Eis aqui a grande invenção da internet! A inimaginável fusão do boteco, ponto de discussões filosóficas e nascedouro das soluções para todos os problemas políticos, econômicos e sociais do mundo, com o hospício, furna da mais pura sinceridade, livre das convenções, amarras e obrigações sociais. Coerências ou devaneios, tudo vale. Tudo é possível. Portanto, seja bem-vindo! Entre, sente, tire a camisa de força e tome mais um gole, sem pressa para pedir a saideira.

terça-feira, outubro 24, 2006

A Era do ApoCalypso


Já não agüento mais. Depois de tentarem me obrigar a botar a mão no joelho e dar uma abaixadinha, agora querem que eu saia me esfregando em praça pública, feito um animal irracional - puro instinto -, ao som de um pequeno punhado de notas repetidas num teclado qualquer.

É. Definitivamente, não sou arrocheiro... Se é que é assim que se nomeiam as pessoas que gostam deste barulho, deste... desta balbúrdia musical. Enfim, deste troço inaudível que toca nas FMs, nos botecos, nas feiras, nos carros dos playbboys - atitude perdoável, visto que estes acéfalos nada conseguem fazer além de serem condicionados a reproduzir o que a mídia lhes impõe.

Literalmente, não dá mais para viver na terra do arrocha, da música brega, daquelas batidas repetidamente insuportáveis do funk carioca - batidas estas que, se deflagradas na década de 60, serviriam muito bem às Forças Armadas como instrumento de tortura contra os descontentes com a ditadura militar.

Quero ir embora. Quero ir a um lugar onde não tenha de acordar com o som do Harmonia do Samba, num "sambinha" de quatro notas e sem a menor harmonia. Quero ir a um lugar onde não tenha de ligar a TV e me deparar com o Lacraia se contorcendo e sendo aplaudido por um bando de idiotas pocotós, estrategicamente enfileirados e capazes de passar uma tarde inteirinha atendendo aos mandos e desmandos de um apresentador qualquer.... Afinal, o que faz um ser humano em sã consciência sair do conforto do seu lar para ficar feito uma besta, gritando e aplaudindo à exaustão, num programa de auditório? Acho que nem Freud explica isso, mas a teoria dos ilusórios 15 segundos de fama na telinha, talvez sim.

Por fim, preciso arrumar um jeito de descansar meus ouvidos dessas melodias paupérrimas, dessas letras catastróficas e deseducativas - aliás, já está na hora de se vender aparelho de som com a tarjeta "mantenha longe do alcance das crianças -; dos "pirilim-pompons", dos "chupe meu braço", dos "cUelhinhos", dessas gargantas berrantes e renitentes a abradar coisas como "Calypsooooooooo" e a me tirar o sono - não sei quem decretou que berrar é saber cantar -. Enfim, dessa porcalhada toda.

Cadê João Gilberto? Tom Jobim? Vinícus de Morais? Baden Pawel? Cartola? Noel Rosa? Luiz Gonzaga? Onde está a genialidade da música popular brasileira? Ela existe, sim, em talentos como Tom Zé, Francis Hime, Hamilton de Holanda, Ná Ozzeti, Cordel do Fogo Encantado, Toquinho, Ceumar, Hermeto Pascoal, Lenine, Mônica Salmaso, Sivuca, Yamandu Costa, Zeca Baleiro, Miúcha, Riachão, Otto, Arnaldo Antunes, Chico César, Gilton Lobo, Djenal Gonçalves, Leila Pinheiro, Flávio José, Elomar, Xangai.... Ih, é muita gente!!! Isso sem contar os imortais como Chico Buarque e Paulinho da Viola. Mas, infelizmente, a MPB de qualidade está nas alcovas, escondida, submissa, algemada aos ditames do mercado.

Em 1969, Chico Buarque compôs “Essa moça tá diferente” e demonstrou sua desilusão com a mudança da música nacional, do samba e do chorinho, que começava a se modernizar através do movimento tropicalista:

Essa moça tá diferente
Já não me conhece mais
Está pra lá de pra frente
Está me passando pra trás

Essa moça tá decidida
A se supermodernizar
Ela só samba escondida
Que é pra ninguém reparar

Eu cultivo rosas e rimas
Achando que é muito bom
Ela me olha de cima
E vai desinventar o som

Faço-lhe um concerto de flauta
E não lhe desperto emoção
Ela quer ver o astronauta
Descer na televisão

Mas o tempo vai
Mas o tempo vem
Ela me desfaz
Mas o que é que tem
Que ela só me guarda despeito
Que ela só me guarda desdém

Mas o tempo vai
Mas o tempo vem
Ela me desfaz
Mas o que é que tem
Se do lado esquerdo do peito
No fundo, ela ainda me quer bem.

A atemporalidade da obra é a marca registrada do gênio, e a descalabrosa realidade musical do Brasil só nos serve para reverenciar ainda mais a genialidade de Chico. De fato, essa moça chamada MPB continua diferente. Se maquiando cada vez mais e perdendo sua essência para o colorido efêmero da futilidade e da mediocridade intelectual. E ela – a música popular brasileira – realmente ainda nos quer bem. E muito bem. Nós é que somos os verdadeiros ingratos e não lhe damos a devida atenção.