Espetacularização da morte

Porque sangue dá audiência, violência institucionalizada fabrica
potenciais homicidas, e auxílio-funeral é sinônimo de glamour
Homem se debruça sobre cadáver para fotografá-lo em Socorro


O pop não poupa ninguém. Nem mesmo ela, a única, infalível, irremediável certeza da vida. A morte já não faz jus à caricatura clássica da capa sombria, do semblante sinistramente cadavérico e da foice fulminante. Já não fica mais à espreita. Quando cumpre seu papel, impiedosa, causa furdunço. Popularizou-se. Seguiu a tendência de um mercado que vende de tudo – inclusive sangue. Virou espetáculo.
Ao redor de cadáveres e vítimas agonizantes, homens, mulheres, crianças e idosos amontoam-se feito abutres. Sempre a postos, sedentos, multiplicam-se como chaga após um grito horrorizado, precedido de estampidos ou estrondos quaisquer. Diante de corpos presos a ferragens ou estendidos no chão, sacam celulares, registram suspiros dolentes e derradeiros de quem, na luta para sobreviver, acaba virando celebridade.
Dois homens em uma moto colidem contra um poste na Avenida Coletora, Conjunto Fernando Collor de Melo, em Nossa Senhora do Socorro. Arremessado contra a haste de concreto, Antônio Marcos Santos da Silva, poucos 33 anos, morre instantaneamente. Desfalecido, Vicente Paulo Filho, condutor do veículo, é quase engolido pela multidão enquanto recebe o atendimento do Samu. Dentre curiosos, a dona-de-casa Josimara dos Santos segura pela mão sua filha de 8 anos. E mesmo incapaz de afastar-se da cena funesta, dissimula: “Vou tirar minha filha daqui. Ele (o defunto) tá feio, pode assustar a menina de noite, né? Eu tava curiosa, mas já olhei, vou-me embora”.
Surpreendida pelo súbito questionamento do repórter – que também precisa ruminar a morte para retornar à redação com a notícia mais quente, garantindo a audiência e o emprego –, Josimara finge inquietação pelo fato de a sua filha estar vidrada nas vítimas. A pequena é apenas uma dentre tantas outras crianças já impregnadas do sofrimento alheio, e a vontade da mãe é mesmo saciar seu lado humanamente cruel, a curiosidade mórbida, o interesse pela notícia ruim que tem público cativo e ocupa espaços cada vez maiores na mídia.
“É claro que essa espetacularização acontece porque existe uma resposta da população, um interesse muito grande. Esta mãe provavelmente não está nem um pouco preocupada com a conseqüência da cena trágica para sua filha”, diz a psicóloga Maria José Camargo de Carvalho. Para excluídos como Josimara, gente íntima das mazelas sociais, a morte sempre se revela caridosa. Testemunhá-la é a oportunidade de ganhar notoriedade, falar no rádio, aparecer na TV e nos impressos. De ser notado.
Talvez por isso tantas josimaras arrastem suas crias pela mão em direção ao descalabro da cotidiana violência. E o pior: em casos de homicídio, permitem que vivenciem a brutalidade, ao vivo e em cores, o que pode trazer conseqüências ainda mais desastrosas para uma criança. Afinal, acostumar-se a homicídios é estar mais propenso a matar no futuro, principalmente quando o crime é vivenciado dentro de casa, nas entranhas da família.
“Freud descreveu um mecanismo na Teoria Psicanalítica chamado de identificação com o agressor. É o que acontece em casos de alcoolismo. Uma criança pode passar por situações terríveis, de maus-tratos nas mãos de um pai alcoolista, e depois se tornar alcoolista e impor a mesma situação aos seus filhos. Ela se identifica com o agressor até em busca de alguma compreensão desse lado cruel, destrutivo, maldoso que algumas pessoas exercem. Ou pode ser também uma maneira de ‘passar adiante’, uma forma de revide por uma situação que não foi digerida na infância”, alerta Maria José Camargo.

VELADA OU PRONTA PRA CONSUMO?

Por despertar tanto interesse, a morte tem sido alvo de estudo no campo da História. Segundo o historiador Antônio Bittencourt Júnior, coordenador do curso de História da Unit, a morte sempre chamou a atenção, mas hoje é veiculada com muito mais facilidade. “Se levarmos em conta a morte enquanto violência instituída pelo Estado, percebemos que as pessoas sempre assistiram aos enforcamentos, aos rituais da inquisição, com a presença do poder dando legitimidade àquele assassinato. Eram gestos públicos também. Nestes casos, a morte servia não só como punição, mas como um gesto ‘pedagógico’. O cara era enforcado publicamente para que as pessoas percebessem que, caso transgredissem as normas, poderiam ser as próximas; no caso da inquisição, a ideia era fazer com que se cumprisse um caminho reto, de Deus. E de uma forma ou de outra, a morte sempre foi um espetáculo”.
A forma de as civilizações lidarem com o fenômeno natural vem demonstrando, ao longo do tempo, aspectos de evolução do modelo humano. “Quando encontramos sociedades que cuidam dos seus mortos, isso é um demonstrativo inicial de que estão em um estágio de complexidade tal, capaz de fazê-las vislumbrar uma perspectiva de necessidade de cuidados com o homem além da vida objetivamente como se apresenta. Portanto, na história da humanidade a morte tem um papel fundamental”, diz Antônio Bittencourt.
Em sua obra ‘O homem diante da morte’, o escritor francês Philippe Ariès discute esta relação ao longo do tempo. Para um soldado romano, por exemplo, morrer em combate era esperado, honroso; morrer em outra circunstância que não a da guerra era indigno, vergonhoso para toda a família. “Puxando para nossa atualidade, existem mortes aceitáveis, passíveis de publicidade, e outras que são de alguma forma mais veladas, escondidas. Quando um cidadão morre em decorrência da Aids, por exemplo, ainda há a necessidade de se esconder a causa”, afirma o historiador.
O fato é que, independentemente do motivo, o homem não está pronto para morrer e este medo acaba criando um mercado de consumo da morte que também desperta o interesse de pesquisadores das Ciências Sociais. Antigamente as pessoas morriam em casa e eram comuns os relatos das ‘últimas palavras’. Hoje, não. Por maior que seja o avanço da medicina e da tecnologia, ninguém está satisfeito com a possibilidade de ‘bater as botas’. “Ficamos entubados, na UTI, porque não queremos morrer. Ou seja, é o avanço da ciência compreendida como possibilidade de controle da natureza – e a morte é um desses fenômenos naturais, o que nos submete a esse mercado”, revela Bittencourt.
Só que o mercado da morte expandiu-se, extrapolou o temor de quem não pensa em ‘partir desta para uma melhor’, não mais se limita aos planos de saúde e estruturas hospitalares. Virou demarcador socioeconômico. Na história da humanidade, o féretro sempre foi um demonstrativo da escala social e alguns homens investiram no sepultamento com a pretensão de se perpetuar. As pirâmides do Egito, por exemplo, não são meros locais de recolhimento para a morte; são demonstrativos do que uma determinada figura representava naquela sociedade. Hoje, nos cemitérios, também não é difícil distinguir os pobres dos ricos.

Praticidade e luxo no auxílio-funeral

Enedina: “Funeral é mais uma preocupação com os vivos”
No site de uma das principais empresas de auxílio-funeral do país, três planos são colocados à disposição de quem deseja uma ‘morte tranquila’, para si e para a família. O básico, que custa R$ 19 mensais, dá direito a “urna mortuária sextavada com visor semiluxo, forrada em tecido TNT branco, babado sobre babado, alças varão e verniz de alto brilho”, além de coroa de flores naturais em tamanho médio, sala para velório – se disponível –, carro fúnebre para traslado do corpo, aluguel de ônibus e algumas outras ‘regalias’. Já quem tem condição de desembolsar R$ 50 mensais no plano supervip ganha coroa de flores tamanho grande e caixão de luxo, “modelo Barcelona, acabamento interno em cetim, travesseiro preso, babado nas laterais e sobrebabado ocupando todo o interior, cobrindo toda a extensão lateral”. Outra diferença está na quilometragem livre do veículo destinado ao transporte do corpo: 200 quilômetros na opção mais em conta, 400km na mais cara.

Os planos de assistência funerária são a prova de como os rituais de sepultamento retratam a pirâmide social. Mas não estão atrelados apenas ao status de quem morre; crescem pari passu com as novas necessidades da família e representam praticidade numa época em que ninguém tem mais tempo de lidar com a morte.
“Todos estão sempre muito ocupados, falta um sentimento de aproximação principalmente em relação à velhice, doença e morte. Isso é uma característica típica da sociedade ocidental contemporânea e tem a ver com o movimento de hospitalização no Século XIX, que vai separar os doentes das pessoas saudáveis. Você tem um discurso, também no Século XIX, da Psicologia que vai defender a necessidade de afastamento da criança de qualquer tipo de sofrimento – seja doença ou morte – e isso levado a gerações futuras resulta em uma sociedade despreparada para passar por um fenômeno natural. Esse despreparo encontra suporte no desenvolvimento de empresas especializadas – característica do sistema capitalista”, explica a socióloga Enedina Maria Soares Souto.
Hoje, por influência do Protestantismo, existe no Brasil a tendência de construção dos cemitérios horizontais, com lápides discretas e que visivelmente dão a sensação de igualdade social. “Mas essa aparente visibilidade é quebrada quando se faz um estudo mais aprofundado e se percebe que há diferenças, tanto no serviço do funeral quanto na localização dos jazigos nesses cemitérios-jardins”, adverte Enedina, que também faz referência ao historiador francês, estudioso da morte: “Ariès afirma que a preocupação com um funeral não é com o morto em si, mas com o resultado disso para a vida social. Se eu sou um parente negligente, socialmente serei condenado por isso e, a depender da classe social, precisarei investir o correspondente à minha imagem nas relações. É muito mais uma preocupação com os vivos do que com os próprios mortos”, verifica.
“Cada vez mais a ciência avança no sentido de que a gente controle e prolongue a vida, mas o mercado se impõe e diz: ‘por mais que tentemos, não poderemos protelá-la eternamente. Portanto, prepara-te para ter uma boa morte. O homem atual está em um cabo-de-guerra com morte que, no máximo, ele consegue alguns minutos a mais nessa partida inglória”, sentencia Antônio Bittencourt.

Comentários

Grande trabalho jornalístico. Mas isso explica porque tanto gosto pelos Cinform's da vida, pelo Bareta, pelos filmes de ação, pelo Big Brother, enfim...
Adorei ler a reportagem. Parabéns pela pesquisa, pela redação e pelo senso crítico! Textos assim é que fazem semanários como o Cinform um Jornal. Faz falta.
tatiana hora disse…
Li sua matéria no Cinform e achei excelente. Muito bem escrita, bem apurada, etc. É interessante ver matérias que discutem a própria mídia.
.r .coimbra disse…
Como sempre, o jornalista Álvaro Muller sempre trazendo informação com altíssima qualidade, mto bem escrita e com informações que chamam a atenção. Lembro do início da pesquisa e agora tenho o prazer de ler a matéria completa. Parabéns Álvaro pelo trabalho, ficou show de bola!

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