Só se foi quando o dia clareou


Há alguns dias recebi um boletim de um dos jornais ‘on-line’ de Aracaju. Na manchete, as presenças de Marcelo D2 e O Rappa no Projeto Verão. Resolvi acessar o conteúdo e me deparei, já no corpo do texto, com o nome de Paulinho da Viola. Fora das letras garrafais, tímido como a voz mansa e melódica do sambista carioca.

Esfreguei os olhos. Olhei novamente e ele permanecia ali: “Paulinho da Viola”, em meio a tantas outras atrações não tão "expressivas" quanto um O Rappa, um Marcelo D2 ou, quem sabe, um Aviões do Forró (esta última, para o bem dos ouvidos aracajuanos, está fora do projeto).

“Paulinho da Viola”... Não consegui terminar de ler a matéria. A manchete do tal site tornava-se, para mim, uma heresia. Um acinte. Uma cusparada na cara da música popular brasileira. Era, ainda, a prova cabal de que a mídia merece ser responsabilizada pela disseminação da escória musical do país (com todo respeito ao O Rappa e ao D2, que eu acho muito bons, mas se a atração fosse o maldito Aviões a inversão de valores teria sido a mesma).

Paulinho da Viola é a resistência da música genuinamente brasileira, de tradições populares como o samba, o choro, o carnaval. Traz nas composições e nas melodias a herança musical genética de músicos como Jacob do Bandolim, Pixinguinha, Cartola, Nelson Cavaquinho e tantos outros que, em um país musicalmente deseducado, entraram para a "sessão nostalgia". Como se boa música tivesse prazo de validade.

Dono de sucessos como “Sinal Fechado” e “Foi um rio que passou em minha vida”, Paulinho da Viola gravou em média um disco por ano na década de 70; venceu prêmios de música e percorreu o mundo; lançou quatro novos trabalhos nos anos 80 e, já nos 90, mostrou maturidade e sofisticação com Bebadosamba. Ainda hoje, prova que é um gênio capaz de renovar-se sem perder as raízes jamais. E exatamente por isso merecia, no mínimo, ser manchete não só do referido site, como de toda a imprensa sergipana.

Tracejar aqui as trajetórias de O Rappa e Marcelo D2 como forma de realçar a sua efemeridade perante o artista Paulinho da Viola é por demais desnecessário. Estaria eu sendo tão injusto e acintoso com a genialidade e musicalidade atemporais do Paulinho quanto os responsáveis pela fatídica manchete do newsletter que recebi.

Talvez eles desconheçam o real valor do gênio do samba; talvez queiram apenas ganhar o “grande público”, em especial a sua fatia mais jovem, colocando em letras garrafais o que hoje faz mais sucesso no rádio e na TV; ou talvez simplesmente pensem como este público e reproduzam dele o discurso de que Paulinho da Viola é coisa "de velho", "ultrapassada". Bom. Se este for o caso, o próprio Paulinho responde em “Eu canto samba”, um dos seus grandes sucessos:

“Há muito tempo eu escuto esse papo furado
Dizendo que o samba acabou
Só se foi quando o dia clareou”

Comentários

Eduardo disse…
Excelente texto Dr. Alvaro.
Só que, quando li o título do mesmo "Só ser for quando o dia clareou", pensei que fosse nosso sambinha, lá em Subauma, em pleno Carnaval. (rsrs)

Abraços.
Thiago Barbosa disse…
Até hoje eu tenho essa dúvida. A mídia toca a escória musical brasileira porque o povo gosta ou o povo gosta de tanto ela tocar? É difícil compreender. Gostei do texto porque ele mandou o recado e ao mesmo tempo foi responsável. Não precisou espinafrar o D2 e O Rappa para mostrar que Paulinho da Viola é um gênio de nossa música e merecia ser citado como tal, e não como subatração do evento.
Ayαllα disse…
Concordo plenamente com cada linha.
Paulinho da VIola pra mim é um icone e quando li a programação mal acreditei.
SOu jovem (tenhos os meus 21 aninhos :P ) mas mesmo assim sei apreciar boa música.O show foi maravilhoso como haveria de ser!


beijos.

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