Cantoria Chuverial Descomedida, a maldição do milênio

Olha láá quem veeem do lado opooosto
e vem sem goosto de viveeer
Olha láá que os braaaaavos são
escraaaavos sãos
e saaaaalvos de sofrer
Olha láá quem aacha que perder
é ser menor na vidaaa
Olha láá quem sempre quer vitóóória
e perde a glóória de choraaaaaaaar

Este é o meu primo Eduardinho, cantando no banheiro do seu apartamento, em Salvador. Ele é um dos tantos e tantos cidadãos brasileiros acometidos pela Cantoria Chuveiral Descomedida – CCD –, um mau que assola o país. Bem mais que o câncer ou a aids. Bem mais que a desnutrição ou a seca. Talvez até, bem mais que a corrupção e os cambalachos dos nossos políticos, ora travestidos de salvadores da humanidade e pedindo, encarecidamente, o meu, o seu, o nosso voto, quando não, se antecipando em pagar pela preferência dos eleitores compráveis. Talvez até, bem mais que o tráfico de drogas e os mandos e desmandos do crime organizado. Enfim, uma desgraça!

Digamos que, de cada duas residências brasileiras, três têm um portador de CCD. Desses que não podem ver um chuveiro e já vão metendo a boca no trombone. Ou melhor, no microfone. Ou melhor, no chuveirinho ou, na falta deste equipamento, no frasco de shampoo mesmo.
O pior é que, invariavelmente, os portadores de CCD sofrem, como se não bastasse, de Desafinite Aguda – DA –. E aí, eu, como um dos sofredores que acompanham a carreira de Eduardinho pelos banheiros do Brasil afora, desde a época em que o nosso pop star ensaboado, ainda guri, embolava-se em letras simples como “vou na timbalada óiaaa caaaaanto bar” (não sei de onde ele tirou esse “canto bar”), posso garantir: juntou a Cantoria Chuveiral Descomedida com a Desafinite Aguda, F-U-D-E-U!

Quando um cantador de chuveiro resolve tomar banho, é um Deus nos acuda. Não há cristão ou tímpano que agüente. Enquanto ele pega a toalha, já assobiando e prenunciando o desastre, os familiares e amigos posicionados em um raio de até 500 metros procuram, entre olhares aflitos e palpitadas do coração, se proteger do tsunami sonoro que está por vir. Mas nem os pobres vizinhos escapam. Geralmente reprimidos de cantarolar em redutos sociais, e é fácil imaginar por quê, os portadores de CCD mal trancam a porta da “casinha”e já começam a entoar, quer dizer, desentoar os primeiros versos, as primeiras estrofes. E aí não param mais.

Se lhes faltam – aos cantadores de chuveiro, é claro – os graves e agudos vocais, a capacidade imaginativa é transbordante. O sanitário vira um verdadeiro Morumbi lotado, em pleno show do U2. E eles, obviamente, são os Bono Voxes em carne e osso! Alguns chegam até a conversar com o público: “Mãos pra cima”, dizem os pagodeiros. “Sai do chão!”, gritam os axezeiros. “Thank you!”, agradecem os metidos a internacionais, após quase enrolarem a língua no famoso processo de “embromeichon” (vou escrever assim mesmo, pois sou brasileiro).

Ao mesmo tempo, do lado de fora do banheiro, seres humanos aflitos caminham de um lado para o outro, olham ansiosamente para o relógio, de parede ou pulso, não importa. O vagaroso tempo passa a ser um inimigo mortal, prático instrumento de tortura psicológica, bem como a voz que ecoa do sanitário. Os ouvintes mais jovens dispõem de maior resistência às desafinações e conseguem sair da tortura sem grandes seqüelas psicológicas. Os mais velhos, por sua vez, já naquele estágio em que a paciência deixou de ser uma virtude, se arriscam a dar uma batidinha na porta. “EDUARDINHO! BORA RAPAZ! TÁ TODO MUNDO AQUI FORA ESPERANDO PRA TOMAR BANHO! CÊ TÁ PROCURANDO BRINCADEIRA, É?”, grita meu tio Eduardo. Ô desculpinha esfarrapada! Todo mundo sabe que ele quer mesmo é acabar com aquele circo dos horrores em que o seu filho transformou o toalete... E eu, bem ao longe, observando aquela cena e comentando comigo mesmo: “Quem mandou botar essa praga no mundo?”

Mas, se os portadores de Cantoria Chuveiral Descomedida agravada por Desafinite Aguda jamais se incomodam com as críticas, meu primo Eduardinho, em fase avançada da doença – espero que não terminal –, já começa até a sair do banheiro e cantar em locais públicos. Quando trabalhava na Caixa Econômica Federal, resolveu fazer uma visitinha ao “bocão”, decerto por ter comido um acarajé no terminal rodoviário de Alagoinhas, daqueles que aguardam três dias e três noites por um cliente corajoso e faminto ao ponto de abocanhá-los com pimenta e tudo, e não titubeou em soltar a voz: “Jesus, desde menino, éé palestino, éé palestino” (pelo repertório, faltou pouco pro cara nascer um timbaleiro nato, apesar do seu cabeção avantajado, digno de um verdadeiro boneco de Olinda). Acabou de “cortar o quibe” e saiu naturalmente, como se nada tivesse acontecido.

Dizem as más línguas que, no dia seguinte, o excessivo número de reclamações dos clientes e pedidos de demissão por parte dos funcionários obrigou o gerente da Caixa a tomar uma medida drástica: manter o banheiro interditado até que uma sindicância interna identificasse o responsável pela proeza sonora. E Eduardinho, nem aí. Cara de pau, ainda se arvora a admitir, em qualquer mesa de bar, que cantou mesmo, apesar de negar a história da interdição.
Aliás, cara de pau é pouco. Um dos mais graves sintomas da Cantoria Chuveiral Descomedida parece ser mesmo a completa destruição da auto-crítica. Imaginem vocês que, quando estava no meio desse texto, comecei a conversar com Eduardinho pelo msn:

– E aí cabeça, tô fazendo um texto em sua homenagem aqui!
– Manda aí!
(texto enviado..)
– E aí, tá massa?
– Huahuahauahauha! Você é foda! Tô me pocando de rir aqui! Faz o seguinte: ao final do texto, coloca meu telefone de contato para shows....

Dá pra acreditar?...

Comentários

Paty Lobão disse…
KKKKKKKKKKKKKKKK
Caramba,me identifiquei com esse texto.Eu sou portadora de CCD!!!É mt bom cantar no chuveiro....os vizinhos é q não devem gostar muito,fazer o quê né?Vc arrasou com seu primo,mas o texto tá mt bom!!!!!!
J.B. disse…
Gostei do texto, não sou um adepto do CCD, mas o texto foi desenrolado muito bem, rpz já q vc ta fzendo homenagem a todos, tava na hora d vc prestar uma homenagem a nossas peripéicas, do tipo uma sobre aquele nosso amigo iginorante, risos
tenho certeza q o mesmo iria gostar, risos,
+ o texto ta muito massa.
Eduardinho disse…
Pois é...Apesar das críticas. Aliás, criticas uma porra, da defamação feita ao EDUARDINHO, o que importa na vida é ser feliz.
Mas fazer o que nÉ?
Valeu Alvinho, eu também te amo.

Grato,
O próprio.
OBS: Qualquer coisa o telefone de contato está de pé.
Acleivã disse…
Cara!
vc acabou de incentivar com uma comunidade inteira. (minha irmã)
Eduardinho, depois dessa"homenagem", vai acabar cantando em "Zé café".
Apoiar-te-ei enquanto contunuar a ajudar as pessoau que sofrem desse mal descomedido.
kkkkkkkkkkkkkkk

Um grande abraço.
Alan disse…
imagine ter que aturar uma overdose de CCD antes de fazer uma prova da Facu,num sab pela manha,apos ter durmido num colchonete no Feira VI, numa noite em que a temperatura chegou a 13º.HA e como se não bastase apos a prova o pessoal da sala resolveu ir para o BOca de Canto (la em FEIRA) e eduardinho ainda inventa de cantar em Inglês, esse foi o motivo pelo qual eu fui pra Prova Final de Diretio Trib I no semestre passado.
Vitor Belém disse…
Rapaz, você tocou em uma grande ferida.....esse mal da CCD é uma praga; daquelas que não não deixa ninguém em paz. Eu que o diga...a ilustre secretária de lá de casa, portadora desta infeccção, canta dentro e fora do chuveiro. E quase sempre é uma "embromeichon"......quem aguenta??!?!?!?!kkkkkkkkk


Muito bom o texto!!!
Abraço
Anônimo disse…
Adorei o texto! Principalmente o "tô me pocando de rir"! kkkk Será q essa síndrome pega??? Espero q não!!! Como sempre, mente brilhante a sua Álvaro! Parabéns!

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