Eis aqui a grande invenção da internet! A inimaginável fusão do boteco, ponto de discussões filosóficas e nascedouro das soluções para todos os problemas políticos, econômicos e sociais do mundo, com o hospício, furna da mais pura sinceridade, livre das convenções, amarras e obrigações sociais. Coerências ou devaneios, tudo vale. Tudo é possível. Portanto, seja bem-vindo! Entre, sente, tire a camisa de força e tome mais um gole, sem pressa para pedir a saideira.

quarta-feira, julho 26, 2006

O PM, o trabalhador e a mãe do bandeirinha

Se a máxima “Deus ajuda a quem cedo madruga” fosse de fato veraz, meu amigo Etevaldo Dória já teria ganhado na mega-sena, ainda que sem comprar o bilhete. Acostumado a ficar de pé, todo santo dia, em sincronia com primeiro sussurro do galo da madrugada, “Théo”, como gosta de ser chamado – e ai daquele que escrever seu nome sem o “h” –, sai pra trabalhar quando cerca de 90% das almas brasileiras ainda estão vagando despregadas das carapaças de carne e osso.

Mas, como bem antes de decretar a ajuda aos “despertadores humanos” Deus encasquetou com a idéia de que, pelo menos no Brasil, o trabalhador tem de ser pisoteado, torturado, humilhado publicamente, desdenhado, enxovalhado, açoitado, massacrado e etc., num é que Etevaldo e todo o seu labor quase foram parar no xilindró um dia desses? Simplesmente porque um dito sargento da Polícia Militar invocou que o meu amigo – logo ele, que tanto sua pra pagar seus impostos – estava a perturbar a ordem pública e deixar as famílias sergipanas em situação constrangedora. Tudo porque Théo simplesmente xingava a mãe de um bandeirinha, durante uma partida de futebol.

Calma sargento! Veja bem rapaz, a gente é torcedor, trabalha a semana toda. Aqui é o lugar que a gente pode extravasar, Argumentou Etevaldo, trêmulo e arfando de nervoso. Aqui em Aracaju não tem essa estória de trabalhador não. Ou você pára de xingar, ou lhe dou voz de prisão, Rebateu o truculento militar, vencido somente após as próprias mulheres às quais dizia estar preservando a integridade moral lhe dedicaram uma pomposa vaia. Uhhhhhh! Solta o rapaz!

Bonito... Logo em Aracaju, terra das araras, dos cajus e das incessantes brigas entre torcidas organizadas – pelejas que a polícia é INCAPAZ antever e impedir, como se ninguém soubesse o que acontece ao final de todo clássico Sergipe x Confiança –, eis que me surge um sargento diplomata disposto não só a pôr ordem na casa, como alterar sensivelmente a cultura do futebol nacional... De onde me trouxeram tal troglodita? Da Ilha de Tonga?

Alguém precisa dizer a esse sargento, e bem rapidinho – antes de ele mandar 90% dos torcedores sergipanos para o xadrez –, que xingar a mãe do bandeirinha no Brasil faz parte do espetáculo, de tal forma que se todos os filhos desta pátria de chuteiras fossem concebidos nas arquibancadas pelo país afora, suas primeira palavras jamais seriam “papá” ou “mamã”, e sim, um embolado “pua e paiu!”, ou, quem sabe, um “fia a pua!”?
A coisa é de tal forma natural que, acredito, os árbitros auxiliares devem passar inclusive por um treinamento de “Como Conviver com a Fama da Mamãe” ou algo do tipo. Uma espécie de disciplina, curso de especialização... sei lá! Aposto meu salário que até mesmo para os bandeirinhas, imaginar um torcedor fervoroso sem xingar suas genitoras é praticamente impossível. É o mesmo que vislumbrar um fiel católico se recusando a receber a hóstia ou um PM vendando os olhos para a bandidagem e correndo atrás do trabalhador, simplesmente para exercer o poder da farda. Bom... este último caso eu já não tenho certeza se é tão inimaginável assim.

quinta-feira, julho 20, 2006

O amor entre o aracajuano e a porta do buzu


O calvário para todo brasileiro pé-rapado que precisa do transporte coletivo para tocar a vida é praticamente o mesmo em qualquer ponto do país: preço abusivo da tarifa, ônibus superlotados, iminência de assalto e até mesmo os ataques de ovo goro que a molecada arma contra o buzu, sem dó nem piedade (eu mesmo perdi as contas de quantas “bolas brancas” arremessei contra as tantas janelas da minha infância em Alagoinhas, junto ao meu amigo Caatinga, parceiro de planos maquiavélicos e infalíveis).

Mas em Aracaju o calvário de um pé-rapado para se locomover tem lá suas peculiaridades. A mais rotineira delas é estranhíssima: o aracajuano adora a porta do meio do ônibus. É uma paixão avassaladora! Uma fixação doentia! Uma adoração sacra!

Quem trafega de ônibus pela capital sergipana e ainda não foi acometido por esta atração fatal não deve, portanto, espantar-se ao perceber que, enquanto as pessoas se amontoam em frente à porta do meio do buzu, o fundo do carro permanece vazio. Afinal de contas, isso é o que quase sempre acontece.

Apenas para situar os internautas de outros Estados, os ônibus em Aracaju possuem três portas – frente, meio e fundo –: os passageiros entram pela frente, passam pela borboleta, pagam a passagem e, ao invés de se dispersarem, ficam prostrados na bendita porta do meio. É como se fosse uma espécie de status, idêntico ao do sujeito que senta no banco da frente de uma BMW.

Daí, quem entra mais cedo pode até se salvar, mas quem pega o bonde andando – ou melhor, o buzu em trânsito – sofre feito um condenado. Em meio ao calor insuportável, espreme-se de um lado, vira-se do outro; dá uma cotoveladazinha aqui, um “despretencioso” pisão de pé ali; usa a bolsa, mochila, sacola ou o que estiver na mão como escudo; ergue o rosto para respirar mais aliviado, pensa até em gritar “ói o gelo!”, como se faz em estádios de futebol e festas de rua para dispersar a multidão. Mas nada disso adianta. O jeito é se acomodar na lata de sardinha em que se converte aquele trecho da santa e cobiçada porta do meio.

O pior é que os espaços estão ficando cada vez mais exíguos. Um dia desses, solicitei a parada de um ônibus na avenida Beira Mar, mas quase desistia e mandava o motorista passar direto. Em pé na calçada, olhando o carro de frente, tive a impressão de que estava com gente saindo pelo ladrão. Ledo engano. Além de um punhado de pessoas que estava quase caindo no colo do motorista, o ônibus permanecia completamente vazio lá nos fundos. “Fio do cabrunco se num foi!” (Esta expressão, por aqui, funciona como uma espécie de juramento, de quem se está dizendo a mais pura da verdades).

Tentei interpretar aquela cena esquisita, de um ônibus superlotado em dois ou três metros e com o restante do seu espaço interno vazio, ocupado apenas pelas pessoas que se encontravam sentadas. “Será que o motorista está usando Avanço?”, pensei, relembrando a famosa propaganda daquele desodorante. Mas como percebi tanto mulheres quanto homens naquele pedacinho do carro, descartei a hipótese.

Resolvi então perguntar ao cobrador, que me saiu com esta pérola da sociologia dos afetos e das relações: “Já viu, rapaz? Será que sou tão feio assim? Ou é porque vou cobrar a passagem?”.Será que os aracajuanos estão começando a se apaixonar também pela porta dianteira do ônibus? Agora estou preocupado! Não seria esse o momento da SMTT (Superintendência Municipal de Transporte e Trânsito) promover, em caráter de urgência-urgentíssima, um curso de “Técnica da Boa Utilização do Interior dos Ônibus Urbanos de Aracaju: como afastar de vez o risco de morte súbita por asfixia e esmagamento entre o motorista e a segunda porta”?. Fica aqui a sugestão. Você acha a idéia irônica? Porque não é você, fio do cabrunco, que está lá todos os dias asfixiado!