Eis aqui a grande invenção da internet! A inimaginável fusão do boteco, ponto de discussões filosóficas e nascedouro das soluções para todos os problemas políticos, econômicos e sociais do mundo, com o hospício, furna da mais pura sinceridade, livre das convenções, amarras e obrigações sociais. Coerências ou devaneios, tudo vale. Tudo é possível. Portanto, seja bem-vindo! Entre, sente, tire a camisa de força e tome mais um gole, sem pressa para pedir a saideira.

terça-feira, setembro 28, 2010

“Quem para de competir no Brasil vira bagaço de laranja”

Medalhista olímpico no salto triplo, Nelson Prudêncio é a prova de que o brasileiro precisa pular a falta de incentivo e de políticas eficientes para se imortalizar na história do atletismo


Os Jogos Olímpicos da Cidade do México, em 1968, eternizaram uma das mais memoráveis disputas pelo ouro de todos os tempos. Era a final do salto triplo. Na briga pelo lugar mais alto do pódio, o recorde mundial foi quebrado nada menos do que nove vezes. Entre os competidores, o brasileiro Nelson Prudêncio, à época com 24 anos, saltou 17,27 metros, viveu a alegria de ser recordista e, logo depois, foi superado por Viktor Saneyev. Com 17,39 metros, o soviético ficou com o recorde mundial e o ouro. Prudêncio, com a honrosa prata.
Quatro anos depois, nas Olimpíadas de Munique, então Alemanha Ocidental, Prudêncio voltou a ganhar mais uma medalha, desta vez de bronze, e cravou definitivamente seu nome na história do atletismo. Somadas a dois vice-campeonatos nos Jogos Panamericanos – Winnipeg, em 1967, e Cáli, em 1971 –, as conquistas olímpicas fazem do filho da tímida cidade de Lins, em São Paulo, uma das maiores referências do salto triplo brasileiro, ao lado de Adhemar Ferreira da Silva e João Carlos de Oliveira, o João do Pulo.
Hoje, aos 66 anos e doutor em Ciência do Esporte, Nelson Prudêncio integra o programa Heróis do Atletismo, iniciativa da Caixa Econômica Federal para a preservação da memória do esporte brasileiro. A convite da CEF, veio a Aracaju neste final de semana, onde acompanhou o Circuito Caixa de Maratoninha, maior competição infantil do País, e ministrou palestras para a comunidade do Bairro Santa Maria e para alunos do curso de Educação Física da Universidade Tiradentes. Frente a frente com os acadêmicos, foi incisivo: “Quem para de competir no Brasil vira bagaço de laranja”.
A constatação, feita por um medalhista olímpico, é a prova cabal de que todo atleta brasileiro ainda precisa aprender a saltar a falta de incentivo e de políticas públicas eficazes para fazer história no esporte. Nada mais justo, portanto, que iniciar a entrevista a partir desta afirmação.

Botecospício – “Quem para de competir no Brasil vira bagaço de laranja”. Porque essa afirmação?
Nelson Prudêncio – Simplesmente porque, após terminada sua carreira como atleta, você não tem mais serventia, não é mais moeda de troca. Isso tem ocorrido em todos os lugares e modalidades, até mesmo no futebol. Enquanto se está dando lucro, beleza. Depois...

Botecospício – Como o senhor iniciou no atletismo?
NP – Por acaso mesmo. Apareci na pista e me perguntaram se eu sabia o que era atletismo. Nunca tinha visto um salto, nunca havia ouvido falar sobre atletismo, como bom brasileiro meu negócio era futebol, mas meu biotipo chamou a atenção. Depois, a firma onde eu trabalhava como torneiro mecânico perguntou se eu queria defender a cidade nos jogos regionais. Acho que não tinha gente para competir, né? (risos). Fiquei sabendo que os competidores ganhavam uma semana de folga na empresa e pensei: “Ah, que beleza!”. Foi aí que tudo começou.

Botecospício – O que difere o atletismo de hoje daquele da época em que o senhor competia?
NP – O conhecimento, a evolução tecnológica, material, tudo. Hoje é possível acompanhar como o organismo humano reage frente às cargas de treinamento. Antes só víamos o esqueleto. Não existia a parte móvel da coisa, coração, pulmão, fibras musculares, fonte de energia.

Botecospício – Treinamento então era só correr e saltar...
NP – Simples como a água. Hoje não trabalhamos mais na relação de erros e acertos. A ciência, a fisiologia do esforço, a biomecânica já nos permitem ter indicadores para dizer, inclusive, em que tipo de prova o atleta rende mais.

Botecospício – O senhor teme que aconteça com o atletismo o que aconteceu com a Fórmula 1, onde a capacidade do atleta foi superada pela tecnologia?
NP – Não. No atletismo, temos que agradecer muito mais aos nossos pais, pelo legado genético. Há pessoas que têm 60% de fibras musculares de contrações rápidas, mesmo com todo o treinamento, e outras que nascem com 90%. O treinamento não faz ninguém chegar até lá, seria como mudar a estrutura do ser humano.

Botecospício – O que o Brasil precisa fazer para avançar no atletismo?
NP – Um trabalho mais forte de detecção de novos atletas. No País inteiro, o único lugar onde já se realiza um trabalho planejado, voltado para o rendimento máximo, é em Bragança Paulista. Lá, 60 garotos estão treinando, potenciais talentos. Veja você, quando fui fazer uma palestra no Bairro Santa Maria e vi a estatura daquela garotada, falei: “Vamos testar essa turma!”. É o que precisamos fazer.

Botecospício – O que é ser um medalhista olímpico?
NP – É gratificante saber que meu nome está escrito no livro da vida e isso não tem explicação. A única coisa que se pode fazer é agradecer. O esporte me escolheu.

Botecospício – Sua maior glória são as medalhas olímpicas. E a maior frustração?
NP – Creio não haver. Ainda tenho, sim, o sonho de que o nosso País consiga colocar, pelo menos, um atleta na final de cada prova de olimpíada. Daí para a frente, medalha será uma consequência.

Botecospício – O senhor fez uma das disputas mais memoráveis da história do atletismo. Qual é a sensação de bater o recorde mundial e vê-lo ser batido na mesma prova?
NP – Instigante, porque a partir do recorde você percebe que tem condições de luta. Eu desconhecia o meu máximo e quando vi o recorde batido, chorei de alegria. Não acreditava ser capaz de fazer aquilo. Depois, quando o Viktor Saneyev ultrapassou a marca, é claro que fiquei triste, mas reconheci a capacidade dele. Aliás, uma das funções do esporte é nos ensinar a reconhecer o potencial e talento das outras pessoas. Quando fui para os Jogos Panamericanos de 1975, novamente na Cidade do México, disposto a tomar o recorde mundial do soviético, quem acabou batendo foi o João Carlos de Oliveira, e aí chorei de alegria. João estava em ascendência no esporte e aquilo foi lindo. Cheguei para ele e disse: “Você não sabe o que fez”.

Botecospício – Como é para um atleta ter de parar?
NP – Tem que se preparar para isso, porque o atleta está acostumado a viver num ambiente de competição com os top class do País, e depois que para, aquela luz no fim do túnel passa a não existir mais. Muitos se deixam levar por isso e ficam abatidos. Para preencher essa lacuna, encontrei motivação nos estudos.


Fotos: Marcelo Freitas e José Weider Moreira

segunda-feira, setembro 27, 2010

Craques sem rédea

No País do futebol e da impunidade, todo craque de bola tem direito a fazer o que bem entende fora das quatro linhas: infringir leis, provocar confusões, protagonizar cenas de violência e desrespeito e depois sair ileso, sem qualquer tipo de punição à altura do ato absurdo que cometeu. A peleja entre o atacante Neymar, dos Santos, e o então técnico do Peixe, Dorival Júnior, é sintomática. Sentindo-se dono do time e da bola, Neymar não aceitou a ideia de passar a vez para que um colega de equipe cobrasse o pênalti contra o Atlético Goianiense. Dedo em riste, achincalhou o treinador, os colegas de profissão e, por tabela, a torcida do Peixe.

O agredido Dorival Júnior foi demitido do Santos, duas rodadas depois, por anunciar que sacaria Neymar da partida contra o Corinthians. Numa tentativa de restabelecer um pouco de ordem e respeito na Vila Belmiro, acabou crucificado. Já o agressor Neymar levou uma multazinha de R$ 50 mil – para ele esta quantia é uma multazinha mesmo – e retornou ao elenco no clássico. O Neymar demitiu o Dorival? Claro que não. O mundo do futebol é que conspira em favor dos desrespeitosos, dos criminosos, dos irresponsáveis. Contanto que joguem bola, vale tudo: se embriagar e matar pessoas atropeladas, como fez o “Animal” Edmundo; empunhar armas e financiar as ações “beneficentes” do Comando Vermelho, como fez o Adriano “Imperador”. Tudo é passível de aceitação pública.

Até a imprensa vai nessa onda. Na primeira partida em que o Dorival Júnior deixou o Neymar de fora, a crônica esportiva aplaudiu. Na segunda, o Dorival já estava “exagerando” e quem “perdia” com aquilo era o Santos. O discurso antiexagero dos jornalistas entrou em cena e sustentou-se no fato de o Neymar simplesmente ter pedido desculpas, um dia depois do bate-boca com o então treinador do Peixe, como se isso só bastasse. “O Neymar de verdade não é aquele”, argumentou o jovem craque, em entrevista coletiva e com a cara lavada. Mentira. É claro que o Neymar é aquele monstro criado pelo universo benevolente do futebol. Assustado, o técnico René Simões, do Atlético Goianiense, fez questão de precaver: “Poucas vezes vi alguém tão mal-educado desportivamente. Está na hora de educar este rapaz”.

Porque ninguém se propõe a “educar” o Neymar? Porque ele é craque e na cultura do futebol brasileiro craque pode tudo. Tentar educá-lo é colocar a cabeça a prêmio, como fez o guilhotinado Dorival. Não é de hoje que Neymar vem sendo o responsável por cenas de desrespeito nos jogos dos Santos. Acaloradas discussões, gracinhas humilhantes com o jogo parado – como fez com o zagueiro Chicão, do Corinthians – e tantas outras atitudes de quem tem um rei na barriga. Mas como o polêmico Neymar também é o craque Neymar com a bola nos pés, passa a ser compreendido apenas como "a irreverência do talento brasileiro" ou o jovem em formação, coitadinho, que precisa de orientações para se tornar um adulto melhor.

No fundo, Neymar é tão protegido quanto um adolescente de 17 anos que comete um crime encorajado pela consciência de que não pode ir para a cadeia, por conta da idade. Alguns cronistas esportivos chegam a levantar a possibilidade de o jovem atacante santista ter o temperamento difícil por conta da genialidade enquanto jogador - como se todo gênio precisasse obrigatoriamente ser excêntrico e transgressor das regras do bom convívio social.

Ora, quanta imbecilidade. A genialidade no futebol nada tem a ver com o caráter de um atleta. Ela é mais impulsiva do que racional. É dom. O sujeito recebe a bola, antevê a jogada e executa em fração de segundos, sem pensar muito naquilo. Age por impulso. E se todo gênio é problemático, porque gente como Zico não protagonizou cenas grosseiras e pedantes como as do Neymar? Resposta simples: o impulso do Zico em dominar uma bola no peito e bater de voleio no ângulo é muito diferente do impulso que fez o Neymar colocar o dedo na cara do Dorival Júnior, contra o Atlético Goianiense. Este é típico de quem se considera o todo poderoso, acima do bem e do mal, quando, na verdade, não o é.

Alguém precisa mostrar ao Neymar que, no futebol, o ditado ainda é atual: uma andorinha só não faz verão. E a tarefa é fácil. Basta dizer a ele que, enquanto o Santos briga para se estabelecer no G4 do Brasileirão, o Corinthians do zagueiro Chicão – aquele mesmo que o garoto da Vila fez questão de humilhar no clássico pelo Campeonato Paulista – é hoje o favorito ao título nacional. Para quê prova melhor?

Quem parece estar disposto a dar ao Neymar esta lição de convívio em grupo e de importância da coletividade é o técnico Mano Menezes, que já não convocou o garoto para a Seleção Brasileira. Mas é claro que, para Mano, essa atitude agora é muito cômoda. Não estamos às vésperas de uma Copa do Mundo e o Neymar tem tempo de sobra para ficar quietinho e retornar. Agora, caso ele continue aprontando das suas, aí eu quero ver se o Mano terá peito de deixá-lo de fora de um Mundial, para acabar achincalhado pela imprensa e pela torcida deste país em que ser craque de bola é o habeas corpus para quem quer cometer todo tipo de delito.