Escrete copo de ouro

Raimundo Macedo: o Pelé (Foto: Marco Viera/ASN)

Se o exame antidoping fosse substituído pelo teste do bafômetro, a coisa ficaria feia para alguns times sergipanos. Aliás, feia não: sinistra! Por aqui há clubes tão empesteados de cachaça que, vez por outra, a depender da direção dos ventos do futebol, o álcool exala pelos corredores da concentração e deixa equipes tão grogues, mas tão grogues, que uma boa campanha pode acabar em vexame numa fração de duas ou três rodadas.


A nhaca, dizem, mistura tudo: cerveja, vodka barata, vinho festeiro ou catuaba – que derruba um time em campo, mas pelo menos tem poder afrodisíaco – aguardente, conhaque, milome, licor e otras cocitas mas. Forte que é danada, resiste ao tempo e não tem sabão em pó, perfume, creolina, Q-boa que dê jeito. É o bendito ranço do futebol boêmio, amadorismo condenado fora de Sergipe, onde o esporte rende milhões, mas que do lado de cá, das migalhas, continua venerado, atraindo técnicos e atletas tão bons de copo, mas nem tão bons de bola.

E já que alguns clubes do futebol sergipano preferem investir em concentrações de boteco, deveriam ter a hombridade de, pelo menos, montar elencos com preparo físico-etílico suficientemente bom para encarar um Brasileirão Série D, por exemplo. Benevolente que sou, posso até sugerir alguns nomes de craques farristas, gênios da boemia. Gente capaz de enveredar nas madrugadas sem perder o tempo da bola.

Minha primeira sugestão é o jornalista Cleomar Brandi. Espécie de Zidade boêmio, Cleomar domina o conhaque com uma habilidade rara, é líder nato dentro e fora das quatro linhas e dispensa esforço para fazer um time correr. Gentleman, mantém a classe mesmo no tratamento aos adversários e é o inventor da ‘cadeirinha’, tipo de carrinho próprio para quem é capaz de roubar bolas na diplomacia. Ou seja, só ele mesmo.

Outra grande contratação seria o radialista Raimundo Macedo. Fenômeno, alia o preparo físico à habilidade como ninguém, joga em qualquer posição do boteco e bate com as duas – mata a cerveja na direita, uma branquinha na esquerda e ainda dribla os adversários em velocidade para pegar o tiragosto. Mais do que um talento desperdiçado pelos dirigentes do futebol boêmio sergipano, Raimundo é um leão, derruba qualquer um nas madrugadas e jamais levou as mãos ao joelho em sinal de cansaço. Raimundo Macedo, para mim, é o Pelé.

Por fim, se em Sergipe o futebol abre tanto espaço para a boemia, confesso que também me imagino ao lado dessa turma, em um escrete copo de ouro. Seria a chance de realizar o sonho de menino, de ser um jogador de futebol. O desejo é enorme, mas quando vejo craques como Cleomar e Raimundo em ação, não me sinto no direito de disputar uma vaga. Diante desses gênios – meus ídolos – percebo que tenho muito a aprender e treino quase que diariamente, com esforço redobrado. Logo, logo, quero estar pronto e à disposição para ajudar a equipe a conquistar o título ou, pelo menos, chegar ao final das competições com todo o fôlego, ainda que ébrio.

Comentários

Álvaro, vc foi muito modesto neste texto. Claro que é um craque do copo. Que tal fazer um teste na escolinha de Maurício Simões?
Este comentário foi removido pelo autor.
Diógenes disse…
Fantástico, Álvaro! Mas pelo que ouvi hoje lána Unit, acho que o amigo aí de cima está coberto de razão! hahahahaaha

Abraço.
Anderson Ribeiro disse…
Alvinho, você é um craque! já presenciei luas se indo e sois chegando, incontáveis vezes e você firme no estilo bossanovista
'copinho e violão'. Hehehehehe.
João Áquila disse…
Nesse time, vc é o Ronaldinho Gaúcho.
Anônimo disse…
Eu tô chegando agora nesse time, mas me arrisco a me considerar uma "Robinho" da vida. Meu brother.. atualmente tenho derrubado muito marmanjo nas birinights da vida.. kkkkkkkkk

Já ouvi dia desses: "Rapaz, essa menina bebe mais que nós todos juntos."

Queria me gabar não, mas eu sou a revelação do "futebol" sergipano. heh

Débora - PovoBunda

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