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segunda-feira, julho 19, 2010

Nem todo soco no Santa Maria é violência

Foto: Portal Infonet


A comunidade do bairro Santa Maria, um dos mais violentos de Aracaju, ganhou através do esporte a oportunidade de enxergar-se de uma forma bem diferente da que costuma esquentar os noticiários policiais. É do Santa Maria a atleta sergipana de maior expressão na atualidade. Aos 17 anos, a pugilista Mirele Cruz, campeã nacional na categoria até 46 quilos e representante de Sergipe na Seleção Brasileira de Boxe, é mais do que uma vencedora. É o exemplo de que a violência pode ser lapidada para o bem, transformada em dignidade e perspectiva de futuro profissional. Basta que as oportunidades sejam criadas.

Mirele tinha tudo para engordar as estatísticas do desemprego ou mesmo da Secretaria de Segurança Pública. Tinha tudo para ser mais um ser humano algemado e de olhar voltado para o chão, exposto nas páginas policiais. Filha de um ex-presidiário e uma alcoolista, conviveu com a violência desde cedo, dentro de casa. Pediu esmolas, passou oito anos da sua infância em um orfanato – sem receber uma visita da mãe –, depois viu sua residência incendiada por bandidos. Acabou no Morro do Urubu, ao lado dos pais e de sete irmãos, num casebre sem água encanada, que, literalmente, não tinha teto, não tinha nada. Mas nem de longe era engraçado como a casa do Vinícius de Morais.

Há cerca de três anos Mirele procurou o Punhos de Ouro, projeto social tocado no bairro Santa Maria pelo ex-pugilista Valter Duarte e que tem como objetivo retirar crianças e adolescentes do mundo do crime, das drogas, dar a eles a chance de escrever um futuro diferente do que vivenciam em seu cotidiano. Cansada de ver a mãe ser agredida pelo pai, Mirele calçou as luvas pela primeira vez com sede de vingança, mas Duarte percebeu o potencial da jovem e direcionou os jabs e cruzados em favor do boxe e contra a violência que tanto a perseguia.

Agora, pela Seleção Brasileira, Mirele prepara-se para disputar competições importantes como o Panamericano no Canadá e o Mundial em Barbados. Dá um gancho à la Mike Tyson na fuça dos governantes, mostra que o Santa Maria tem muito talento a ser descoberto, que a cidadania é também uma questão de oportunidades. E não é que muitas vezes essas oportunidades estão em investimentos e gestos simples como um ringue, alguns pares de luvas e gente com vontade de mudar a realidade social?

4 comentários:

Rodrigo Machado disse...

Que ela não "baixe a guarda" para as dificuldades da vida. Valeu pelo assunto.

Anderson Ribeiro disse...

Ganchos e diretos nas caras dos governantes. E que bom que ela está na Seleção Brasileira. Tantos em Sergipe, em melhores condições, tentaram tanto... mas talento é outra coisa.

Vivianne Paixão disse...

Que título!!!Adorei...agora sim um soco na cara dos nossos governantes. Ótimo texto!

Bj,
Vivi

Força da palavra disse...

Parabéns pela abordagem. Gostei dessa história desde que vi na tv pela primeira vez. Abs.