicologia e a história. Escarafunchei Freud, devastei Karl Marx, revisitei Sócrates, Aristóteles, Platão e Foucault. Tamanho desespero, cheguei até a ligar para o Fala que Eu te Escuto. Enfim, encontrei a resposta para a minha dúvida cruel. E a resposta, meus caros, vem do próprio presidente Luis Inácio, alicerçada, quem diria, em um simples ditado popular. Eis o primeiro livro do presidente Lula para justificar, a Zeca Pagodinho e toda uma nação cachaceira, a assinatura tal da Lei Seca.

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Nada a ver com cachaça, senhor presidente. Vivo bêbado e nem por isso sofro desse tipo de ameaça. No mínimo, este é o risco de quem se coliga a qualquer um.


sexta-feira, junho 27, 2008

Ali, naquele bar...

Torcedor que é torcedor já nasce xingando

Foi a última vez em que assisti o jogo do meu Vitória naquele boteco de beira de pista. Nada contra botecos, é claro. Sou dos que preferem uma branquinha em cacete armado e de sandália havaiana, a um uísque em restaurante esmerado, com uma gravata a me achacar a goela. O problema, sim, era com aquele boteco, especificamente. Aquele antro da desorganização, cujas grades enjaulam torcedores de toda raça com animais: flamenguistas filhotes da Rede Globo, vascaínos, palmeirenses, corintianos, rubros, tricolores, rubro-negros, azulinos e alvi-verdes de quase toda ordem, engaiolados e confinados para comer carne de quinta no espeto e acompanhar, em um barulho ensurdecedor e na longa espera pela cerveja, a partida do seu time do coração.

Digo torcedores de quase toda ordem com a propriedade de quem não se afeiçoa ao show dos ‘paraíbas’ que cantam, gritam, xingam, riem e choram pelos times do Sul e Sudeste. Vou ser mais claro: faltam ali, naquele bar, torcedores genuinamente sergipanos, que valorizem sua terra sob qualquer aspecto, inclusive o futebol. Um impedimento escandaloso contra a sergipanidade, flagrado pelo ‘tira-teima’ do muro daquele bar. Pintado de tudo quanto é escudo do restante do país – inclusive o do meu Vitória, com muito orgulho –, o muro não apresenta os brasões do Sergipe e do Confiança. Ali, naquele bar, os dois maiores clubes do Estado, justamente eles, ganham insígnias em tamanho reduzido e tímida paragem, em rodapé de balcão.

E se o imbróglio de tanta gente espremida, tantas TVs, tantos jogos e gritos em um só lugar já estava mais do que insuportável, o último jogo do Vitória acabou como uma sessão de horror e censura. Para mim, a última sessão. Isso por que o proprietário do estabelecimento, tal qual Bento XVI, resolveu transformar o xingamento dos torcedores no mais novo pecado capital. Pois é. Ali, naquele bar, torcedor não pode xingar. Tudo, segundo o dono do boteco, pela manutenção do moral e dos bons costumes. Pela preservação das famílias.

Logo ele, o mesmo microempresário que na última Copa do Mundo montou uma estrutura pífia e, em crasso exemplo de desrespeito à vida humana, derrubou um telhado inteiro na cabeça de tantas famílias, agora usa até microfone para exigir respeito, para castrar a manifestação mais genuína do torcedor brasileiro?

Pobre microempresário de visão micro. Teve a infelicidade de pegar o microfone e, diante de um singelo “EU, EU, EU, CAIU NA TOCA SE FUDEU”, bradar aos torcedores do Vitória que fossem “esculhambar com sua mulher e sua mãe lá na Bahia”. Pobre microempresário de visão micro. Fez com que torcedores de quase toda ordem parassem pra assistir, atônitos, à confusão que se instaurou justamente ali, naquele bar.

Clientes antigos se envergonhavam e comentavam entre si. “O pior é que ele está errado!”. “Toda mulher que vem aqui sabe o que vai ouvir. Isso é futebol”, disse um deles, acompanhado de três filhos adolescentes. Um outro aproveitou para reclamar. “No jogo do Flamengo ele mandou eu, meu pai e meu sogro sentar porque a gente tava dançando o créu”. Eu sei é que entre garçons pedindo calma e torcedores armando garrafas pra meter na fuça do coitado do microempresário de visão micro – afinal ninguém quer pagar dez reais de consumação pra ter sua mulher e mãe ofendidas –, foi-se embora a tarde que prometia ser de diversão e futebol.

Pobre microempresário de visão micro. Como pedir respeito a uma casa que nem ele mesmo respeita ao superlotar e colocar seus clientes em total desconforto por conta de um punhado a mais de consumações? Como querer vender bebida alcoólica e depois, no fervor das comemorações, tacar uma mordaça no pobre torcedor? PUTA QUE PARIU! Ali, naquele bar, eu não volto mais! E até sugiro que, em lugar de um boteco temático sobre futebol, este microempresário de visão micro abra uma igreja. Assim os garçons dão lugar aos pastores, ninguém solta palavrão e, de repente, a renda acaba até mais gorda ao final do mês. Deixo a sugestão.

quinta-feira, junho 26, 2008

VADE RETRO!!!

Presidente do Fla presenteia Papa com o 'Manto Sagrado'

No Vaticano, Marcio Braga explicou a Bento XVI o que significa o Flamengo, sua tradição e a importância do clube brasileiro no cenário internacional

Após duas horas sob um calor de 40 graus na Praça de São Pedro, o presidente Marcio Braga entregou ao Papa Bento XVI a camisa do Flamengo. O Papa demonstrou surpresa e entusiasmo ao receber a camisa personalizada. Estavam presentes o ministro da Embaixada Brasileira em Roma, Jorge Ney Fernandes, o advogado Pedro Trengrouse e João Marcio Braga, filho do presidente do clube carioca. Emocionado, o presidente recebeu a benção papal em nome de todos os rubro-negros.

sábado, junho 14, 2008

O profissional-relógio (Ode ao Ribeiro)



Esqueça o coleguismo. Amizade? Nem pensar. Adoeceu, perdeu um parente, precisa viajar, visitar o gerente da sua agência bancária antes que o seu nome vá parar no SPC? Problema seu. Não conte com o profissional-relógio, a não ser que a ‘caridade’ dele possa ser revertida no bendito banco de horas. Em suma, ele ajuda a si mesmo botando a banca de quem salvou a vida do colega. Mas, como diria meu amigo Anderson Ribeiro, um desses bestas que não admitem a possibilidade de colocar o tico e teco funcionando ao ritmo compassado do tic e tac, “banco de horas é coisa pra quem não tem o que fazer”. E num é que ele está certo?

O profissional-relógio não enxerga nada além do seu horário de entrada e saída no trabalho. Para aquém ou além do que registra no ponto, não faz nada que não lhe dê retorno. Foi contratado para trabalhar 8 horas e a empresa que se dane ou pague por cinco minutos que sejam a mais.

Já profissionais bestas como eu e Anderson Ribeiro são raros. E é por isso que trabalhar com ele é um alento. Somos bons jornalistas? Sei não. Mas é certo que somos esforçados, trabalhamos pela pauta, pelo amor à profissão e, sobretudo, pelo prazer de degustar uma cerveja gelada após horas e horas de labuta. Ah! E só brigamos quando o trabalho nos rende elogios. “O Mérito é dele” quase que uníssono e dedos indicadores em riste.

Gente como a gente quer é produzir e fazer bem feito, sem necessariamente aguardar uma contrapartida dos nossos empregadores. É uma questão de competência, de valorização do próprio suor, de compromisso com aquilo que se propõe a fazer. Trabalhadores como eu e o Ribeiro viram madrugadas no batente, não têm tempo de fazer refeições dignas – e justamente por isso estamos tão redondinhos –, colocamos nossa saúde em risco, mas acreditamos no que fazemos. Os profissionais-relógio não sabem disso, mas trabalhar é também uma diversão pra quem ama o que faz e se reconhece como parte da engrenagem de uma empresa, tanto no semear quanto no colhimento dos frutos.

Ah! E antes que eu esqueça de comentar, à exceção dos casos em que a contraproducência compromete o nosso trabalho, eu e Anderson Ribeiro também não nos incomodamos com o que fazem ou deixam de fazer os outros colegas. Coisa que os profissionais-relógio têm como atribuição cotidiana, talvez, por conta do tempo de sobra para pensar na vida alheia. Eles não estão com a gente nas madrugadas, não abrem mão da praiazinha do final de semana, não fazem um servicinho sequer fora da empresa com combustível próprio, mas se sentem no direito de nos ‘cobrar’ 10, 15 minutos de atraso. Vá entender...

Percebo que as próprias empresas têm parcela de culpa por cultuarem nesses espiritozinhos formatados a prática de bater o ponto rigorosamente em dia e não precisar justificar horas e horas ociosas de msn, orkut, lixamento de unha e coisas do tipo. As empresas realmente nivelam a produção por baixo e acabam se transformando em empregadoras-relógio para quem vive sob a égide do horário fixo de trabalho. Agora, isso não dá aos frustrados profissionais-relógio o direito de tentar nos demarcar a vida. Porque diabos nunca comparam a nossa produção, ora bolas?

No final das contas, profissionais como eu e Anderson Ribeiro até tentam aturar esses vigilantes de quinta, sobretudo, por que deve ser um calvário trabalhar, criar por obrigação. Mas também têm horas que esses profissionais-relógio nos enchem a paciência, né? Daí, só nos resta responder no melhor estilo Débora Garrafinha, querida colega da Aperipê: “Caralho, velho! -----, vão se fuder, velho! Muito foda isso!”.

sexta-feira, junho 13, 2008

O crime do século em Aracaju

Djenal Gonçalves



Obs.: Para preservar a identidade das pessoas descritas abaixo, os nomes serão trocados. Qualquer semelhança com a realidade é mera realidade mesmo.

Ato 1 – Visão de Caninha

Caninha é um velho amigo meu de Alagoinhas, Bahia. Nem preciso explicar a razão do seu apelido carinhoso. Enquanto tiver uma loira na geladeira, ou fora dela, o cara não arreda o pé nem ca peste. Ainda bem! Apesar de toda manguaça, Caninha é um romântico inveterado, daqueles que não deixa passar um ‘Dia dos namorados’ sem presentear o amor da sua vida com presentes, segundo ele, super-criativos, que brotam da imaginação de seu coração apaixonado. Neste ano ele botou pra lascar, caprichou na produção. Foi no centro da cidade e comprou a mais linda almofada de veludo e mandou bordar uma foto sua ao lado de sua amada, como prova das eternas juras de amor que lhe dedica diariamente.
Antes do jantar, passou no trabalho e deixou o belo presente devidamente acomodado no banco da frente de seu carro, não sem antes de se despedir do mesmo, com tratamentos dignos da mais linda jóia. “- Tchau, presentinho, aguarde um pouquinho que já já estarás devidamente acolhido nos braços da minha musa!”
Eis que estava Caninha na sua sala, trabalhando arduamente, quando alguém chegou ofegante lhe dizendo que alguém havia sido visto correndo após pegar algo de seu carro no estacionamento. Afoito, como se lhe faltassem pernas naquele cruel momento, Caninha saiu em disparada rumo ao seu automóvel e, para seu desespero, pôde constatar que o seu mimo havia sido seqüestrado por algum larápio cabasafado. Dizem que seu grito de desespero ecoou por boa parte do bairro. Como explicar à sua deusa, ela que já sabia do presente, o que havia acontecido? Fudeu, fudeu, fudeu... lamentava o indignado Caninha pelos cantos e escadas do seu local de trabalho. “- Amanhã cedinho compro outra almofadinha aveludadinha e faço tudo de novo! Prometo a mim mesmo!”

Ato 2 – Visão do larápio cabasafado

Lara, o larápio, estava desesperado pra passar a perna em alguém. Como ia chegar na casa de sua namorada de mãos vazias? O dinheiro que tinha no bolso mal lhe dava pra passagem do buzu. Eis que a sorte grande, tal qual fênix, lhe bateu à porta. Quando passou por um carro, viu a janela aberta e ali, no banco da frente, devidamente acomodado com os cuidados que se dá aos presentes mais valiosos, uma embalagem bastante recheada, pomposa, cujo bilhetinho pregado trazia escrito: “Ao meu grande amor, minha futura mulher e mãe dos meus filhos, o presente mais lindo que alguém jamais deu”! Surpreendido, o larápio meteu suas ágeis mãos no carro e partiu em disparada rumo ao ponto de ônibus mais próximo, sem jamais violar a preciosidade ali contida. Do jeito que estava daria pra sua namorada.
Já chegou na casa da patroa todo cheio de moral, chutando a porta, e dizendo em alto e bom som: “- Toma que é teu pôôôôôrraaaaaaaa! Nunca mais dirija a palavra a minha pessoa reclamando que eu não te dou presentes à altura!”. Quase desfalecendo de alegria, a namorada foi rasgando loucamente o papel e vendo aquela almofadinha aveludada em tom lilás com a foto do casal desconhecido, deixou transparecer a mudança de expressão da sua face. O larápio, assustado com aquela visão do inferno, pensou, agora arrombou tudo, que caralho de presente é esse? Ela perguntou: “ – Que cabrunco de casal é esse na foto?” , então Lara, o larápio, com a lábia que lhe é peculiar, mandou essa: “Ôxe, alienada, se você não conhece é problema seu, mais sei tudo sobre eles e já vi uns 7 filmes do casal” . Ela, envergonhada, disse “- É mesmo, agora estou reconhecendo... que lindo, amor, que coisa meiga!” E tiveram uma longa noite de amor regada a Vinho do Frei e kitute enlatado, frito na panela. Ao ponto.


Ato 3 – Visão da namorada de Caninha

Toca o telefone. Uma voz trêmula fala. “-Amor, aconteceu uma tragédia, roubaram seu presente!”. Ela: “- Não acredito! Logo ele?. Mas tudo bem meu bem, sua pochete com a nossa foto tá aqui guardada à sete chaves. No ano que vem você me dá outra tá. Beeeeijoos, te amo!” E tiveram uma longa noite de amor regada a milone e queijo coalho.

* Texto extraído do livro “As aventuras de Billy the kid, o sexual killer de Alagoinhas e outras histórias cabulosas de seus cruéis comparsas”.

segunda-feira, junho 09, 2008

MEUS problemas acabaram!!!

Os meus, os de Cleomar, Gilson Souza, Anderson Ribeiro, Paulo Lobo, Djenal Gonçalves....


sexta-feira, junho 06, 2008

Fé cega, faca amolada

Na última segunda-feira, 02, o deputado estadual Francisco Gualberto (PT) perdeu as estribeiras em discussão com o presidente do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais, Nivaldo Fernandes, e não contou dois tempos: puxou uma peixeira e ameaçou atravessar o bucho do sindicalista.

Até aí nada demais. Como bem disse a assessoria de imprensa do parlamentar, Gualberto “se exaltou um pouco, mas nada fora do comum”. Tá certo....

Agora, com o grau elevado de estrabismo do Chiquinho, eu quero ver é quem vai conter o pânico na Assembléia Legislativa....


Precavido que sou, ficarei sempre de frente para o Gualberto. Bem na direção do nariz. Duvido que ele me veja.

quinta-feira, junho 05, 2008

Fórmula do amor

Alguns passam a vida a se perguntar se existe amor. Outros, convictos de sua existência, remoem-se na tentativa de encontrar uma palavra, uma frase, uma imagem que possa mensurar, conceituar o sentimento.

Pois bem, o botecospício acaba com o dilema de todos. Eis a tão esperada resposta:
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Só não me venha, cambada de hipócritas, dizer que o amor é lindo.

sexta-feira, maio 02, 2008

A Sociedade do Espetáculo

Fotomontagem: glauberjatobá


Simone Tuzzo*

A sociedade sempre se preocupou com aquilo que acontece na casa do vizinho. Em determinados tempos, ao longo da história e variando entre classe social, credo e cultura, as pessoas conseguem se manter ora mais ou ora menos discretas na forma como expressam sua curiosidade acerca daquilo que diz respeito à vida alheia.
Mas foi a partir do surgimento da mídia que a sociedade passou a se interessar de forma grotesca com a privacidade do outro. As pessoas mudaram? Provavelmente não. O que mudou foi o acesso, a ênfase, a facilidade e os interesses econômicos e de audiência dos veículos de comunicação ao explorar assuntos que não representam o interesse social, mas sim a fofoca, a vida real transformada em novela, o espetáculo.
O caso Isabella Nardoni choca, mas não é somente por se tratar de um crime bárbaro. Se de fato o ato de uma menina ser assassinada pelos pais fosse o bastante para impressionar toda uma nação, poderíamos questionar por que até hoje nunca se deu tanta importância aos diversos acontecimentos diários de situações bem similares, envolvendo pais, irmãos, tios, pessoas de laços sangüíneos em crimes, atos de violência, seqüestros, torturas, estupros.
O caso Isabella choca muito mais pelo que a Indústria Midiática conseguiu transformar a história, narrada diariamente em capítulos, com atores, luzes, câmeras, cenário, enfim, ingredientes típicos de produções de teledramaturgia. No melhor estilo “Quem matou Odete Roitman?”, a dúvida que tirou o sono de milhões de brasileiros no final da década de 80, quando a novela da Globo Vale Tudo movimentou o Brasil. A mesma legião de Brasileiros também se diz perturbada e aguardando o último capítulo de uma novela que irá revelar: “Quem matou Isabella Nardoni?”
Numa demonstração clássica do que a mídia consegue incutir na cabeça das pessoas, os brasileiros estão preocupados com o caso Isabella como se ela fizesse parte de cada família, assim como a mídia faz com as celebridades. Rotineiramente, é comum sabermos mais da vida dos artistas do que da vida das pessoas que estão fisicamente bem mais próximas de nós. Da mesma forma, saber de Isabella tornou-se mais importante do que saber do desempenho do filho na escola, do dia atarefado do marido ou da esposa no trabalho, pois quando se chega em casa a prioridade é ligar a televisão para saber a novidade do caso.
A construção biográfica ganha uma dimensão fundamental no mundo contemporâneo e é comum vermos a narrativa de biografias de celebridades como Lady Diana ou Ayrton Senna, que emprestaram para os veículos de comunicação de massa sua história, sua privacidade e o último capítulo trágico da morte.
Numa previsível evolução do caso, as narrativas biográficas veiculadas na mídia ganham um ar de autoria coletiva. Jornalistas, fotógrafos, redatores, revisores, chargistas e cinegrafistas são responsáveis por narrar a vida dos protagonistas dos meios de comunicação de massa, mais que isso, não conformados somente com o poder de contar todo o seu passado, os narradores assumem também o papel de videntes e passam a narrar as futuras ações do protagonista, caso a morte não o tivesse tirado de cena. Isabella Nardoni teria sido médica, advogada, jornalista ou modelo? Vamos especular...
Aliás, a especulação tornou-se um ingrediente necessário para que um caso que não tem ações diárias pudesse se manter 24 horas no ar. Numa similaridade ao Truman Show – a narrativa de cinema em que um homem tem sua vida inteira transmitida ao vivo, 24 horas por dia via satélite –, também passamos a vivenciar o Isabella Show brasileiro, num espetáculo ininterrupto, basta ligar a TV.
Ironicamente, uma televisão que de tanto explorar o caso se tornou seu refém e, ainda que quisesse, não pode parar o show, pois os telespectadores cobram dela a apresentação do último capítulo. E será o fim? Claro que não. Outro caso-verdade será adotado e, na mais fiel réplica do formato de teledramaturgia, o primeiro capítulo será apresentado para a sociedade que se apaixonará pelo novo enredo e, em breve, não se lembrará mais da paixão ardente por Isabella Nardoni.

* Simone Tuzzo é Doutora em Comunicação, docente e assessora de Comunicação da Universidade Tiradentes – Unit.

quarta-feira, abril 16, 2008

sexta-feira, março 21, 2008

Injustiça santa


“Naquele tempo, estando à mesa com seus discípulos, Jesus ficou perturbado em seu espírito e declarou abertamente: ‘Em verdade, em verdade vos digo: um de vós me há de trair’!… Os discípulos olhavam uns para os outros, sem saber de quem falava. Um dos discípulos, a quem Jesus amava, estava à mesa reclinado ao peito de Jesus. Simão Pedro acenou-lhe para dizer-lhe: Dize-nos, de quem é que ele fala. Reclinando-se este mesmo discípulo sobre o peito de Jesus, interrogou-o: ‘Senhor, quem é’? Jesus respondeu: ‘É aquele a quem eu der o pão embebido’. Em seguida, molhou o pão e deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes". (Jo 13,21-33.36-38)

Judas não se tornou apóstolo por vontade própria, mas pela vontade de Cristo: "Não fui eu quem vos escolhi a vós doze? No entanto, um de vós é o demônio" (Jo 6, 70).


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Judas Iscariotes carrega consigo o estigma da traição. É o homem mais injustiçado da história, tão somente por ter cumprido o seu papel previsto e anunciado. Sem ele, talvez, não tivesse havido a crucificação e Jesus ainda hoje não embebesse a fé de milhares.
Sem Judas, Jesus talvez não fosse o Cristo.

E ainda hoje achincalham e queimam este pobre homem???

terça-feira, março 18, 2008

Clássico da Música 'Copular' Brasileira

Não só a ilustração como o trocadilho do título foram copiados do kibeloco. Mas, como amante da boa música, confesso que não resisti...

terça-feira, março 11, 2008

Vaticano divulga lista de novos pecados capitais

estadao.com.br - A manipulação genética, o uso de drogas, a desigualdade social e a poluição ambiental estão entre os novos pecados capitais pelos quais os cristãos devem pedir perdão, segundo a nova lista apresentada no domingo, 9, pela Santa Sé.


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E se depender da gula eu já tô no inferno há muuuuuito tempo. Vou esquentar a cabeça por um pecadinho a mais, um a menos???

sábado, março 01, 2008

Descarga na filosofia barata

"Hehehehe! Eu não imagino um cidadão sentado no vaso sanitário com um laptop!"

Cleomar Brandi, jornalista bainano-sergipano
(Respondendo a um aluno sobre o fim do jornal impresso).

terça-feira, fevereiro 26, 2008

“Não canto pra galera. Canto pra gente”

Em pleno Brasil do Créu, Xangai faz do respeito às raízes nordestinas a sua maior cantoria

Foto: MARCO VIEIRA


ÁLVARO MÜLLER

Quem é esse menestrel que entoa em cantorias a alma do nordestino? É o Xangai, o Eugênio Avelino. O artista que, ainda menino, lá pras bandas de Vitória da Conquista, Sertão da Bahia, “brincava tangendo carneiros / fim de tarde na rede sonhava / belo dia seria um vaqueiro”. Xangai. Um cantador, um trovador, um violeiro. Um vaqueiro cabra da peste e teimoso, incansável ao aboiar a música, o folclore, as riquezas culturais do Nordeste pelo ‘Brasil do Créu’ afora com a mesma visceralidade que faz a sua voz e acordes adentrarem os diversos ritmos da região. Do grave ao agudo, forró, rastapé, xote, ligeira, coco, galope, baião. Só não tenha, jamais, este intérprete número um de Elomar com ‘um cantor’. Ele pode achar ofensa.
Em meio ao solo rachado da música comercial, Xangai lançou seu primeiro disco, ‘Acontecivento’, em 1976, pela gravadora CBS. Mas logo galopou para a carreira independente, distante da terra fértil das grandes gravadoras. Nada que o impedisse de aprontar uma ruma de trabalhos – sozinho ou em parceria com tanta gente boa como Elomar, Vital Farias, Geraldo Azevedo, Quinteto da Paraíba, Renato Teixeira. E por aí vai.
Na última quinta-feira, 21, antes de pisar o palco do Tobias Barreto – onde se apresentou com o artista sergipano Tom Ramos –, Xangai falou sobre o seu trabalho e sobre o cenário musical do Brasil. E reafirmou: “Se eu fosse viver por conta da mídia, eu já não faria mais isso”. “Apois, pro cantador e violeiro / só há três coisas nesse mundo vão / amor, forria, viola, nunca dinheiro / viola, forria, amor, dinheiro não”. Forria, numa corruptela de liberdade. Numa afirmação do que são seu canto e a música que ele ostenta.

Álvaro Müller– De onde vêm as suas influências musicais?
Xangai –
Da minha circunstância, da minha realidade, dos mestres que eu tive – Elmoar, Pixinguinha, Lupicínio Rodrigues, Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi. E vêm do sertão brasileiro, de onde sou originário.

Álvaro Müller – O que é viver de música de raiz no Brasil?
Xangai –
Eu vivo de poesia, de cantoria, de música. Acredito que não tenha aceitado o aceno dos 30 dinheiros, mesmo com a indecorosidade dos meios de comunicação que se esforçam em não reconhecer a beleza da musicalidade, da poesia do Brasil. Nóis é jeca, mas é jóia.

Álvaro Müller – A música e o artista do Nordeste têm o devido respeito do público brasileiro?
Xangai –
Têm sim. Eu tenho o melhor público do Brasil. Costumeiramente não encho estádios de futebol, mas em todos os teatros em que me apresento não posso me queixar da presença do melhor público, qualitativamente. São pessoas que não aceitam essa mesmice, essa pasteurização da programação das rádios e da televisão brasileiras.

Álvaro Müller – E como você avalia a música comercial do país? Que produto o brasileiro está consumindo?
Xangai –
O que os meios de comunicação impõem.

Álvaro Müller – Como é o seu processo de criação?
Xangai –
Eu não tenho processo de criação. Quando eu tenho merecimento, busco e vem. Tem um verso de Elomar, maior compositor deste planeta, que diz assim: “Todo bem é de Deus que vem / Quem tem bem, louva a Deus seu bem. Quem não tem, pede a Deus que vem”. Quando eu vou fazer uma música, ela chega com o consentimento do Criador, de quem me deu a possibilidade, o que se chama de talento, o dom. E sempre que eu posso cantar alguma coisa que sirva para reconhecer essa dádiva e para a minha evolução e a do meu semelhante, isso é o que me interessa. Muitas vezes uma música chega pra gente pronta. Outras, a gente peleja e não faz. Não tem uma receita. Se tivesse, eu batia ponto pra fazer uma porção de música todo dia (risos).

Álvaro Müller – Quem tem renovado a música nordestina de qualidade?
Xangai –
A música brasileira em geral melhora cada dia que passa. Digo isso porque tenho tido a oportunidade de viajar pelo Brasil de quatro costados e sempre me aparece, no camarim, no hotel ou onde eu esteja um bom artista, um bom músico, uma boa cantora ou cantor, enfim, um bom talento. E aí se passam os anos e eu não vejo essas pessoas acontecerem em nível de amostragem no Brasil todo. Então, cada dia que passa a música brasileira é melhor. Paradoxalmente, o que se chama de música que é mostrada pelos meios de comunicação a cada dia que passa é pior.

Álvaro Müller – Você tem encontrado dificuldade de emplacar o seu trabalho na mídia?
Xangai –
Eu não estou preocupado com a mídia. Atendo a televisão, o rádio, com o maior prazer, tenho respeito pelos profissionais e pelo público, mas se eu fosse viver por conta da mídia, já não faria mais isso. Sou chamado pra cantar em congressos, nas universidades de todo o país, dou palestra cantando e canto em teatros – o Teatro Nacional de Brasília fica sempre lotado. Canto no sertão da Bahia, em Caetité, canto em qualquer lugar, mas porque tem pessoas especiais nesses lugares, que sabem que também nós temos a nossa especialidade. Por que Elomar não parou de cantar? E tantos repentistas, Ivanildo Vilanova, Geraldo Amâncio, Oliveira de Panelas? São gênios que não estão na mídia, mas as pessoas são sabedoras, buscadoras e encontram. Há gente garimpeira também da arte que existe no Brasil.

Álvaro Müller – Em um show na Atalaia há alguns anos você percebeu o público reduzido e usou a seguinte frase: “Eu não toco pra galera. Eu toco pra gente”. O que quis dizer com isso?
Xangai – Ué? Gente sou eu, você. Gente é gente. Galera é uma embarcação do tempo das galés. Não é nóis. Nóis é jeca, mas é jóia. Eu não canto pra galera e não entendo esse negócio desse povo de botar a mãozinha pra cima e pra baixo. Não vejo sentido nisso. Isso é bom pra fazer ôla em estádio, torcendo pro Vasco, Flamengo, Santos, Sergipe, Itabaiana, aí, sim, faz uma onda arretada, tem os coros de cantar, os chavões... Mas ‘galera’? Eu não sei do que se trata.

Álvaro Müller – Percebe-se mais claramente na música de raiz que o artista costuma produzir novos trabalhos, mas se prender aos velhos sucessos nos seus shows. Por que a resistência ao novo?
Xangai –
Isso aí, puxa, imagine você... Luiz Gonzaga, por exemplo, que eu me lembro assim, deve ter gravado dezenas ou centenas de discos. E você ouvia todos de cabo a rabo. Era tudo beleza, lindo, lindo. Não tinha esse negócio de ‘música de trabalho’ que os ‘artistas’ têm como orientação dos ‘inteligentes’ das multinacionais do disco. Agora veja, Luiz Gonzaga gravava um disco e você podia ouvir todo, mas ele não podia deixar nunca de cantar ‘Vai boiadeiro que a noite já vem’ ou ‘Asa Branca’. Então, não tem jeito de deixar de cantar as ‘coisa véia’. A música velha é a mesma coisa do pai e da mãe, que a gente quer bem. Também o povo gosta, aprecia. Eu, por exemplo, adoraria fazer uma apresentação só com músicas nunca cantadas naquele lugar. Mas vá eu fazer esse negócio? Nêgo fica: “Cante aquela, cante aquela outra” e num tem jeito, a gente canta. Daí o jeito é colocar um pouco de cada: das mais nova e das véia. As véia também a gente tem que gostar e respeitar. E atender a quem gosta.