Miniusina de Divina Pastora vira modelo nacional

Agência Espacial Brasileira vai reproduzir tecnologia para o desenvolvimento sustentável da população de Alcântara, no Maranhão


Representantes da AEB e do ITP visitam miniusina
Fotos: Marcelo Freitas 


Álvaro Müller
Especial para o Jornal da Cidade

Joel de Santana dedicou a vida inteira ao plantio da cana-de-açúcar. Na lida diária com a terra, fincou raízes familiares no município de Divina Pastora, a 39 quilômetros da capital sergipana, Aracaju. Hoje, aos 61 anos, assentado e dono de 25 tarefas, o vetusto agricultor não hesita na hora de explicar como sempre conseguiu dar de comer aos cinco filhos – quatro ainda morando com ele.
“Criei cortando cana na terra dos outros, foi um tempo perdido. De uns 15 anos para cá, consegui comprar um pedacinho de terreno e já estou aposentado também, aí melhorou um pouco. Se eu tivesse essa terrinha antes, seria outro homem hoje, mas estou satisfeito. Aos pouquinhos a gente vai conquistando as coisas. Já vieram comprar minhas tarefas, mas eu não vendo, vou deixar para os meninos. Quem não deixa uma fazenda, deixa um palmo”, diz Joel.
A lógica do mercado da cana-de-açúcar explica por que o pequeno agricultor geralmente precisa derramar suor em terras alheias para sustentar a cria. É dele todo o trabalho de plantar e cuidar da plantação, mas não o direito de negociar o produto diretamente nas usinas. Nessa hora, surge a figura do atravessador, que corta a cana, repassa aos grandes empresários e acaba levando 40% dos lucros ou mais.
O preço de uma tonelada de cana custa, em média, a bagatela de R$ 40, podendo chegar a R$ 60. E se repartir um valor tão irrisório já é difícil, mais complicado ainda para os pequenos agricultores é perder a venda. “Hoje temos uma área plantada equivalente a 400 tarefas e uma preocupação muito grande, pois a usina que retirava a nossa cana para produzir açúcar e álcool está deixando de comprar, isso porque, nas grandes propriedades, os atravessadores conseguem adquirir uma quantidade muito maior, a um preço obviamente menor”, garante o secretário de agricultura de Divina Pastora e também assentado, Reginaldo Almeida.
A situação é difícil, mas uma parceria entre o Instituto de Tecnologia e Pesquisa (ITP) e a Prefeitura de Divina Pastora começa a se apresentar como alternativa de apoio à agricultura familiar. Uma miniusina de produção de etanol foi construída para absorver a produção de cerca de 80 famílias assentadas e transformar a matéria-prima em combustível para veículos das frotas do poder público municipal e de uma cooperativa de táxi. Além de ganhar com a comercialização da cana diretamente na Prefeitura, os lavradores ainda serão beneficiados com o vinhoto, resíduo efluente resultado do processo de fabricação do álcool, que retorna à cadeia produtiva como fertilizante do solo.
A miniusina de etanol custa R$ 321 mil, investimento rateado entre a Prefeitura e a Cooperativa dos Agricultores Familiares do Estado de Sergipe. Está em fase de implantação e a capacidade de produção inicial é de 500 litros/dia. “Divina Pastora será o primeiro município do Brasil a produzir seu próprio combustível, isso é algo notável para o porte da cidade, que não tem uma frota tão grande, mas sinaliza com o interesse de ampliar a renda do agricultor familiar. Nós aguardamos o licenciamento ambiental e a expectativa é de que, no mês de março, a miniusina esteja em pleno funcionamento”, diz o representante de relações institucionais do ITP, Geraldo Viana.
Para um agricultor como Joel de Santana, que passou a vida inteira sem qualquer perspectiva de se desvencilhar dos atravessadores, o projeto de produção de etanol ainda causa certa desconfiança. “Sem ver funcionando, a gente não vai acreditar”, receia. Mas para a Agência Espacial Brasileira (AEB), vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, a proposta é mais do que viável, técnica e financeiramente. Tanto que o Instituto de Tecnologia e Pesquisa ganhou licitação nacional e vai aplicar a mesma metodologia no município de Alcântara, Maranhão, onde o Governo Federal mantém o centro de lançamento de foguetes mais importante do País.
Na última quinta-feira, 3, integrantes da AEB estiveram em Divina Pastora para conhecer a miniusina. “Uma das metas do Programa Espacial é promover melhorias na qualidade de vida da população de Alcântara. Temos comunidades que foram deslocadas em função da implantação dos sítios de lançamento, evidentemente que, com todo o suporte do Governo Federal, foram construídas agrovilas, residências, só que o tempo passou, essas comunidades cresceram e a região necessita de um desenvolvimento sustentável. Você não tem em Alcântara, por exemplo, coleta seletiva. Neste cenário, uma usina de etanol vai trazer benefícios econômicos e sociais, é uma atividade necessária e que nós encontramos a oportunidade de fazer junto com o ITP”, afirma Nilo Andrade, diretor de licenciamentos da Agência Espacial Brasileira.
A miniusina de produção de etanol funcionará fora do Centro de Lançamento de Alcântara e será gerida pela população. “Toda matéria-prima produzida pelo CLA, outros centros instalados, pelo município e cidades vizinhas vai gerar subprodutos para o beneficiamento da comunidade. Além do etanol, temos também uma usina de produção de tijolos para construção civil. A fabricação será gerida pela cooperativa da comunidade, que vai fazer a aplicação e distribuição do que for produzido”, explica Nilo.

Agricultor José de Santana ao lado
da mulher: sacrifício para criar cinco filhos 
TRATAMENTO DE RESÍDUOS

O Instituto de Tecnologia Pesquisa desenvolve hoje uma série de projetos para geração de emprego e renda em Divina Pastora, como a criação de hortas comunitárias e a construção de casas de taipa com material reciclável. Ainda em fase de concepção, o Centro de Tratamento de Resíduos para geração de energia também será aplicado pela Agência Espacial Brasileira na cidade de Alcântara. “Por meio da biodigestão anaeróbia de compostos orgânicos, temos a possibilidade de aproveitar ao máximo os materiais recicláveis, minimizar a área de aterro e recuperar biogás, o que deve gerar em torno de 0,3 megawatts de potência instalada. Isso daria para abastecer cerca de 30% da necessidade de consumo do município de Divina Pastora”, mensura Geraldo Viana.
O diretor administrativo e financeiro do ITP, Cleverton Santa Rita, ressalta que a parceria com a AEB para o desenvolvimento sustentável é pioneira no País. “Não há nada funcionando de forma integrada no Brasil. O modelo envolve muitas áreas do conhecimento, pressupõe interação entre pesquisadores e técnicos de Sergipe e do Maranhão”, comenta.
O presidente do Instituto de Tecnologia e Pesquisa, Temisson José dos Santos, ressalta a importância dos projetos de cunho social. “A ideia é de transferência de tecnologia, ou seja, sair da bancada dos nossos laboratórios e aplicar a inteligência dos nossos pesquisadores, os resultados dos estudos fora do ITP. Este é um dos nossos grandes objetivos e também um anseio da sociedade, que quer ver onde e como está sendo aplicado o dinheiro que o poder público investe para o financiamento de uma pesquisa”, afirma. Segundo Temisson, outros municípios sergipanos já começam a demonstrar interesse nos projetos. “Fizemos rodadas de negociação com prefeitos que estão com visita marcada em Divina Pastora para ver, por exemplo, a miniusina funcionando”.

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