Eis aqui a grande invenção da internet! A inimaginável fusão do boteco, ponto de discussões filosóficas e nascedouro das soluções para todos os problemas políticos, econômicos e sociais do mundo, com o hospício, furna da mais pura sinceridade, livre das convenções, amarras e obrigações sociais. Coerências ou devaneios, tudo vale. Tudo é possível. Portanto, seja bem-vindo! Entre, sente, tire a camisa de força e tome mais um gole, sem pressa para pedir a saideira.

terça-feira, fevereiro 26, 2008

“Não canto pra galera. Canto pra gente”

Em pleno Brasil do Créu, Xangai faz do respeito às raízes nordestinas a sua maior cantoria

Foto: MARCO VIEIRA


ÁLVARO MÜLLER

Quem é esse menestrel que entoa em cantorias a alma do nordestino? É o Xangai, o Eugênio Avelino. O artista que, ainda menino, lá pras bandas de Vitória da Conquista, Sertão da Bahia, “brincava tangendo carneiros / fim de tarde na rede sonhava / belo dia seria um vaqueiro”. Xangai. Um cantador, um trovador, um violeiro. Um vaqueiro cabra da peste e teimoso, incansável ao aboiar a música, o folclore, as riquezas culturais do Nordeste pelo ‘Brasil do Créu’ afora com a mesma visceralidade que faz a sua voz e acordes adentrarem os diversos ritmos da região. Do grave ao agudo, forró, rastapé, xote, ligeira, coco, galope, baião. Só não tenha, jamais, este intérprete número um de Elomar com ‘um cantor’. Ele pode achar ofensa.
Em meio ao solo rachado da música comercial, Xangai lançou seu primeiro disco, ‘Acontecivento’, em 1976, pela gravadora CBS. Mas logo galopou para a carreira independente, distante da terra fértil das grandes gravadoras. Nada que o impedisse de aprontar uma ruma de trabalhos – sozinho ou em parceria com tanta gente boa como Elomar, Vital Farias, Geraldo Azevedo, Quinteto da Paraíba, Renato Teixeira. E por aí vai.
Na última quinta-feira, 21, antes de pisar o palco do Tobias Barreto – onde se apresentou com o artista sergipano Tom Ramos –, Xangai falou sobre o seu trabalho e sobre o cenário musical do Brasil. E reafirmou: “Se eu fosse viver por conta da mídia, eu já não faria mais isso”. “Apois, pro cantador e violeiro / só há três coisas nesse mundo vão / amor, forria, viola, nunca dinheiro / viola, forria, amor, dinheiro não”. Forria, numa corruptela de liberdade. Numa afirmação do que são seu canto e a música que ele ostenta.

Álvaro Müller– De onde vêm as suas influências musicais?
Xangai –
Da minha circunstância, da minha realidade, dos mestres que eu tive – Elmoar, Pixinguinha, Lupicínio Rodrigues, Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi. E vêm do sertão brasileiro, de onde sou originário.

Álvaro Müller – O que é viver de música de raiz no Brasil?
Xangai –
Eu vivo de poesia, de cantoria, de música. Acredito que não tenha aceitado o aceno dos 30 dinheiros, mesmo com a indecorosidade dos meios de comunicação que se esforçam em não reconhecer a beleza da musicalidade, da poesia do Brasil. Nóis é jeca, mas é jóia.

Álvaro Müller – A música e o artista do Nordeste têm o devido respeito do público brasileiro?
Xangai –
Têm sim. Eu tenho o melhor público do Brasil. Costumeiramente não encho estádios de futebol, mas em todos os teatros em que me apresento não posso me queixar da presença do melhor público, qualitativamente. São pessoas que não aceitam essa mesmice, essa pasteurização da programação das rádios e da televisão brasileiras.

Álvaro Müller – E como você avalia a música comercial do país? Que produto o brasileiro está consumindo?
Xangai –
O que os meios de comunicação impõem.

Álvaro Müller – Como é o seu processo de criação?
Xangai –
Eu não tenho processo de criação. Quando eu tenho merecimento, busco e vem. Tem um verso de Elomar, maior compositor deste planeta, que diz assim: “Todo bem é de Deus que vem / Quem tem bem, louva a Deus seu bem. Quem não tem, pede a Deus que vem”. Quando eu vou fazer uma música, ela chega com o consentimento do Criador, de quem me deu a possibilidade, o que se chama de talento, o dom. E sempre que eu posso cantar alguma coisa que sirva para reconhecer essa dádiva e para a minha evolução e a do meu semelhante, isso é o que me interessa. Muitas vezes uma música chega pra gente pronta. Outras, a gente peleja e não faz. Não tem uma receita. Se tivesse, eu batia ponto pra fazer uma porção de música todo dia (risos).

Álvaro Müller – Quem tem renovado a música nordestina de qualidade?
Xangai –
A música brasileira em geral melhora cada dia que passa. Digo isso porque tenho tido a oportunidade de viajar pelo Brasil de quatro costados e sempre me aparece, no camarim, no hotel ou onde eu esteja um bom artista, um bom músico, uma boa cantora ou cantor, enfim, um bom talento. E aí se passam os anos e eu não vejo essas pessoas acontecerem em nível de amostragem no Brasil todo. Então, cada dia que passa a música brasileira é melhor. Paradoxalmente, o que se chama de música que é mostrada pelos meios de comunicação a cada dia que passa é pior.

Álvaro Müller – Você tem encontrado dificuldade de emplacar o seu trabalho na mídia?
Xangai –
Eu não estou preocupado com a mídia. Atendo a televisão, o rádio, com o maior prazer, tenho respeito pelos profissionais e pelo público, mas se eu fosse viver por conta da mídia, já não faria mais isso. Sou chamado pra cantar em congressos, nas universidades de todo o país, dou palestra cantando e canto em teatros – o Teatro Nacional de Brasília fica sempre lotado. Canto no sertão da Bahia, em Caetité, canto em qualquer lugar, mas porque tem pessoas especiais nesses lugares, que sabem que também nós temos a nossa especialidade. Por que Elomar não parou de cantar? E tantos repentistas, Ivanildo Vilanova, Geraldo Amâncio, Oliveira de Panelas? São gênios que não estão na mídia, mas as pessoas são sabedoras, buscadoras e encontram. Há gente garimpeira também da arte que existe no Brasil.

Álvaro Müller – Em um show na Atalaia há alguns anos você percebeu o público reduzido e usou a seguinte frase: “Eu não toco pra galera. Eu toco pra gente”. O que quis dizer com isso?
Xangai – Ué? Gente sou eu, você. Gente é gente. Galera é uma embarcação do tempo das galés. Não é nóis. Nóis é jeca, mas é jóia. Eu não canto pra galera e não entendo esse negócio desse povo de botar a mãozinha pra cima e pra baixo. Não vejo sentido nisso. Isso é bom pra fazer ôla em estádio, torcendo pro Vasco, Flamengo, Santos, Sergipe, Itabaiana, aí, sim, faz uma onda arretada, tem os coros de cantar, os chavões... Mas ‘galera’? Eu não sei do que se trata.

Álvaro Müller – Percebe-se mais claramente na música de raiz que o artista costuma produzir novos trabalhos, mas se prender aos velhos sucessos nos seus shows. Por que a resistência ao novo?
Xangai –
Isso aí, puxa, imagine você... Luiz Gonzaga, por exemplo, que eu me lembro assim, deve ter gravado dezenas ou centenas de discos. E você ouvia todos de cabo a rabo. Era tudo beleza, lindo, lindo. Não tinha esse negócio de ‘música de trabalho’ que os ‘artistas’ têm como orientação dos ‘inteligentes’ das multinacionais do disco. Agora veja, Luiz Gonzaga gravava um disco e você podia ouvir todo, mas ele não podia deixar nunca de cantar ‘Vai boiadeiro que a noite já vem’ ou ‘Asa Branca’. Então, não tem jeito de deixar de cantar as ‘coisa véia’. A música velha é a mesma coisa do pai e da mãe, que a gente quer bem. Também o povo gosta, aprecia. Eu, por exemplo, adoraria fazer uma apresentação só com músicas nunca cantadas naquele lugar. Mas vá eu fazer esse negócio? Nêgo fica: “Cante aquela, cante aquela outra” e num tem jeito, a gente canta. Daí o jeito é colocar um pouco de cada: das mais nova e das véia. As véia também a gente tem que gostar e respeitar. E atender a quem gosta.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Por sonho, casamento nos EUA tem bolo com cara e tamanho da noiva


Casamento sem bolo é quase festa de criança sem brigadeiro. Além de correr atrás de salões de festas, vestido e enfeites, todos noivos que se prezem também buscam o melhor e mais bonito bolo para aquele que promete ser o ‘dia mais lindo’ da história do casal.
Nos Estados Unidos, porém, uma noiva teve um sonho e mandou fazer um bolo que com certeza não terá, literalmente, a mesma cara que qualquer outro. A não ser que ela se case novamente Tudo porque o bolo tinha as mesmas medidas (altura, largura e tudo mais) que a próprio noiva. E, claro, o rosto da própria.

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ÚLTIMA CHANCE PRA QUEM QUER TRAÇAR A NOIVA!!!

sábado, fevereiro 09, 2008

Autopsicografia




Sóbrio poltrão
Ébrio boêmio
Bocados da minha sorte.
Dedilhar primos acordes, martírio.
Tanger derradeiros, a morte.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

EURECA!!!



Palmeiras acerta com Denilson

Jogador aceita contrato de produtividade e fica por um ano. Quanto mais ele jogar, mais ele vai ganhar

O Palmeiras acertou a contratação do atacante Denílson. O jogador aceitou a contra-proposta oferecida pelo Palmeiras e deve ser apresentado na próxima terça-feira.

- A proposta é de produtividade, com valores que consideramos justo. Quanto mais ele jogar, mais ele vai ganhar - disse o diretor de futebol do Verdão, Genaro Marino.

O contrato de produtividade é válido por um ano, com um salário variável conforme o número de jogos que ele fizer pelo time.

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E assim o Verdão descobriu a fórmula para alavancar o Brasil... Ou não seria interessante tratar servidores públicos a base de contratos de produtividade???

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Só se foi quando o dia clareou


Há alguns dias recebi um boletim de um dos jornais ‘on-line’ de Aracaju. Na manchete, as presenças de Marcelo D2 e O Rappa no Projeto Verão. Resolvi acessar o conteúdo e me deparei, já no corpo do texto, com o nome de Paulinho da Viola. Fora das letras garrafais, tímido como a voz mansa e melódica do sambista carioca.

Esfreguei os olhos. Olhei novamente e ele permanecia ali: “Paulinho da Viola”, em meio a tantas outras atrações não tão "expressivas" quanto um O Rappa, um Marcelo D2 ou, quem sabe, um Aviões do Forró (esta última, para o bem dos ouvidos aracajuanos, está fora do projeto).

“Paulinho da Viola”... Não consegui terminar de ler a matéria. A manchete do tal site tornava-se, para mim, uma heresia. Um acinte. Uma cusparada na cara da música popular brasileira. Era, ainda, a prova cabal de que a mídia merece ser responsabilizada pela disseminação da escória musical do país (com todo respeito ao O Rappa e ao D2, que eu acho muito bons, mas se a atração fosse o maldito Aviões a inversão de valores teria sido a mesma).

Paulinho da Viola é a resistência da música genuinamente brasileira, de tradições populares como o samba, o choro, o carnaval. Traz nas composições e nas melodias a herança musical genética de músicos como Jacob do Bandolim, Pixinguinha, Cartola, Nelson Cavaquinho e tantos outros que, em um país musicalmente deseducado, entraram para a "sessão nostalgia". Como se boa música tivesse prazo de validade.

Dono de sucessos como “Sinal Fechado” e “Foi um rio que passou em minha vida”, Paulinho da Viola gravou em média um disco por ano na década de 70; venceu prêmios de música e percorreu o mundo; lançou quatro novos trabalhos nos anos 80 e, já nos 90, mostrou maturidade e sofisticação com Bebadosamba. Ainda hoje, prova que é um gênio capaz de renovar-se sem perder as raízes jamais. E exatamente por isso merecia, no mínimo, ser manchete não só do referido site, como de toda a imprensa sergipana.

Tracejar aqui as trajetórias de O Rappa e Marcelo D2 como forma de realçar a sua efemeridade perante o artista Paulinho da Viola é por demais desnecessário. Estaria eu sendo tão injusto e acintoso com a genialidade e musicalidade atemporais do Paulinho quanto os responsáveis pela fatídica manchete do newsletter que recebi.

Talvez eles desconheçam o real valor do gênio do samba; talvez queiram apenas ganhar o “grande público”, em especial a sua fatia mais jovem, colocando em letras garrafais o que hoje faz mais sucesso no rádio e na TV; ou talvez simplesmente pensem como este público e reproduzam dele o discurso de que Paulinho da Viola é coisa "de velho", "ultrapassada". Bom. Se este for o caso, o próprio Paulinho responde em “Eu canto samba”, um dos seus grandes sucessos:

“Há muito tempo eu escuto esse papo furado
Dizendo que o samba acabou
Só se foi quando o dia clareou”